Livros, Resenhas

#MLI2015 – O inferno de Gabriel, de Sylvain Reynard

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Deixai toda esperança, vos que entrais!

O inferno de Gabriel estava na minha lista de leitura há anos, comecei a colocar nas listas de compras, pegava na livraria só para desfrutar alguns minutos e até pedi de amigo secreto, mas eu precisava de um empurrão maior de vontade chamado Maratona Literária de Inverno 2015. Muitas coisas me chamaram atenção nesse livro, começando pelo título que é forte e segundo por ser uma adaptação moderna do romance entre o poeta Dante Alighieri e sua musa Beatriz, mas o mistério envolvendo o autor é um dos pontos chaves pra mim. Há poucas informações sobre Sylvain Reynard: ele mora no Canadá, escreveu alguns livros de não-ficção e tem grande interesse pela arte e cultura Renascentista. Apesar de se declarar do sexo masculino, quase todo mundo pensa que pode ser uma mulher. Ninguém sabe, ninguém viu. E eu só poderia tirar conclusões desse mistério e dar o meu palpite se lesse a obra desse ser sem rosto.

“— Vou ser expulso do Paraíso amanhã, Beatriz. Nossa única esperança é que você me encontre depois. Procure por mim no Inferno.”

— Gabriel, p. 67

Parece que o Inferno se chama Canadá.

Gabriel O. Emerson é um reconhecido especialista em Dante que leciona em Toronto, muito rigoroso e que não se deixa levar por alunas atrevidas que querem o posto de Sra. Emerson. Ele é um tipo bonito, misterioso e esnobe de 33 anos. Filho adotivo de uma amável família, tomou para si o papel de filho pródigo e distante. Ele é um homem frio que guarda um passado bem obscuro – senão, não teria graça –, marcas que mancharam sua alma – se ele ainda tiver alguma –, e ele é realmente um babaca. Eu o denominaria como o típico personagem rancoroso e sedutor de Romances Eróticos, aquele que se nega a se apaixonar pela mocinha e a trata muito mal no início.

“— Você passou a vida inteira cercada de tolos. E eu fui o maior deles.”

— Gabriel, p. 468

Sua cara metade é tão oposta a ele que parece piada, Julianne Mitchell é uma garota de 23 anos, pura, inocente, amável, gentil e eca, já chega! Ela tem uma personalidade submissa – nada a ver com Cinquenta Tons e BDSM –, mas ela tem um limite. E é isso que eu adoro na Julia, quando ela põe as garras para fora pode ter certeza que aquela língua dela corta um em dois, de resto, ela é cheia de mimimi. Ela, assim como o Gabriel, tem um passado traumático e durante a infância foi extremamente negligenciada pelos pais (o buraco é mais fundo aqui). Se desligue da ideia da paixão de uma aluna por seu professor, eles vieram da mesma cidade, Julia é amiga da irmã mais nova dele e ela sempre foi apaixonado por ele, mesmo antes de conhecê-lo há seis anos, enquanto ele estava bêbado, e agora ele nem se lembra dela. Pasmem no nível de amor platônico: ela dorme com uma foto dele debaixo do travesseiro. Assustador! A coisa é que ela nunca o esqueceu, nem do tempo que eles passaram juntos ou da influência que ela sofreu para gostar de Dante. Eu a denominaria como a típica personagem de YA bonita e sem noção, aquele tipo inocente e maleável.

“— Quem me dera, para o seu bem, não ter passado. Quem me dera ser tão bom quanto você.”

— Gabriel, p. 318

Como eu já disse, Gabriel é um completo babaca com ela no início. É bem ruim mesmo, ela não esperava tanta hostilidade dele. Talvez uma gentileza, um pouco de reconhecimento, um sorriso. O autor acaba plantando uma dúvida logo de início para brincar com nossa mente: ele se lembra dela ou não? E que encontro foi esse que marcou tanto? Nada é entregue de primeira, há um ar onírico em tudo. Eu comecei a julgar até o possível desequilíbrio mental da protagonista. Eles vão se envolvendo aos poucos, tendo que esconder seu ‘quase’ relacionamento, que é proibido pelas rígidas normas da Universidade. Não há uma consumação, não tem mais que uns sussurros quentes ao pé do ouvido. Não é um livro erótico, mas pinta aquela sensação de sedução e antecipação. Porém, o maior empecilho no relacionamento deles é o passado, são as memórias da infância, dos relacionamentos passados, e, antes de tudo, eles precisam se expor completamente um ao outro.

Dante e Beatriz, de Henry Holiday
Dante e Beatriz, de Henry Holiday

“No momento em que sentira aquele primeiro gosto, fora totalmente arruinada. Provar da maçã era saber, e agora ela sabia.”

— Julianne, p. 124

A estória dos nossos dois ‘quase’ amantes é uma versão moderna do amor cortês entre Dante e Beatriz, e o livro faz diversas alusões a isso. Eu tenho que confessar que fiquei boiando a maior parte do tempo com tantas referências, ele não se remete somente à Itália renascentista, e há um momento no livro que o Sylvain Reynard deve ter tido pena de nós, meros mortais, que não tivemos aulas incríveis sobre Literatura e narra seu personagem Gabriel durante uma palestra sobre a Luxúria presente em A Divina Comédia. E que coisa de tirar o fôlego. O autor mostrou um incrível domínio sobre o assunto ao mesmo tempo em que explicava o enlace romântico para os leigos. Nada no livro é para ser um acaso, é tudo explicado. Desde a chatice da Julia, sua pureza, até o lado obscuro e canalha do Gabriel. As referências vão além de Dante, mas é como se fosse uma grande manta de retalhos com diversas culturas que se encaixam em seu devido lugar. É um romance bem embasado. Seria incontestável a veracidade do relacionamento, já que o autor se utilizou de excelentes referências para compor todo o cenário.

“Um leão tomando conta dos lobos, pensou ela. Que conveniente.”

— Julianne, p. 101

Há uma informação que eu gostaria de omitir de vocês, mas é meio impossível escondê-la. O inferno de Gabriel começou como uma fanfic de Crepúsculo. Eu fiquei sabendo desse detalhe alguns minutos antes de começar essa resenha por uma amiga blogueira. Eu não tenho nenhum problema com a saga, mas meio que me saturei de fanfics. Só esse ano eu já li duas, uma me agradou muitíssimo e a outra fez eu quase vomitar meu ovo de Páscoa. Quando eu li aquele pequeno trecho acima foi o único momento do livro que eu pensei que aquilo era tããão Bela, mas no geral não há como comparar. Não irei mentir, o livro tem diversas falhas, o final foi tão forçado que me irritou, alguns personagens poderiam ter sido mais trabalhados. Eu gostei especialmente da narração, ela é em terceira pessoa, mas você enxerga o casal de diversos pontos: do Gabriel, da Julianne, do garçom que os está servindo, de um parente próximo. De primeiro, pareceu uma bagunça, porém algo compreensível. É como meu quarto: é uma bagunça, várias coisas espalhadas, mas eu entendo, sei onde elas estão e como funcionam. E o fluxo de ideias tem um quê poético. Já está na agulha a leitura do próximo volume, O julgamento de Gabriel.

E o meu voto vai para… Tum tum tum tummmmm… Sylvain Reynard é o pseudônimo de um casal. O livro tem certo equilíbrio entre o eu lírico masculino e o feminino. Têm trechos que são inegavelmente masculinos e outros extremamente femininos. Para tirar a dúvida só lendo!

P.S.: Eu andei pensando e A Divina Comédia é tipo uma fanfic. Dante está preso no Inferno, sua amada Beatriz com quem ele nunca trocou mais do que uma dúzia de palavras pede a Virgílio, o poeta grego de antes de Cristo, ir resgatá-lo e ajudá-lo a subir para o Paraíso. Uahhhh alguém tinha problemas, não me espanta ele fazer tanto sucesso até hoje.


Ficha técnica

Título: O inferno de Gabriel (Trilogia #01)

Autor (a): Sylvain Reynard (???)

Editora: Arqueiro

Páginas: 512

Ano: 2013

Sinopse:

A salvação de um homem. O despertar da sexualidade de uma mulher.

Enigmático e sedutor, Gabriel Emerson é um renomado especialista em Dante. Durante o dia assume a fachada de um rigoroso professor universitário, mas à noite se entrega a uma desinibida vida de prazeres sem limites.

O que ninguém sabe é que tanto sua máscara de frieza quanto sua extrema sensualidade na verdade escondem uma alma atormentada pelas feridas do passado. Gabriel se tortura pelos erros que cometeu e acredita que para ele não há mais nenhuma esperança ou chance de se redimir dos pecados.

Julia Mitchell é uma jovem doce e inocente que luta para superar os traumas de uma infância difícil, marcada pela negligência dos pais. Quando vai fazer mestrado na Universidade de Toronto, ela sabe que reencontrará alguém importante – um homem que viu apenas uma vez, mas que nunca conseguiu esquecer.

Assim que põe os olhos em Julia, Gabriel é tomado por uma estranha sensação de familiaridade, embora não saiba dizer por quê. A inexplicável e profunda conexão que existe entre eles deixa o professor numa situação delicada, que colocará sua carreira em risco e o obrigará a enfrentar os fantasmas dos quais sempre tentou fugir.

Primeiro livro de uma trilogia, O inferno de Gabriel explora com brilhantismo a sensualidade de uma paixão proibida. É a história envolvente de dois amantes lutando para superar seus infernos pessoais e enfim viver a redenção que só o verdadeiro amor torna possível.


Lembrem-se:

Facilis descensus Averno;
Noctes atque dies patet atri ianua Ditis;
Sed revocare gradum superasque evadere ad auras,
Hoc opus, hic labor est.

— Virgílio, Eneida

Beijos, May

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