Livros

Resenha: A pista do alfinete novo, de Edgar Wallace #HalloweenWeek

a-pista-do-alfinete-novo-edgar-wallace-13781-MLB4444101007_062013-F

As igrejas e as seitas, as religiões de todas as espécies, são monopólios. Deus é como a água que surge das montanhas e forma os arroios e os rios. Lá vão os homens recolher a água em garrafas, alguns em detestáveis garrafas, outros em belas garrafas, e depois as vendem dizendo: “Somente esta água aplacará sua sede”. Mas frequentemente acontece que perderam já todas as suas boas propriedades. O senhor pode beber melhor no côncavo das mãos, ajoelhado junto do arroio. Aqui se engarrafa sem reparar em absoluto no conteúdo, mas com meticuloso cuidado quanto à forma do recipiente! Sempre vou ao arroio.

Olá, galerinha do mal.

Acho que pela primeira vez vou falar aqui de um livro que não me agradou muito. Quer dizer, na verdade não é bem isso. O livro me agradou, devo admitir, mas eu tive alguns problemas com ele. Vou tentar descrevê-lo da melhor maneira que conseguir, e, então, as senhoras e os senhores poderão julgar sozinhos. De antemão, já aviso que é um livro de suspense, do tipo crime policial. Logo, qualquer informação a mais que eu der pode acabar se tornando um spoiler irreversível.

Pois bem.

Primeiramente, a proposta: um assassinato + muitos suspeitos = variáveis infinitas.

Trata-se de uma convergência das histórias de um chinês esquisitão, uma linda atriz, dois amigos inseparáveis (um dos quais é o sobrinho e herdeiro do morto), um sócio lesado em busca de reparação e, claro, um mordomo (porque, né, deus livre os romances noir de não ter um mordomo ou uma representação alegórica equivalente). Essa mistura de perspectivas é um dos pontos positivos do livro, posto que o autor, Edgar Wallace, teve a felicidade de criar muito bem seus personagens. O chinês esconde uma penca de segredos, a atriz tem as joias dela roubadas, mas não está lá com muita vontade de que a polícia as encontre, e os outros personagens também possuem personalidades no mínimo ambíguas.

A história começa com o velho Sr. Trasmere – que é tipo o rei da cocada preta – indo fazer uma visita de rotina ao seu funcionário chinês que cuida de um dos seus restaurantes. Trasmere é um homem de hábitos repetitivos, e, apesar de cagar dinheiro, se veste simploriamente e não gasta muito em excentricidades. Certa tarde, ele é encontrado morto, sendo que – prestem atenção – seu mordomo acaba de fugir da cidade, seu ex-sócio quer vingança por um atrito do passado, e metade das pessoas com quem ele já conviveu desejam sua morte. Agora, o melhor de tudo. Ele estava morto dentro do seu escritório, cuja porta estava trancada pelo lado de dentro.

Teria, então, se tratado de um suicídio?

Mas por quê?

Nessa parte da história, a circunstância do roubo das joias da atriz começa a parecer menos como um roubo. A fuga do mordomo, nem se fala. Pior é o sobrinho, que, como único herdeiro de toda a fortuna do velho, não apenas tinha um motivo para querer sua morte como poderia muito bem tê-lo matado, já que foi ele quem “ouviu” o disparo de uma arma de fogo. E, claro, temos o alfinete do título…

Contudo, nesse livro o que menos importa é o motivo, a ocasião ou a consequência. A pista mais relevante para a trama – e, portanto, a mais difícil de encontrar – é exatamente o “como”. Se se tratasse de um suicídio, tudo estaria resolvido (não fossem por outras implicações na investigação), mas se se tratasse de assassinato, como poderia o executor ter matado o velho, trancado a porta pelo lado de dentro, e então saído do escritório? E essa é a melhor premissa de toda a história.

Em livros de mistério, crimes aparentemente sem solução levam a gente a pensar mais do que o normal. Nossas engrenagens ficam rodando feito loucas, a fim de desvendar todo o enigma. E esse tema, “assassinato em quarto fechado”, é bem comum, diga-se de passagem – quase todos os autores experimentais tentam figurar numa história com essa pegada –, mas poucos conseguem se dar bem, já que para um crime ser sem solução ele realmente precisa parecer insólito e abstrato. Geralmente, um crime sem solução não é um crime sem culpados, mas um crime cujo culpado na verdade não é o executor do crime propriamente dito, sacam?

Porém, mesmo com essas qualidades – além da escrita do Wallace, que me agradou muito –, o livro deixou a desejar por dois motivos:

1. Quando li a resenha, fui levado a crer que o crime tinha um pezinho lá no mundo das bruxarias, mas acabei vendo que não se tratava disso e fiquei a ver navios. Cheguei a pensar que era um terrorzão escrachado, que me deixaria de cabeços em pé, entretanto, foi apenas um suspensezinho à lá Sessão da Tarde. Por isso fico chateado quando as livrarias e sites categorizam Terror e Suspense no mesmo patamar. Sério. Porque, vejam bem, na minha opinião, todo Terror tem suspense, mas nem todo Suspense tem terror. Esse motivo por si só já me parece suficiente para separar esses gêneros em categorias diferentes. Mas deixem quieto!
2. O desenrolar da história, por mais bem escrito que tenha sido, me pareceu extremamente previsível. Minha nossa senhora! A cada cena de suspense, eu pensava: “Hum, será que é isso?”, e acabava que era mesmo o que eu pensava. Em 90% das vezes. Quanto a isso, eu concordo com algo que a Tatiana Feltrin falou em um dos vídeos dela no YouTube, que às vezes uma história nem é tãããããão previsível, mas o fato de que o leitor já tem uma bagagem razoável acerca daquele gênero, para ele o plot parece menos genial do que para alguém que não está familiarizado com esse tipo de literatura. Acho que foi isso que aconteceu comigo.

A bem da verdade, Edgar Wallace me pareceu um discípulo de Sir Arthur Conan Doyle e de Madame Agatha Christie. Claro, é meio que impossível ler um livro de romance noir e não fazer essa comparação. Do mesmo modo que é quase impossível ler um livro de terror/suspense contemporâneo e não fazer comparações com Stephen King.

De qualquer forma, o modus operandi do assassinato salvou a história e fez a leitura valer a pena. É um texto leve, e que me desapontou do ponto de vista do Halloween – já que eu esperava sentir medo –, mas não é como se você fosse perder seu tempo lendo…

Até a próxima,
Vlaxio.

Anúncios

1 thought on “Resenha: A pista do alfinete novo, de Edgar Wallace #HalloweenWeek”

Gostou? Não gostou? Deixe seu comentário, vamos ficar muito felizes em respondê-lo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s