Livros

Resenha: Agência de investigações holísticas Dirk Gently, de Douglas Adams

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Imagine que você pegue um gato e o coloque em uma caixa que possa lacrar completamente. Você também coloca na caixa uma pequena quantidade de material radioativo e um frasco de gás venenoso. Dispõe os elementos de modo que, passado um determinado tempo, há 50 por cento de probabilidade de que o átomo no material radioativo se decomponha e emita um elétron e 50 por cento de probabilidade de que isso não ocorra. Se ele se decompor, isso acionará a emissão do gás e o gato morrerá. Se não, o gato vive. Tudo depende da probabilidade de que um simples átomo se decomponha ou não.

Antes de continuar, permitam-me fazer uma coisa:

*Me levanto e clap clap clap clap clap clap clap clap*

O breve parágrafo de início é nada mais do que a explicação mais linda que eu já li sobre o experimento do Gato de Schrödinger. Para quem não está muito familiarizado, essa experiência é basicamente uma tentativa de mostrar as probabilidades obscuras da física quântica. Não sou nenhum expert no assunto, obviamente, mas acho bem interessante quando paro para pensar nele.

Ultimamente venho tendo algumas questões sobre resenhas de livros. Por dois motivos, a bem da verdade. Primeiro porque há algumas obras cujas resenhas são apenas extensões desnecessárias das sinopses/orelhas dos próprios livros. E segundo porque algumas obras me parecem extraordinárias demais para serem satisfatoriamente honradas em alguns parágrafos num blog literário.

O livro de hoje se encaixa na segunda opção.

Adams em pessoa declarou que esse é “um colossal épico cômico musical romântico policial de horror sobre viagens no tempo, fantasmas e detetives”. Numa pegada inicial, essa descrição pode acabar sendo bastante pretensiosa. Um pouco arrogante, até, se formos mais frescos. Mas aí você lê as primeiras páginas e vai concordando palavra por palavra com o autor. No final, “um colossal épico cômico musical romântico policial de horror sobre viagens no tempo, fantasmas e detetives” é a única descrição que lhe parece boa o bastante para o livro e você percebe que não tem nada de pretensioso em sua construção.

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Vamos por partes. Primeiro o título do livro. “Agência de investigações holísticas Dirk Gently”. Trata-se, claramente, de uma agência de investigações cujo detetive é o próprio Dirk Gently – que, na verdade, nem é seu nome verdadeiro, por sinal, mas é algo que se pode relevar, já que sua graça de nascimento, Svlad Cjelli, não pegaria bem para o nome de qualquer agência que fosse. No entanto, a palavra mais interessante desse título é o “holísticas”. Essa terminologia, inclusive, é razão de algumas das melhores e mais inteligentes discussões no livro. De acordo com Gently, esse termo diz respeito a uma interconexão fundamental entre todas as coisas, que são essenciais para a solução de qualquer mistério. Para você achar um gato perdido, por exemplo, precisa levar em consideração se o felino estava feliz com seu dono, ou se, por algum acaso, ele não pretendia largar tudo e se entregar à vida bandida dos gatos de rua. Tudo importa. E por isso Gently acredita na metodologia holística de investigação e a utiliza no decorrer da história de modo natural. Quando o livro termina, é perceptível como exatamente todos os detalhes foram importantes. Nada ficou de fora. Nenhuma farpa permaneceu fora do lugar. O livro, portanto, é um próprio exemplo holístico que justifica o seu título.

Mas para entender do que estou falando é preciso ler a história. Apenas.

Uma coisa que me deixou intrigado foi o fato de que, apesar de o Gently ser um protagonista importante do livro, o primeiro diálogo dele só aparece na página 91, e antes disso ele é apenas mencionado duas ou três vezes. Isso muito provavelmente se deve à minha próxima constatação, que é a de que, na verdade, o protagonista da história é outro. Dirk Gently orbita ao redor de Richard MacDuff, que, com efeito, é dono do principal ponto de vista sob o qual a história se desenrola.

MacDuff é um cara peculiar. Quer dizer, não tem um personagem sequer no catálogo do Douglas Adams que não seja peculiar, mas MacDuff é peculiar na categoria dos personagens “normais”, se é que vocês me entendem. É o típico protagonista cético e com a vida imperturbável, com quem – pasmem! – os eventos mais bizarros passam a acontecer e virar sua rotina de pernas para o ar. Ele é um engenheiro de computação, que, por causa de uma série de desventuras nada convencionais, acaba metido numa enrascada com a polícia, e é obrigado a recorrer aos serviços investigativos de Dirk Gently – que foi seu colega na faculdade.

Para ser franco, palavras como “bizarro”, “estranho” e “incomum” terminam por se tornar jargões extremamente gastos nessa história. Chega a um determinado ponto em que você se dá conta de que o “normal” é que seria surpreendente na narrativa. E esse é um dos pontos positivos da escrita do Douglas Adams.

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Esse não foi meu primeiro contato com o autor. Eu já havia lido o com-razão-aclamado “O guia do mochileiro das galáxias” e me rendi completamente ao charme do estilo dele. Para quem não sabe, Adams escreveu alguns episódios de Doctor Who, e essa semelhança com a série britânica é claramente identificável no livro. A pegada da história tem um apelo de humor negro que só as comédias inglesas são capazes de representar. Há sempre assuntos fortes, como morte e pós-vida, por exemplo, que são explorados, num mesmo contexto, de modo filosófico e engraçado.

Nesse sentido, uma das alegorias que eu mais adorei no livro foi o desenvolvimento do personagem fantasma. Sem dar muito spoiler, existe um cara X que acaba morrendo no livro. Até aí, tudo bem. Mas o legal da coisa toda é que depois que o cara morre e percebe que virou um fantasma, nada de extraordinário acontece, tipo uma luz no final de um túnel, ou qualquer suposição religiosa a respeito do além.

No grande debate que já dura séculos sobre o que acontece que você após a morte, se é que acontece alguma coisa, quer seja céu, inferno, purgatório ou extinção, uma coisa nunca foi colocada em questão: a possibilidade de você não saber a resposta mesmo depois de morrer.

Isso é genial. É um questionamento até que óbvio, mas, talvez por ser tão simples, a maioria de nós nunca se apercebe dessa possibilidade. E essa é apenas uma das inúmeras cerejas desse bolo. É, inclusive, uma amostra de como Douglas Adams consegue se posicionar sobre assuntos específicos numa abordagem inteligente o bastante para ser levado a sério, mas suficientemente cômica para que ele seja considerado irreverente.

No que concerne ao contexto histórico em que o livro foi escrito, temos a década de 80 como pano de fundo. Dentre outras coisas, os anos 80 foram um divisor de águas nas inovações tecnológicas do mundo, e isso muito provavelmente afetou a vida de Adams como escritor. Ele, como um cara muito antenado e à frente do seu tempo em se tratando de tecnologia, acabou se utilizando de várias coisas que estavam acontecendo no mundo das inovações para dar mais veracidade às vidas de seus personagens. Estou lendo o livro “Os inovadores: uma biografia da revolução digital”, de Walter Isaacson, bem como curso atualmente uma disciplina de TI na faculdade (mentira, que tô em greve), que, em contraste com a visão do Adams dos anos 80 apresentada no livro, possibilita que cada uma dessas coisas complemente a outra. A história está recheada de descrições acerca dos computadores, dos telefones, e toda a parafernália tecnológica daquela época.

Divo
Divo

É por isso que, na minha opinião, nerds vão adorar esse livro. E geeks, também, já que a narrativa tem muito da pegada de Doctor Who, e, também, Monty Python, sem mencionar a enorme quantidade de referências à cultura pop e as representações sofisticados do humor inteligente que poucas pessoas curtem. Tipo, para você entender uma piada completa, por exemplo, é necessário um mínimo de conhecimentos gerais, como no caso do Gato de Schrödinger que eu mencionei lá em cima.

Obviamente que qualquer pessoa é capaz de adorar esse livro, e eu inclusive recomendo a leitura dele para todo mundo que goste de relaxar com uma refeição literária decente pra variar. O livro tem 240 páginas, mas a dinâmica da narrativa faz parecer como se fossem apenas 24. E, então, como a temporada de uma série que termina e te deixa subitamente órfão, você se vê entrando numa abstinência por mais Douglas Adams na sua vida.

É tudo o que tenho a dizer.

Até a próxima.
Vlaxio.

P.S.: E o 42? Alguém…?

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