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Resenha: Uma casa no meio do caminho, de Barry Martin & Philip Lerman

 

 

thisone

Me considero um leitor razoável, por isso acho que posso julgar livros pelo menos no que diz respeito às intenções que o autor gostaria de mostrar em suas páginas. É exatamente por causa disso que tenho minhas dúvidas sobre esse livro. Devo me fazer entender nas próximas linhas.

Aí a velhinha morre.

Não se preocupem, isso está longe de ser um spoiler. Uma Casa no Meio do Caminho, como explicado pela Tashiro aqui, é um livro que ajudou na divulgação do filme da Pixar, Up: Altas Aventuras. No próprio filme a velhinha morre, e quem o assistiu deve lembrar muito bem. Mas não é disso que o livro trata.

Uma Casa não é baseado em uma história real. Ele É uma história real, contada por um dos protagonistas, de modo meio que autobiográfico. A bem da verdade, é uma dupla-biografia, pois ao passo em que ele conta a sua própria história acaba contando a história da velhinha de uma tacada só.

Concernente à sinopse, a história fala sobre Barry Martin, o responsável pela construção da obra de um shopping em um bairro tradicionalíssimo de Seattle. Mas tem uma “pegadinha”. O local onde o shopping será construído foi comprado pelos construtores, e todos os moradores da área venderam seus imóveis por uma quantia razoável para que o prédio pudesse ser construído. Todos, menos uma. Edith Wilson Macefield — que gosta de se apresentar pelo nome completo, diga-se de passagem — é a única moradora que não arreda o pé de sua casinha, nem mesmo por 1 milhão de dólares.

Logo no primeiro dia do início das atividades, Barry — que, como superintendente de construção, sempre gostou de conhecer as pessoas dos arredores da obra — resolve ir até a casa da famigerada velhinha de 81 anos (se não me engano) que se recusa a vender sua casa. E é a partir daí que a história pega o embalo.

Mas não se engane. O livro começa realmente… fofo, digamos assim. Porém, conforme a narração se desenvolve, a história vai ficando cada vez mais densa e profunda. Então, você percebe que ele não é um livro fofo. Na verdade, é um livro que fala sobre a vida, juntando tudo aquilo que pode ser extraordinário e tediosamente comum ao mesmo tempo. Mas, mais que tudo, ele mostra a seca perspectiva de uma história real, que não se utiliza de ferramentas criativas para inventar coisas que contradigam a realidade.

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Uma curiosidade que gostaria de compartilhar é que, desde a primeira página do livro, eu só conseguia imaginar Edith como a Madame Foster do desenho animado A Mansão Foster Para Amigos Imaginários. Pode parecer improvável, mas em várias das cenas eu conseguia inclusive imaginar a Edith falando com a voz da dubladora da Madame Foster. Para além de qualquer percepção quanto aos personagens, essa associação que fiz na minha mente enquanto lia o livro me fez simpatizar ainda mais com Edith.

Voltando à história, quando Barry acaba se tornando amigo de Edith aos poucos, todo mundo começa a achar que ele só está fazendo isso [a tentativa de amizade] para convencê-la a, enfim, aceitar a oferta dos construtores e vender a casa. O que as pessoas sequer imaginavam, no entanto, era que Barry faria exatamente o contrário.

O teor mais intenso da história fica por conta da representação da velhice. Não pretendo ofender ninguém, mas também não vou ser hipócrita, por isso posso admitir que a velhice é uma bosta.

Calma lá, não me julgue tão rápido.

Não estou dizendo que ser velho é ruim. Estou dizendo que ser velho não é bom. Pergunte para qualquer idoso se ele gostaria de voltar à juventude e depois me dê uma resposta. Eu não “penso” isso, eu “sei” disso, porque convivo com algumas pessoas idosas que corroboram exatamente essa perspectiva sobre a velhice.

No caso de Edith, envelhecer foi quase como se sua vida a estivesse traindo. Justo ela, que viveu uma juventude boêmia, ativa e até perigosa (ela foi jovem durante a Segunda Guerra Mundial e esse é todo o spoiler que eu vou dar sobre ela ter sido participante ativa no meio dos nazistas). Tornar-se uma anciã a privou de vários dos prazeres que ela possuía. O que mais a transtornava, contudo, era que quanto mais envelhecia mais ela precisava abdicar de sua independência, da qual sempre teve tanto orgulho. Para ela — e para qualquer outro ser humano, tenho certeza —, ficar à mercê da ajuda dos outros, impotente e invadida, era nada menos que uma humilhação com a qual ela teria de conviver até os seus últimos dias.

Conforme Barry se tornava mais chegado à Edith, mais responsável ele se sentia por ela. Por isso, não foi surpresa quando ele acabou se tornando o seu cuidador, quase como um pai, e passou a fazer parte do dia-a-dia dela ininterruptamente. Sua família entendia e o apoiava, mas não vou dizer que não se irritavam com o fato de ele ter ficado ausente em casa para cuidar de uma mulher idosa que nem conhecia havia pouco tempo.

É uma atitude nobre, sem sombra de dúvidas. Eu não sei se teria capacidade de tanto despojo para cuidar de uma outra pessoa, que nem minha parente era. Mas o melhor de tudo — e por isso o livro ganhou tantos pontos comigo — é que Barry, enquanto narrador da história, não tenta endeusar a si próprio, fazendo parecer que ele era um homem altruísta e que merecia o prêmio de melhor-pessoa-do-ano. Para ser sincero, Barry não escondeu nada, e quando digo nada estou me referindo aos pensamentos frequentes que ele tinha de jogar tudo para o alto e mandar Edith e sua velhice à merda. Em determinado momento da história — numa cena que envolvia uma arma —, Barry foi tão sincero que eu não conseguia decidir se aquilo era monstruoso ou louvável.

A sinceridade compartilhada por ele — muitas vezes sobre intenções nada decorosas — é um respeito com o leitor. Se você senta para escrever um livro sobre uma história que realmente aconteceu, o mínimo que se espera é que você coloque tanto as partes “bonitinhas” quanto as partes cruéis, inglórias, fatídicas. Há exemplos disso pelo livro inteiro, como nesse parágrafo:

Algumas semanas depois, tive que levar Edith ao hospital. Não quero entrar em detalhes, mas digamos que ela estava com problemas em seu encanamento interno. (p. 92, parágrafo 8-a).

Percebeu? Ele pode ter se utilizado de uma narrativa cômica, mas o problema de Edith, com o perdão da clareza de detalhes, era que ela não controlava mais quando fazia cocô, e por isso se sujava em momentos impróprios e com muita frequência.

Novamente: a velhice!

Na minha opinião, entretanto, havia uma coisa que salvava Edith de sua degradação pessoal. Era a sua mente. O intelecto que ela construiu durante sua vida foi a única coisa que não a abandonou, e, mesmo com episódios raros de senilidade, ela ainda poderia falar com você sobre política, filosofia, história e, sobretudo, literatura, como se fosse uma expert em cada um desses assuntos. Por esse motivo, sou levado a concluir — como já li em vários lugares — que você NUNCA será velho se sua mente for jovem.

Essa é uma das lições que o livro passa. Como também respeito, paciência, desapego. A história ensina — na verdade, Edith ensina a Barry — que, quando alguém necessita de ajuda para fazer algo, você deve “ajudá-lo”, e não fazer por ele. Isso pode parecer óbvio, mas sempre fazemos o contrário por causa de nossa comodidade. Quando uma criança está aprendendo a usar um talher para comer e acaba espalhando a comida pela mesa, por exemplo, ao invés de ajudar, vamos lá e levamos a comida até a boca dela, porque detestamos limpar a sujeira. Edith, como a diva que era, jamais admitiu que alguém a tratasse dessa maneira, e eu concordo com ela em gênero, número e grau.

Enfim, a história é muito mais rica, e tudo o que eu falei aqui não é nem dez por cento do que é narrado. Edith foi uma mulher notável, e Barry faz questão de contar isso no livro, deixando o leitor saber de todas as experiências que ela compartilhou com ele. Não só acho que você deveria ler esse livro, como recomendo que você o dê de presente para seus parentes, amigos, e todos aqueles que têm contanto com pessoas idosas, ou que querem ser educados um pouco mais a respeito do assunto.

Existem livros que lemos por obrigação, livros que lemos por diversão, e livros que nos fazem aprender sobre a vida. Uma Casa no Meio do Caminho se encaixa na última descrição.

Isso é tudo por hoje. Adorei resenhar essa história.

Leia, leia, leia.

Até a próxima,
Vlaxio.

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5 comentários em “Resenha: Uma casa no meio do caminho, de Barry Martin & Philip Lerman”

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