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Resenha: Mar da Tranquilidade – Katja Millay

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Indo contra todas as expectativas, eu gostei desse livro. Sério mesmo. Algumas amigas apostaram que eu odiaria, mas acabou acontecendo o inverso. Elas tinham motivos para achar isso, é claro, pois dificilmente (ou quase nunca) leio livros cuja categoria literária principal é esse tipo de romance rasgado – especialmente histórias com tanto hype na mídia.

Comecei a ler achando o plot bem bacana, mas me irritando um pouco com o tipo de narrativa da autora. Ela escreve quase tudo no presente – mesmo as coisas que aconteceram no passado. Por exemplo, vamos analisar uma sentença. “No dia de ontem, tomei banho, me arrumei e fui ao dentista”. A narrativa do livro transformaria essa frase para “No dia de ontem: tomo banho, me arrumo e vou ao dentista”.

Perceberam a diferença? Chega a ser quase mecânico. Geralmente, ferramentas como essa são utilizadas em poesias, não em histórias contínuas – pelo menos, não na maioria. Você pode estar pensando: “Nossa, que frescura do Vlaxio!”. E é verdade. Frescura ao quadrado. Mas, na minha opinião, são coisas bem pequenas e “irrelevantes” como essa que determinam o quanto gostamos de uma leitura. E, além do mais, eu tenho o direito de não apreciar a escrita dela, certo?

No entanto, assim que você se acostuma (ou releva) essa lombada na narração da história, o livro começa a mostrar suas qualidades. Para começo de conversa, essa trama não é lá muito agitada – e eu falo isso no melhor dos sentidos. Sabe aquele livro com o nível perfeito de monotonia, que você adora ler num dia frio, sentado num lugar confortável e, bah!, tomando um Nescau quente? É exatamente como posso resumir o Mar da Tranquilidade.

Particularmente, livros “lentos” que conseguem não ser chatos são incríveis. Se a gente parar pra pensar um pouco, os livros mais badalados têm um enredo de história onde tudo acontece ao mesmo tempo, e a leitura precisa fluir na mesma velocidade do fôlego do autor. Não que isso seja algo errado ou ruim. Quero apenas deixar claro que livros com aquela pegada de vai-com-calma – que constroem suas tramas aos poucos – também são dignos de nota. E foi o que aconteceu nesse caso.

Tudo é mostrado ao leitor sob dois pontos de vista. O de Nastya Kashnikov (ufa! Acho que escrevi certo) e o de Josh Bennett (que, sem nenhum motivo, me lembrou Elizabeth Bennett, do Orgulho e Preconceito da Jane Austen). Os dois são pessoas que a gente gosta logo de cara – okay, talvez com a Nastya seja necessário um pouco mais de esforço. Mas é exatamente essa dinâmica entre os pontos de vista que não deixa a história ficar entediante. A ligação entre as narrativas de ambos foi bem conectada, e, por isso, o livro leva alguns “joinhas” a mais. Fora que há algumas anedotas bem legais para marcar no decorrer do texto.

Agora, uma curiosidade. Não é spoiler, porque vem dizendo na contracapa do livro. Por alguma razão, eu me fechei ao fato de que a protagonista não fala. Não que ela seja muda, apenas não fala e ponto final. Na verdade, só fui saber disso no fim do terceiro capítulo, e dei um leve tapa na testa dizendo “ahhhhhhh, tá”. Nisso o livro me surpreendeu. Foram necessárias mais de vinte páginas para eu descobrir que Nastya não falava, e, consequentemente, me caísse a ficha de que, em nenhuma frase, ela tinha se manifestado verbalmente. Tudo o que eu havia lido até então (e eu voltei as folhas para atestar isso), havia sido somente os pensamentos dela. E de repente percebi que a autora sabia levar muito bem a história, mesmo sem que a protagonista tivesse que falar em voz alta. Durante o andamento do livro, obviamente, descobriremos o motivo de ela escolher ficar sempre calada.

A nível de sinopse, Nastya é uma ex-pianista prodígio, que cursa o ensino médio, está fugindo do seu passado, e passa a frequentar uma escola nova numa cidade diferente. A intenção dela é se fechar para o mundo – coisa que faz até com alguma facilidade –, mas (tem sempre um “mas”, sempre!) ela acaba conhecendo Josh Bennett (ele é legal). Bennett é o antissocial dessa escola, e as pessoas parecem respeitar o desejo dele de estar cagando e andando para o resto do mundo, pois – coitadinho – todos a quem ele já amou na vida morreram.

Só por esse cenário já podemos identificar a fórmula matemática do clichê: a desgraça de um + a desgraça do outro = romance desgraçado de ambos. Sim, a história é um clichê periclitante nesse sentido. Mas, vejam bem, praticamente nada nesse mundo é original, portanto, para algo sobressair-se, é necessário fazer uma escolha do que contar. Katja Millay acertou nessa escolha, e – muito embora a história não seja lá a coisa mais original do mundo – o resultado do livro não é algo que encontramos facilmente por aí.

A maioria dos personagens secundários é divertidíssima. Drew, Clay, Sarah… e assim por diante. O melhor de tudo é que, pelo fato de os coadjuvantes serem bem trabalhados, mesmo despois que o livro acaba, ficamos imaginando como seria o futuro de cada um. A autora não faz a gente gostar apenas dos protagonistas, entendem? Podemos nos identificar com todos os outros em várias partes. Ponto positivo.

Mas, então, chegamos às partes que odiamos. Claro, claro, como toda história romântica que se preze, temos os ápices obrigatórios. Todos nós sabemos que guardar segredos de quem gostamos é sempre um desastre anunciado, não é? Tudo acaba em merda. Emocionalmente falando, é claro. O que eu quero dizer é que, em dado momento, as perguntas não respondidas sobre o passado de Nastya começam a se tornar um elefante branco na relação dela com Josh. E blábláblá… shit happens… blábláblá… traição… blábláblá… todo mundo chora, grita, esperneia, faz o diabo a quatro… Aquele melodrama todo que a gente já conhece.

Eu não posso contar a vocês mais do que isso, pois ir descobrindo o tal do passado cabuloso da Nastya faz parte da diversão de ler esse livro. É óbvio que se você for bom em dedução, acabará descobrindo as coisas antes de elas serem reveladas na forma escrita. As entrelinhas desse livro estão cheias de pistas, e você só precisa segui-las como um detetive obediente.

Para finalizar, quero dizer que esse é um romance, mas não um romance típico, desses dos quais as prateleiras das livrarias estão abarrotadas. É brega, mas não aquele tipo de brega que te faz engolir o próprio vômito. Faz você rolar os olhos algumas vezes, mas de um modo que te deixa… feliz(?)… Ambos os protagonistas são divertidos, e – devo admitir – são também pessoas fortes, que, caso existissem na vida real, seriam admiráveis. Em suma, é um livro com cara de livro, mas que não se assemelha a um livro de verdade. Deu pra entender?

Bem, se não deu, lide com isso.

Eu volto numa próxima ocasião,

Vlaxio.

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