Livros, Resenhas

Resenha: a base do iceberg, por Flávio Sanso (formidável)

Olá, pessoal, eu me chamo F. B. Vlaxio e vim aqui para falar um pouco sobre A Base do Iceberg, do Flávio Sanso – já parceiro do blog, diga-se… – e sobre algumas considerações quanto ao que achei do livro como um todo. Dispensem-se os argumentos ad hominem concernente à minha pessoa, pois o que escreverei abaixo é meramente um miolo de entendimento e opiniões particulares, e, portanto, pensamentos de uma especificidade que, por acaso, será compartilhada em forma de uma resenha crítica.

Sanso é um carioca de 33 anos, formado em Direito e, vejam só!, blogueiro. Assina postagens no Reticência, onde mantém uma lista de contos, crônicas e poesias próprios, e amplia sua atuação na web através do Coruja Cultural, que é um site destinado à divulgação de artistas e eventos culturais. Mas tudo isso vocês já sabiam desde que leram esse post há algum tempo.

Imagem

Uma coisa que me deixou receoso para começar a ler A Base do Iceberg foi a seguinte informação na orelha da contracapa do livro: […] é seu romance de estreia. Argh!, a gente que é brasileiro vindo de um sistema educacional “fálico” (risos) e de uma construção literária defeituosa sempre torce o nariz quando se depara com um título tupiniquim, o que não dizer quando o autor é de primeira viagem! Contudo, como na maioria das vezes, sempre acabamos nos enganando – e é aí que precisamos nos redimir. Isto posto, quero dizer que o livro que inaugurou o Sanso no mundo das publicações é, sem dúvida, um engano para lá de agradável.

A nível de sinopse, o enredo principal conta a história de Pedro, um jornalista excepcional, mas frustrado com o seu emprego atual. Rechaçado intelectualmente pelo seu chefe – história antiga, favores mau quistos –, ele resolve pedir demissão, porém esse é apenas um dos seus problemas, aos quais se somam seu divórcio por uma quase-traição e os conflitos internos de uma possível crise existencial.

A escrita de Sanso é musical, desliza na boca quando lida em voz alta. Dá para imaginar um audiobook com facilidade. O arsenal de palavras que ele usa é interminável, nossa senhora! A estética narrativa é pra revisor nenhum botar defeito. Os capítulos são pequenos e escritos pelo ponto de vista de mais de um personagem – o que gera a impossibilidade de o livro se tornar maçante, pois acaba criando um dinamismo na narração.

A suavidade com que os detalhes são descritos é simples e despretensiosa (talvez por isso eu tenho gostado tanto), e isso nos leva em algum momento a acreditar que o livro não é um projeto ambicioso, mas, então, logo em seguida nos vemos ludibriados, enganados da forma mais cruel que um autor pode fazer, especialmente no que diz respeito às personalidades de cada personagem.

Sanso vai concedendo migalhas racionadas sobre a história por trás da história, criando um ambiente onde especulamos muitas coisas. Mas ele só doa pistas suficientes para o leitor assossegar suas dúvidas, nunca satisfazê-las por completo, e, assim, ficamos com cara de bobos quando nossas tão-perfeitas conjecturas sobre o futuro e o passado se mostram categoricamente equivocadas. Romance de estreia, sei… Pode até ser, mas o autor não está nem perto de ser inexperiente, não deixa nada a desejar, e, admitamos!, é um bocado melhor que muito escritor best-seller vendendo beleza por aí.

Ele floreia quando escreve, encontrando formas simples de descrever coisas complexas e formas adicionais – mais bonitas, certamente – de escrever coisas simples. A maior parte do texto é composta somente pela narração dos eventos, deixando muitas vezes de lado o diálogo verbal entre os protagonistas, mas, veja bem, isso não é um defeito de estilo literário – pelo contrário, a escassez das falas nos incita a criá-las nós mesmos na nossa mente, sempre levando em consideração as características que conseguimos, a duras penas, extrair do que já foi lido.

Vez ou outra, é possível se sentir no centro de um romance noir de Agatha Christie, e aí você constantemente espera que o culpado seja o mordomo. Como no caso de Miguel, por exemplo, amigo de Pedro. Até que ponto vai essa amizade? Será que ela algum dia foi desprovida de interesses outros que não a irmandade entre dois seres humanos? É confuso, mas interessante. Assustador às vezes, mas também empático. Acabamos deixando nossas proposições de lado, mas o fato é que elas existiram.

O grande objetivo da história, creio eu, foi a criação caleidoscópica dos sentimentos experimentados pelos personagens, compartilhados entre si, e a interpretação particular de cada verdade contada. Há várias versões para um mesmo evento, mas no final tudo passa a fazer sentido e descobrimos que ninguém nunca está completamente errado. Existirá sempre uma ambiguidade de compreensão rondando a vida deles.

Despois que Pedro recebe a maioria dos baques conseguintes às suas desventuras (a parte mais legal do livro começa lá pela centésima página), ele passa a se dedicar àquilo que sempre quis fazer e nunca teve coragem, escrever um livro sobre a Revolução Fraterna e seu principal protagonista, Donatelo Veras. A princípio, pensei que a revolução descrita era mesmo verídica, e me empenhei em alguns minutos de pesquisas online para, só então, constatar que ela era fictícia. O que me fez acreditar na sua veracidade, no entanto, foi nada menos que a credibilidade e confiança com que o autor descreve as cenas. Ele me fez acreditar.

Entrementes, apesar de todo o mar de rosas que eu estava vivendo na leitura, há um aspecto que me incomodou um pouco. Não chega a ser uma falha; apenas, talvez, um equívoco de gentileza. Depois que memorizamos a estrutura da narrativa, passamos a achar a história de certo modo previsível, não de acordo com os fatos, é claro, mas no quesito organizacional do enredo: ele primeiro nos agracia com uma dúvida, e, ao invés de fazê-la perdurar para que nos corroamos de curiosidade, simplesmente nos dá as respostas logo em seguida, sem falta. Isso acontece algumas vezes, muito embora não seja algo que atrapalhe na leitura. Como disse, não é uma falha. Mas foi algo que ficou martelando na minha cabeça por alguns bons capítulos.

Mais do que uma história de versões e dicotomias, A Base do Iceberg ganha pontos positivos pelo simples fato de ser uma busca. Uma jornada, se preferirem. O encontro de Pedro com seu ídolo é delicado, razoável e sensato, na medida certa para nos fazer simpatizar com a comunhão entre ambos. Tendo sempre em mente, é óbvio, que nem tudo é o que parece.

Pedro, antes de jornalista, é escritor. E em determinadas partes do livro ele chega mesmo a dar dicas, mesmo que discretamente, para quem gostaria de escrever. Organização, foco, café… várias dessas coisas são artifícios que ajudam e muito na hora de colocar no papel aquela história carcomida de séculos de idade que a gente “nunca tem tempo” para elaborar completamente. E, como seria de esperar, o bloqueio mental é uma doença dantesca que aflige a todos os mortais, independente da sua raça, credo, orientação sexual ou gosto musical.

Fiquei ao mesmo tempo chocado e sem fôlego quando ele roubou o diário do museu. Eu no lugar dele, muito provavelmente, teria feito a mesma coisa, mas, estando fora de um romance, eu com certeza seria pego em flagrante. O livro tem dessas coisas, ora deixa a gente sem fôlego, ora apreensivos, ora com vontade de socar certos chefes à la Tutankamon. Sanso quis brincar com nosso estômago e conseguiu nos levar até as vias de fato para ver se aguentaríamos determinadas situações. Genial.

Uma das veias importantes no quesito social é o apelo que o livro faz quanto à cegueira tupiniquim quando se trata da própria história. Isso é uma verdade tenebrosa, devo admitir. De algum modo, não sei bem o porquê, tornamo-nos xenofílicos ao ponto de vendermos uma “patriofobia” social quando nos relacionamos. Parece que os gringos e sua bagagem cultural são sempre mais interessantes que nós mesmos. Acabamos nos esquecendo, porém, que estamos quase sempre equivocados quanto a isso. E sabem por quê? Ora, isso é simples: não vivemos em um país politicamente incorreto, vivemos num país incorreto politicamente.

O livro termina de forma saudosista e esperada. Minhas expectativas foram todas supridas, mas, para falar a verdade, essa é mais uma das gentilezas do autor. Eu explico: fiquei surpreso. Mais do que imaginava, na verdade. Em algum lugar, entretanto, pensei que haveria um final odioso, mas válido. Esperava um complemento derradeiro menos provinciano e mais funesto, quem sabe. A história, contudo, é sensacional, e coloco minha mão no fogo por essa afirmação. Meu trecho favorito é um dos últimos:

Abandonar-se ao sumiço na escuridão, mergulhar no vazio, deixar de existir. Dormir é uma sensação desesperadora, e se não damos conta disso é por causa da certeza que se tem a respeito do ato de acordar. Ao final de todos os dias me entrego à expectativa infantil de conseguir sonhar. De preferência um sonho em que eu consiga voar pela extensão de distâncias improváveis, assim como fazem as aves que ensinam o caminho da verdade.” (SANSO, p. 321)

Entre altos e baixos, as mais de trezentas páginas são preenchidas por gracejos narrativos que nos fazem querer terminar a leitura em uma só tentativa. Existe uma monotonia recorrente no ritmo dos acontecimentos, mas, de novo, o que seria, talvez, um ponto negativo da história acaba se tornando um de seus trunfos. Sanso não se apressou em fazer seus relatos, tomou o tempo necessário para tratar de cada aspecto, e, então, alcançou o topo da trama com maestria.

Esse livro com certeza entrou para a minha lista de títulos que pretendo reler no futuro. Algo me diz que a história é atemporal, pois, mais do que qualquer coisa, trata-se de relações e convivências, verdades e omissões. Faço votos de que o Sanso possa continuar na carreira de escritor e lance mais que rapidamente um novo título. Logo. Gostaria que o Brasil tivesse, atualmente, mais autores desse calibre, principalmente nessa onda cinzenta de tons sexuais pela qual passamos.

Espero que tenham gostado (e entendido) da resenha. É uma história que recomendo sem medo de errar para pessoas entre 18 e 109 anos.

Obrigado pela atenção e até uma possível próxima vez,

Vlaxio. =)

Anúncios

4 thoughts on “Resenha: a base do iceberg, por Flávio Sanso (formidável)”

Gostou? Não gostou? Deixe seu comentário, vamos ficar muito felizes em respondê-lo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s