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Resenha: A corte do ar, de Stephen Hunt

 

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“É, pelo visto você vai virar puta”, foi o meu pensamento ao final do primeiro capítulo. “Mas, bah, who the hell cares?!”

A Corte do Ar é dessas histórias que me fazem ter orgulho de ler livros. Perguntem-se em que lugar imaginário eu gostaria de viver, e minha resposta seria num mundo Steampunk. Isto é, numa terra retrofuturística, à frente de seu tempo (embora com características da Era Vitoriana), onde, apesar de tanta modernidade, ainda fosse possível se deparar com cavaleiros, bruxos, árvores encantadas e todos esses seres fantásticos que amamos idolatrar.

Pense nesse livro como se Senhor dos Anéis e Harry Potter encontrassem Bioshock. Ou um tipo de Guerra dos Tronos com uma pegada de Sword Art Online. Ou ainda o Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda numa aventura com O Guia do Mochileiro das Galáxias. Uma colisão entre os mundos de Limbo e de Os Boxtrolls com os mundos de Astro Boy e de Uma Família do Futuro. Uma junção maluca do imaginário de Coraline com o filme Robôs. Por fim, As Crônicas de Nárnia se tivessem sido escritas pelas mãos de Júlio Verne.

Sim, A Corte do Ar é isso tudo.

a corte do ar

Certa vez, um amigo me repreendeu, dizendo que eu nunca falo mal dos livros que resenho. Bem, para ser sincero, ele meio que não disse nenhuma bobagem. Mas, vejam bem, há um motivo para minhas resenhas serem, em sua grande maioria, repletas de bajulações. Isso acontece por que me conheço bem o suficiente para priorizar a leitura de livros dos quais sei que vou gostar.

Por isso, quase nunca erro, e minha taxa de resenhas acaba sempre cedendo um saldo positivo aos autores que “avalio” — e só digo avaliar por falta de palavra melhor. Mas por que estou falando isso? Ora, meus caros e incautos leitores, pois — acreditem vocês ou não — essa é uma das melhores histórias que já li em toda a minha vida. Simples assim! Tão boa que mal consigo conter minha excitação enquanto escrevo, e provavelmente falharei na tarefa de ser imparcial.

Mas, antes de continuar, permitam a este que vos fala dar-lhes uma pequena aula sobre Steampunk. Não sou nenhum expert, é claro, e meu savoir-faire sobre esse subgênero literário da ficção científica é apenas um conjunto de experiências daquilo com o que já tive contato.

Primeiramente, vocês devem se desprender das percepções de mundo que possuem. Imaginem a Revolução Industrial, na qual muitos trabalhadores foram substituídos por máquinas nos setores de produção. Agora pensem no nosso mundo como se ele fosse todo mecanizado, com engrenagens por todos os lados, num período vitoriano e debaixo da perspectiva de uma sociedade alternativa à nossa, com características do século XIX (o basicão: ruas sujas, ambientes enevoados, bordeis lotados, tavernas barulhentas) — muito metal, muito óleo, muito vapor, cilindros, marias-fumaças e tecnologias de um modo geral predominando no cenário. Robôs! Sim, como não? Mecanismos movidos a vapor para automação até de serviços corriqueiros, como limpar a casa. Androides das mais variadas formas e designs que permeiam nosso cotidiano. Coloquem tudo isso num liquidificador, adicionem alguns padrões de cores cobreadas e cromadas, e batam a mistura até ficar homogênea. Despejem numa taça e, voilà!, saboreiem o gênero Steampunk.

Se, mesmo com minha brilhante explicação, vocês ainda não conseguirem captar o sentido do Steampunk, assistam a esse vídeo no YouTube muito educativo, feito pela Saraiva Conteúdo, dando uma boa noção desse gênero. Okay? Agora, vamos ao que interessa…

Esse é o tipo de livro que, quando termino de ler, eu suspiro profundamente e penso: “Ah, como eu gostaria de ter escrito isso”. Não é inveja, pessoal, caso estejam pensando isso — é admiração! Existem vários escritores que admiro, obviamente, mas Stephen Hunt é meio que o cara que eu quero ser “quando crescer”, entendem? Bem isso aí…

No começo do livro, Molly Templar (nossa amada protagonista feminina) vive no Internato Portas do Sol. Antigamente, quando o lar era comandado pela Damson Darnay — a quem Molly considerava o ser mais próximo de uma mãe —, os órfãos viviam para os estudos, já que Darnay defendia a política de que os ricos é quem deviam bancar os subsídios para a manutenção do orfanato. Contudo, após a morte da diretora, um inspetor mequetrefe — do qual não consigo nem me recordar a graça, u_u —, assumiu a direção do internato e os órfãos foram obrigados a “prestar serviços gratuitos” a alguns empregadores da cidade de Açomédio. O que acontecia mesmo, porém, era que os órfãos passaram a executar trabalhos análogos à escravidão — e ocasionalmente perigosos —, enquanto o tal do inspetor patife recebia uma “ajuda de custo” para o sustento de seus protegidos, que ele prontamente embolsava.

Pode um negócio desses, gente?!

Mas isso não é o pior, receio eu. Molly sempre foi uma garota considerada problemática, e não parava em nenhum emprego por muito tempo. Ela era, portanto, um estorvo aos olhos do inspetor. O que ele fez para solucionar o problema? Adivinhem! Vendeu a guarda de Molly. Ela foi, então, “adotada” por ninguém menos que Lady Fairborn, a famigerada Rainha das Prostitutas. Tudo isso ainda no primeiro capítulo, produção!

Aliás, existe no Reino de Chacália uma divisão bem definida entre as classes sociais, eles até possuem uma Lei dos Pobres. Uma das sanções dessa lei promulga que, sendo pobre — ok, redundância, eu sei —, você só pode estudar por um tempo determinado. Para eles, o hábito da leitura e da escrita era coisa desnecessária, perigosa e dispensável (Olá, Policarpo Quaresma!). Afinal, você não precisa entender de literatura para ser uma prostituta, certo? Tsc, tsc, tsc… ledo engano!

No bordel de Lady Fairborn, as novas putas recebem um treinamento intensivo de etiqueta, dança, filosofia, comportamento, postura, equilíbrio, blábláblá… Assim, quando elas acumulam dinheiro suficiente para pagar seus contratos e adquirir a liberdade, acabam preferindo continuar no bordel, já que vivem como rainhas — tanto material quanto intelectualmente.

Agora, falemos de Oliver Brooks (nosso amado protagonista masculino). O autor vai fornecendo migalhas para que possamos fazer um amontoado sobre a vida de Oliver. Ao que tudo indica, os pais do garoto, quando em vida, eram tidos como criminosos rebeldes, e esse estigma foi passado ao próprio Oliver. Como consequência disso, ele deve comparecer semanalmente a um local X para, digamos, “bater o ponto”. Ele sequer pode ir mais longe que o território de Cem Cadeados — sua cidade — sem que seja considerado como foragido. Toda essa penúria pela qual ele passa está conectada à suposição de que ele, assim como seus pais, esteja envolvido com…

Rá! Não vou falar, porque sou phyno e não dou spoilers.

O que me lembra da campanha #DigaNãoAoSpoiler. Saiba mais aqui. Mas entendam meu lado. Não existe maneira eficaz de fazer uma resenha decente sem dar um único spoiler. Por isso, acabo optando por dizer apenas coisas que não são tão importantes ou que estão na contracapa do livro ou que são entregues logo no começo da história. Do contrário, como devo fazer vocês se interessarem pela história?

Voltando à resenha, Chacália é um reino, um país — como se fosse uma Inglaterra retrofuturística. Ou seja, estupenda! Os títulos das coisas derretem na boca como manteiga. Nomes de lugares, objetos, expressões, costumes, indumentárias et cetera. Tudo foi pensado com a intensão de “soar” legal quando dito em voz alta. Trabalho este no qual o autor teve bastante êxito.

Uma das coisas mais bacanas no livro é que a narrativa do Stephen Hunt tem uma pegada meio sombria, mas sem parecer apelativa ou forçada. Talvez isso se dê pelo fato de haver conspirações, intrigas, segredos e mais segredos e mais segredos e mais segredos. Ah, e segredos também. A trama é escrita de forma meticulosa, e preza pela boa construção das frases. Tem um equilíbrio entre narração e diálogo, o que evita o cansaço da leitura.

E que capa é aquela, meu povo? MA-RA-VI-LHO-SA!

Por mais indecoroso que seja admitir esse fato, eu parecia uma menininha espevitada numa fila para um filme de vampiro torcendo pelo bem-estar dos personagens frente aos perigos pelos quais eles passavam. Afetações à parte, isso só aponta ainda mais para o quanto o livro conseguiu me colocar sob um cabresto.

Percebam vocês que esta não é uma historinha de fácil consumo, isto é, o Q.I. da trama está acima da média para os padrões das séries de fantasia barra ficção científica atuais. Passem despercebidos por um único detalhe e vocês poderão acabar perdendo informações bastante pertinentes ao desenvolvimento do plot. Por isso, sugiro atenção na leitura. Não chega a ser como nas Crônicas de Gelo e Fogo, com 492 milhões de nomes e lugares para decorar, mas o seu desleixo na leitura pode lhes custar sua compreensão. Estejam avisados!

Particularmente, senti muita falta de mapas. Li em algum lugar que pouquíssimos leitores utilizam os mapas dos livros para se localizar na história. Mas vejam vocês! Eu faço parte dessa escória de leitores frescos, pra variar… Considerem meu ponto de vista: somos apresentados a uma Terra totalmente diferente da nossa (em termos de sociedade, tecnologia, cultura, etc.), com muitos países e reinos, dentro dos quais existem inúmeras cidades e condados. Eu definitivamente gostaria de um auxílio visual para tanta geografia. Talvez o mundo do livro seja um pouco complexo demais para ser desenhado, mas eu já ficaria satisfeito com a representação cartográfica de Chacália, pelo menos.

Movin’ on…

Existe uma tal de brumencantada que dá às pessoas poderes sobrenaturais. Pelo que entendi, trata-se de uma neblina mágica à qual se for exposto por muito tempo você morre. Chacália, portanto, possui um tipo de “cortina” que a protege contra a neblina, mas, vez ou outra, a brumencantada pode surgir em menor escala num pântano, por exemplo, e acabar transformando alguém. Como é o caso do Capitão Faísca — um bonitão, ex-pastor de rebanho, que ficou inconcebivelmente forte devido à exposição à neblina, e passou a trabalhar para a Guarda Especial, encarregada de proteger os monarcas.

Agora, por que estou contando isso a vocês? Bem, meus pequenos gafanhotos, porque Oliver — nosso protagonista errante — sofreu um acidente na sua infância, quando seu Aerostato (tipo um avião, ou dirigível) caiu na fonte da brumencantada. Não obstante, o pobre garotinho permaneceu perdido na neblina até ser encontrado 4 ANOS DEPOIS. Devo acrescentar que ninguém que se aventurou pela brumencantada, para além da cortina, jamais retornou vivo de lá. Chupa essa manga, sociedade!

Assim como Oliver, Molly também possui um mistério quanto ao seu passado. Quando foi deixada na porta do internato, ela estava envolvida numa manta de seda. E acontece que, nesse mundo, seda é um adereço usado somente por pessoas ricas e poderosas, que em geral possuem algum vínculo com a realeza. Entendam essa informação como quiserem.

*grabs popcorn and watches other people’s minds work*

Hora do fato bizarro: existe uma outra lei em Chacália — devido a um incidente sanguinolento, contra o parlamento, comandado por Isambard Kirkhill — cujo decreto protocola que todo rei deve ter ambos os braços amputados quando for coroado. Assim, nenhum monarca jamais levantará a mão contra o seu povo novamente. É, pelo visto, não tá fácil pra ninguém, moçada!

Aceitam sugestões? Como eu já discorri aqui, adoro criar relações extra-sensoriais entre livros e música, e vice-versa. Por isso, decidi garimpar uma trilha-sonora adequada para escutar enquanto eu lia. Acabei achando uma perfeita, que vocês podem ouvir aqui. Estou escutando-a inclusive agora, escrevendo a resenha, e só posso dizer que vou procurar ad infinitum por músicas tão legais quanto essas. Estou falando de experiência metafísica, minha gente! Look it up, people…

Agora vem a parte chata. Estão sentados?

Bem, depois de uma rápida pesquisa pelo ciberespaço, fui informado pelo Mr. Google de que A Corte do Ar é o primeiro título de uma SÉRIE DE SEIS LIVROS. Não, vocês não leram errado. A série existe desde 2007, mas só em 2013 começou a ser lançada em território tupiniquim, graças aos deuses nórdicos e à iniciativa da Saída de Emergência em criar a Coleção [BANG]!, que, pasmem!, estreou o gênero de ficção científica da coleção justamente com o livro do Hunt. É uma pena, no entanto, porque os reles mortais terão de esperar pacientemente pelos próximos volumes serem traduzidos e lançados. Eu, por outro lado, jamais conseguiria esperar tanto tempo pelas continuações, e, por isso, lerei os outros cinco livros no Kindle, em inglês mesmo.

Tirando esse detalhezinho sórdido da equação, eu recomendo com todas as forças das minhas entranhas que vocês leiam essa série. Não preciso me estender ainda mais para dizer que a riqueza narrativa do livro não chega sequer próximo das informações que eu mencionei no texto, certo? Volto a deixar claro que esse é — sem demagogia — um dos melhores livros que já li na vida, e estou realmente grato à Tashiro por ter proporcionado uma leitura de parceria que, se não fosse por isso, talvez eu nem chegasse ao conhecimento da série.

Agora, é partir para o abraço, pessoal.

Foi um prazer resenhar pra vocês. Espero não ter sido longo demais para o gosto geral da população. Sorry in advance…

Até a próxima,
Vlaxio.

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9 thoughts on “Resenha: A corte do ar, de Stephen Hunt”

  1. Oi Vlaxio!

    Sua maravilhosa explicação do liquidificador me abriu os olhos! E toda a coisa de Narnia e O mochileiro das galáxias me deixou bem entusiasmada, e a parte do grande intelecto das proficionais do sexo.

    E eu tenho que confessar que quando eu abri a caixa e vi esse livro… Quase que ele some por aqui de tão apaixonada que fiquei por ele! Já vinha querendo lê-lo há algum tempo.

    E eu tenho que concordar: mapas, por favor! Estou lendo As mentiras de Locke Lamora e estou perdida de que reino vem quem e que raça é e pra onde fica os templos e quem fala a língua terim…

    Por fim, quero A corte do ar esprestado.

    Beijos, May.

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  2. Aii que resenha T-U-D-O!!

    Confesso que apaixonei-me logo por essa capa maravilhosa e to me aguentando para ler (pois tenho uns Lannisters a encarar, primeiramente). Mas ao ler esta resenha, só alimentou minha lombriga literária huashuas até já preparei uma playlist com as dicas que passaram aqui…

    Beijinhos positrônicos :*

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    1. Oi, Angela. Que bom que gostou. Tenho esse pequeno defeito mesmo, de deixar tudo mais longo do que deveria. Por isso sou péssimo em redação. Mas A Corte do Ar merecia textão, e foi isso que eu fiz, haha… Tenha uma ótima leitura!

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