Livros, Resenhas

Resenha: Two Boys Kissing – David Levithan (leitura obrigatória)

 

Digo leitura obrigatória me referindo ao livro, é claro, e não a esta resenha em particular. É bom informar logo no comecinho que a Galera Record divulgou que vai publicar o livro no Brasil, como vocês podem conferir aqui. Devo admitir que estou me corroendo de curiosidade para saber como serão a capa e o título brasileiros, se é que vocês me entendem…

Antes de qualquer coisa, já me desculpo por:

  1. Escrever um texto horrorosamente longo (defeito de fábrica, irreversível);
  2. Divagar mais do que o normal (é quase natal, screw it!);
  3. Dar alguns spoilers (sem eles, a resenha ficaria muito nhééém).

 Two Boys Kissing by David Levithan

Nunca tinha lido nada do Levithan. Pra falar a verdade, o último YA que li foi o Apanhador no Campo de Centeio (Salinger, seu lindo!), e antes disso não fazia pouco tempo desde a minha última leitura dessa categoria literária. Pode parecer meio óbvio, mas o que me chamou a atenção para o 2BK (twoboyskissing) foi exatamente aquele título sobreposto sobre aquela foto da capa. Sejamos francos, ok? Esse tipo de coisa ainda é muito difícil de encontrar dando sopa por aí nas livrarias, mesmo nas estrangeiras. Claro que agora é largamente mais comum que dez anos atrás, por exemplo, quando o Levithan lançou o seu Boy Meets Boy, mas, enfim…

Antes de entregar o ouro, deixem-me fazer uma breve explicação sobre a estrutura narrativa. A história é contada através de um coro grego. Este tipo de narração remete às peças e musicais feitos na Grécia Antiga, onde um conjunto de várias vozes contava uma mesma história em uníssono, e, por isso, parecia ser apenas uma única pessoa narrando, mas envolvendo várias delas. Perceberam? Se ainda com essa minha bela explicação vocês não conseguiram entender, aqui está um link para a Wikipédia falando sobre o assunto.

Nas poucas vídeo-resenhas que pesquei no YouTube, e em outras que li em alguns blogs do país do Tio Sam, notei que as pessoas sempre reclamavam dessa estrutura, pois, de acordo com elas, a história ficava confusa em algumas partes. Bem… ou essas pessoas têm algum tipo de déficit de atenção ou são, er…, desmioladas demais. Não acho que os narradores tenham feito confusão alguma. Pelo contrário, no final de tudo, vocês têm mais que certeza de que a história não seria tão boa se tivesse sido contada de outro jeito. Uma comparação ótima para esse tipo de narração é A Menina que Roubava Livros (abraço, Zusak!), onde a narradora era a Morte – vejam bem, ela não é um indivíduo físico, mas possui independência mental para contar a história, e, embora ela não seja um coro, ainda se assemelha aos aspectos estruturais do 2BK.

Agora, deixando essas características técnicas do livro de lado, vamos ao que interessa. Na minha nada modesta opinião, Levithan foi um cara muito do seu inteligente quando decidiu optar por escrever capítulos curtos. Na verdade, nem chegam a ser capítulos, o que acontece é uma pequena quebra de linhas ou páginas, e, então, passa-se para o próximo ponto de vista dos personagens. O coro grego do qual falei é composto por jovens e adultos mortos pelo vírus da AIDS, e que agora, muito mais conscientes dos próprios destinos, sabem como ninguém avaliar o que se passa na cabeça dos protagonistas, sempre fazendo pontuações em várias partes da história. Esse negócio da AIDS, inclusive, deixou tudo mais emocionante. O começo do livro, pelo amor de Deus, é sensacional

Quando vocês forem ler esse livro, estejam preparados para receber vários tapas na cara. Sugiro também que, se vocês forem seres humanos decentes, guardem consigo alguns lenços de papel para os inevitáveis chororôs (isso realmente existe?) que acontecerão. Li o 2BK no Kindle, mas se tivesse lido em um livro físico, haveria marcações a cada cinco páginas. É sério… a história é cheia de anedotas que vocês vão querer marcar para ler posteriormente, acreditem em mim (separei algumas pra vocês perceberem do que eu tô falando).

O enredo principal gira em torno de Harry e Craig, dois adolescentes de 17 anos que resolvem bater o recorde mundial do Guiness de beijo mais longo já registrado. E, sim, essa é uma história baseada em fatos reais (link para um site com o vídeo dos verdadeiros caras). Eles são, digamos, o miolo da história, ao redor da qual giram plots secundários, como: o do casal Neil e Peter, que estão juntos há um ano (o que no mundo gay é bastante tempo); o de Ryan e Avery, que acabaram de se conhecer e estão na fase da construção de um possível relacionamento; o de Tariq, que sofreu algumas desventuras e acabou inspirando a tentativa de quebra do recorde do beijo; e de Cooper (meu personagem favorito, diga-se), que vive solitário na solidão do seu quarto a sós com sua depressão funesta (redundância desnecessária, talvez, mas a resenha é minha, superem e acostumem-se!)

Por essa sinopse meia-boca, vocês podem me perguntar o que há de mais na história desse livro. E eu lhes respondo com um sonoro NADA. Pelo menos não deveria haver nada de mais. É uma trama comum, corriqueira e cosmopolita. É possível encontrar personagens como os do 2BK em qualquer parte do mundo. Mas o que torna o livro especial – além da delicadeza com que ele nos estapeia com sua luva de pelica – é exatamente o pioneirismo. É claro que sempre teremos os clássicos de Whitman e de Baldwin, mas estes são autores que permeiam o underground literário que é o mundo LGBT. Já o Levithan é imensamente premiado na parte mainstream da literatura para jovens adultos, e esse detalhe singular o coloca à frente de um carro-chefe (colorido com as cores do arco-íris e plumas esvoaçantes) para um acervo de homo-literatura da melhor qualidade nos tempos atuais.

Se ainda assim vocês não concordam comigo, eis algumas passagens de interesse geral para aqueles que pretendem adquirir um exemplar:

Primeira:It was an exquisite irony: Just when we stopped wanting to kill ourselves, we started to die. Just when we were feeling strength, it was taken from us.”

Tradução pessoal:Era uma primorosa ironia: Justo quando paramos de querer nos matar, começamos a morrer. Justo quando estávamos sentindo força, ela foi tirada de nós.”

Segunda:Love is so painful, how could you ever wish it on anybody? And love is so essential, how could you ever stand in its way?”

Tradução pessoal:O amor é tão doloroso, como é que você pode desejá-lo a alguém? E o amor é tão essencial, como é que você pode ficar no seu caminho?

Terceira: “Love, he thinks, is a lie that people tell each other in order to make the world bearable.”

Tradução pessoal:O amor, pensa ele, é uma mentira que as pessoas contam umas às outras para tornar o mundo suportável.”

Harry e Craig eram namorados, mas agora são apenas bons amigos. Pelo menos por parte de Harry, já que a gente tem a veemente sensação de que uma das razões pelas quais Craig quis bater o recorde do beijo foi exatamente uma tentativa de voltar a namorá-lo. A ideia do beijo, aliás, foi do próprio Craig, que desde pequeno era fã do livro dos recordes. Eles realmente têm uma amizade muito forte – caso contrário jamais teriam aguentado tanto tempo beijando um ao outro. O ponto mais forte na história dos dois, no entanto, nem é o beijo em si, mas o fato de que, de um lado, os pais de Harry são (os melhores pais do mundo) bastante abertos à orientação sexual do filho e o apoiam cem por cento na sua empreitada, enquanto que os pais de Craig, que não sabiam nada sobre a homossexualidade do filho, descobrem tudo exatamente por causa do beijo, que, àquela altura, já havia alcançado proporções midiáticas continentais.

Neil e Peter têm uma relação um tanto parecida com a de Harry e Craig, sendo que os pais de Peter acolhem ao Neil quase como um segundo filho, e apoiam louvavelmente o namoro de ambos. Os pais de Neil sabem sobre sua homossexualidade – houve situações que deixaram o fato bem claro –, mas criam uma barreira quase intransponível de silêncio que beneficia a todos por não quererem tocar no assunto, ou simplesmente acharem que se não falarem sobre aquilo, eventualmente irá desaparecer. Esse núcleo do livro é um dos que mais nos deixam tristes (e consequentemente nos faz suar pelos canais lacrimais), porque sabemos que uma reação obtusa e de omissão por parte dos pais de Neil consegue ser muito pior do que uma reação agressiva ou explosiva. Não estou falando que seria melhor se os pais dele o espancassem e o expulsassem de casa, só estou dizendo que é muito mais doloroso quando eles fingem que nada acontece. Isso cria feridas sentimentais que não curam com facilidade, sei disso por experiência própria.

Ryan e Avery são o casal menos perigoso do livro. Como acabaram de se conhecer, ainda estão tentando encontrar coisas em comum (ou não) que possam construir laços afetivos entre ambos. Mas uma coisa que me incomodou bastante na história deles dois foram os fatos de não ficarmos sabendo sobre a família de Ryan (ou porque ele não deixa o Avery entrar na casa dele) e de não sermos inseridos mais a fundo na história da condição física de Avery, que deixa pessoas como eu (que não conhecem praticamente nada sobre intersexualidade) extremamente curiosas e carentes de informações (alô, é da casa da Lady Gaga?). A linguagem corporal deles, contudo, é exatamente a que vemos em duas pessoas tímidas ante às casualidades dos primeiros encontros, e isso nos diverte um pouco.

Tariq é um ótimo dançarino. E um ótimo produtor de eventos. Mas sua história é pesada do ponto de vista do preconceito. Vejam bem, Tariq é negro E GAY. Não que isso o desmereça em quaisquer aspectos ou o faça menos humano do que eu, vocês e o mundo afora. Porém, nesse pardieiro de preconceitos que chamamos de sociedade hétero-normativo-racista (é diferente de apenas heterossexual racista, google it!), se você por acaso acaba por ser negro e gay, você se torna simplesmente uma via dupla de prazer para os jogos animalescos e irracionais de gente que não pensa como um ser humano de verdade. Não é de se espantar, portanto, que Tariq venha a ser o bode expiatório da homofobia mostrada na história (ela está presente no enredo dos outros, mas com ele é ainda pior).

E, finalmente, Cooper. Ele é aquele cara que conhece um montão de gente, mas não é amigo de ninguém. Prefere viver sozinho no seu mundinho a fingir que gosta de verdade de estar rodeado de pessoas. É um adolescente extremamente inteligente, mas é subestimado justamente por ser um quase anti-social. Vive em conflito com a própria sexualidade, e, como escape, enfurna-se nos sites de paquera e salas de bate-papo gays, onde, quase cem por cento do tempo, fala apenas sobre sexo com seus contatos online. O coro grego que narra o livro está muito mais presente na parte do Cooper que em qualquer outra parte, exatamente por ele estar sozinho, então os diálogos são muito raros – o que abre brechas para as ponderações daqueles que um dia foram os Coopers de seus tempos. Não há dúvida de que ele está em depressão, e muito provavelmente vocês usarão alguns bons lenços de papel quando ele estiver em cena – como quando os pais dele flagram suas conversinhas apimentadas com completos estranhos, e ele foge de casa. Na verdade, foge da própria vida medíocre, da frivolidade da sua cidade, da estupidez das pessoas à sua volta, e só não foge desse mundo porque é impedido no último momento. Particularmente, eu queria que ele tivesse morrido. Sim, ele era meu personagem favorito, e eu-queria-que-ele-tivesse-MOR-RI-DO. Eu me sentiria muito mais completo se tivesse acontecido desse jeito, se a realidade como ela é tivesse sido mostrada. A situação que se sucedeu não era impossível, mas era improvável. Se Cooper tivesse conseguido se matar, eu passaria semanas odiando David Levithan, mas colocaria seu livro no topo junto com as minhas leituras favoritas de todos os tempos. Não foi assim, no entanto, e eu respeito a decisão do autor. Achei muito bonzinho da parte dele, mas ele sabe o que faz…

Este é um livro que recomendo com bastante afinco, não só aos jovens adultos (independentemente de suas orientações sexuais), mas principalmente a pais e educadores. A pais porque a história é quase um guia de como lidar com a sexualidade de seus filhos, e eu não estou me referindo somente à homossexualidade – existem muitos héteros confusos e que se dariam muito melhor na vida se tivessem pais mais preocupados com suas ponderações nesse quesito. E recomendo a educadores, pois as escolas brasileiras são uma verdadeira miscelânea de diversidade cultural, e nada mais importante que os professores para intermediarem discussões sobre esse assunto de modo a abrir a mente dos alunos e trazê-los, de uma vez por todas, para o século atual. Eu sei, entretanto, que isso está longe de acontecer, e os motivos são do conhecimento de todos.

Pretendo adquirir um exemplar tupiniquim quando ele for lançado no Brasil. Mas minha ansiedade maior se dá pela curiosidade da recepção dos brasileiros quanto ao livro. Se a capa e o título (traduzido literalmente) permanecerem os mesmos, quero ver a reação das pessoas quando se depararem com o livro nas prateleiras das livrarias. É óbvio que quem lê tem muito mais propensão a ser uma pessoa de mente aberta, mas nós não podemos deixar de lado o fato de que nosso país é maioritariamente anti-gay, e esse tipo de coisa é algo que ainda choca muitos provincianos – especialmente por sermos uma das nações mais católicas do mundo.

David Levithan escreve o livro com delicadeza, e sem muita pressa. Ele nos guia por um caminho específico, sempre preparando nossa cabeça (e coração) para os eventos que estão por vir. Tenho quase certeza de que ele escreveu esse livro levando em consideração que seus leitores não seriam apenas pessoas de 15 a 25 anos, mas pais e mães (que talvez comprassem um exemplar meio furtivamente, receosos de que fossem descobertos) que se preocupam ou pelo menos dão um mínimo de atenção aos seus filhos e filhas gays. O livro inclusive aborda esse lado. Muito embora seja um tipo de egoísmo negar alguém pela orientação sexual, ainda é muito recorrente que os genitores desses indivíduos sejam frutos de uma criação defeituosa e exclusiva. Mas os tempos estão definitivamente mudando, e essa passagem é uma das mais tocantes:

Quarta:There will come a time – perhaps even by the time you read this – that people will no longer be on Facebook. There will come a time when the stars of your favorite teen TV show will be sixty. There will come a time when you will have the same unalienable rights as your straightest friend. (Probably before any of the stars of your favorite teen TV show turn sixty.) There will come a time when the gay prom won’t have to be separate. There will come a time when you look at someone younger than you and feel that he or she will know more than you ever did. There will come a time when you will worry about being forgotten. There will come a time when the gospel will be rewritten.”

Pausa para limpar uma lágrima fugidia.

Tradução pessoal:Virá o tempo – talvez até no momento em que você ler isto – em que as pessoas não estarão mais no Facebook. Virá o tempo em que a estrela do seu programa de TV adolescente favorito terá sessenta anos. Virá o tempo em que você terá os mesmos direitos inalienáveis que o seu amigo mais hétero. (Provavelmente antes que qualquer estrela do seu programa de TV adolescente favorito faça sessenta anos). Virá o tempo em que o baile gay não terá de ser separado. Virá o tempo em que você vai olhar para alguém mais novo que você e vai sentir que ele ou ela saberão mais do que você jamais soube. Virá o tempo em que você se preocupará em ser esquecido. Virá o tempo em que o evangelho será reescrito.”

Acho que esse parágrafo fala por si só. Acredito com todas as forças que ele se tornará realidade. Já está se tornando, para ser franco, mas espero que não demore tanto tempo. Com todo o respeito que passo a nutrir por esse autor, eu acrescentaria apenas mais um adendo a esse poço de verdades que ele escreveu:

Meu parágrafo:There will come a time when we will regret all the bad thing we did to gay people, and, if they allow us, we will laugh by their side of how stupid we once were.”

Minha tradução:Virá o tempo em que nos arrependeremos de todas as coisas más que fizemos aos gays, e, se eles nos permitirem, riremos ao lado deles do quão estúpidos fomos uma vez.”

Isso é tudo, pessoal. Espero que eu não tenha decepcionado ao falar desse livro que é um primor dos YA’s que estão em evidência. Gostei tanto do Levithan que já comecei a ler Will Grayson, Will Grayson, que ele escreve em parceria com o Green. Pretendo caçar todos os outros títulos dele e devorá-los imediatamente.

Até uma possível próxima vez,

Vlaxio.

Anúncios

Um comentário em “Resenha: Two Boys Kissing – David Levithan (leitura obrigatória)”

Gostou? Não gostou? Deixe seu comentário, vamos ficar muito felizes em respondê-lo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s