Livros

Resenha: Memórias de uma gueixa, de Arthur Golden

Saudações, terráqueos.

Nesses últimos tempos, parece que as publicações aqui no blog têm ganhado cada vez mais distância de uma para outra. Mas, como tudo nesse mundo, existe uma explicação para isso – se ela é satisfatória ou não, apenas a compreensão dos leitores dirá. Esse fim de ano teima em se prolongar por uma eternidade infinita (redundância proposital, porque hipérbole é bom e todo mundo se impressiona, u_u). O caso é que os resenhistas vêm sofrendo tentativas de homicídio todos os dias pelos professores da faculdade que, em virtude das greves das IES federais, têm bombardeado a gente com trabalhos, provas e aliciamento intelectual. Por isso, a frequência dos posts não está no ritmo que gostaríamos, mas louvem aos deuses do Olimpo!, pois as férias estão chegando. E, então, tentaremos botar a carroça para andar, porque somos aprendizes de Papai Noel (eu tenho o corpo dele, inclusive) e compensaremos vocês nesse Natal que se aproxima. Ou não. =P

Agora, ao que importa!

memórias-de-uma-gueixa-443x620

Esse é um dos poucos livros que eu adorei ter lido DEPOIS de assistir ao filme, mas, não se enganem, o filme também é um show à parte, e que deve ser visto se vocês, assim como eu, são aficionados pela cultura asiática. Digo isso de um modo amplo, porque se engana quem pensa que o Japão é um universo em si mesmo. Pelo contrário, nas próprias tradições nipônicas existem traços de inúmeros outros países, mesmo que em princípio não consigamos perceber. Porém, ainda que vocês não sejam weeaboos (e eu não sou, quero deixar claro), tanto o livro quanto o filme valem um pouco do seu tempo e atenção.

Antes de tudo, vamos bater um papinho sobre três coisas.

1ª. Tradução: Olha, eu não tenho cacife nenhum para criticar tradutores, portanto, tratem isso como uma opinião pessoal e nada mais. Acontece que no livro, Lya “Toda-Fodona” Luft optou por grafar o nome da província como “Kioto”. E eu me pergunto se ela inventou uma nova tradução para a palavra, ou se eu é que desconheço, em minha vasta ignorância, a existência dessa grafia (se alguém de vocês puder contradizer o que estou falando, por favor, me iluminem). Vejam bem, na língua japonesa romanizada, escreve-se “Kyoto” com “y” – e é assim que está escrito na versão original do livro em inglês que eu tive acesso. Quando traduzido para o português, o correto é escrever “Quioto”, e essa grafia é utilizada por muitas literaturas que tratam do Japão. Porém, Luft não usou nenhuma dessas alternativas – nem a original romanizada nem a traduzida. Ao que parece, ela fez uma palavra híbrida e juntou as duas etimologias, resultando em “Kioto”, que eu acho no mínimo deselegante. Pontuo esse detalhe do livro, porque sou um leitor muito fresco, e toda vez que encontro causos como esse, começo a torcer o nariz para a tradução e fico com cara de Amélia. Enfim, quem sou eu na fila do pão, certo? Como disse, não tenho cacife para criticar traduções, mas, bah!, critiquei mesmo assim. Quem nunca?

6tag_041215-131100

2ª. Edição: Gente, que capa linda é aquela? A Arqueiro não apenas mitou no design da cover, como ainda me mandou o leque de gueixa mais hiper-mega-blaster-fofo da face da terra. Quando Tashiro me passou o livro com o agradinho da editora, fiquei todo abobalhado. E já tive que dizer NÃO a todos os seres humanos que pediram o leque de mim, que não foram poucos, inclusive minha mãe, porque quem é minha mãe no jogo do bicho, né? Não sei informar se o leque estava disponível para venda, ou se apenas as parcerias ganharam o mimo. A edição de um modo geral (fonte, espaçamento, gramatura, etc.) está excelente, e isso, como eu canso de falar aqui, deixa a leitura muito mais agradável. Valeu, Arqueiro!

3ª. Ficção ou Realidade?: Deixa eu ver se consigo explicar. Talvez eu nem devesse colocar isso aqui, porque pode surtir o efeito indesejado de spoiler. Tem a ver com as duas mentes do autor. Como assim? Bem, no início do livro existe uma “NOTA DO TRADUTOR”, e nela o tradutor é Jakob Haarhuis, um professor de história japonesa titular da cadeira Arnold Rusoff da Universidade de Nova Iorque. Detalhe: Jakob Haarhuis não existe. E isso é tudo o que vou falar, porque ele foi muito bem articulado e eu tive um mini-bug no cérebro. Se eu soltar mais, vou entregar parte do prazer da leitura.

Agora, sim, a história.

A trama começa criando o contexto no qual vive nossa personagem principal, Chiyo-chan, com seus pais e sua irmã mais velha. A situação da família é tenebrosa, pois vivem em extrema pobreza e dependem inteiramente da pesca para sobreviver. Por isso eu tento não julgar o fato de o pai de Chiyo e sua irmã, Satsu, ter vendido suas filhas como escravas, enquanto sua esposa estava mortalmente adoentada. Isso dá um peso. Assim que foram vendidas, as irmãs foram separadas, então, nem mesmo a companhia uma da outra seria permitido a elas. O destino imediato de Chiyo é um local X em que as meninas vão para aprender a como se tornar Gueixas.

A partir desse ponto, a vida da Chiyo se resume a aprender os “ócios do ofício”, ao mesmo tempo em que divide o seu tempo na limpeza da casa, nos afazeres domésticos, e no trabalho para servir outras gueixas superiores. Esse cenário dá início à trajetória de Chiyo para se tornar efetivamente uma mulher e, então, uma gueixa de sucesso.

— Mas, pera, as gueixas não são prostitutas? — pergunta o infeliz.
— E a minha mão… pode ir na sua cara? — replico, virando os olhos.
— Não, criança, Gueixas são, etimologicamente, artistas — respondo, sorrindo.

Antigamente, era extremamente difícil se tornar uma gueixa conhecida. Existiam várias, é claro, mas, dentre elas, poucas eram tão importantes no meio da profissão. Geralmente, para ter reconhecimento, era necessário um Q.I. (vulgo Quem Indica) poderoso e rico, papel que ficava especialmente aos encargos de políticos da época. Não preciso nem mencionar o fato de que Chiyo vai passar por muita merda e engolir muito sapo até virar uma gueixa [curiosidade: em várias partes do livro, juro que torci pra Chiyo cantar “desejo a todas inimigas vida longa…”, porque, gente do céu, só mesmo Valesca Popozuda pra sossegar o recalque das periguetes que queriam atrapalhar a vida da guria, posto que a Chiyo era claramente a diva que elas queriam copiar. Hatsumomo, essa é pra você =PPPP].

Seguindo-se a isso, Mameha, uma gueixa adulta e muito importante em seus dias de glória, vai lá e meio que adota a Chiyo. Mameha passa, então, a ensinar os costumes e tradições milenares à garota, e aí a gente consegue ter um panorama bem dinâmico do contexto histórico do livro. No entanto, nossa protagonista acaba se apaixonando por alguém que não devia ter se apaixonado (como se isso fosse passível de controle, haha, malditos sorvetes!), e essa situação vai gerar várias outras que poderiam ter sido evitadas caso a Chiyo não tivesse aberto as portas do seu coração.

A escrita do Golden é simples, porém culta. Ele se utiliza de maneirismos do cotidiano para apresentar ao leitor o universo do ofício de uma gueixa. Vale salientar aqui que Golden é um estudioso com muita experiência da cultura japonesa, logo, suas descrições não apenas são ricas de detalhes, como são, de fato, verdadeiras. Nesse ponto, é possível perceber a carga de pesquisa que o autor carrega para dar vazão à sua história. Os costumes e aprendizados são muito bem mostrados em forma de texto. Coisas que as meninas tinham que aprender, como tocar o Shamisen (tipo o violão do Japão, sqñ), dançar graciosamente, servir chá seguindo rituais de gestos, se acostumar com aquela montanha de cabelo até para dormir, etc., etc., etc.

O livro nem precisou se esforçar muito para entrar na minha lista de favoritos. Desde que eu assisti ao filme, queria lê-lo, e não fiquei decepcionado. Digo que gostei de ter lido o livro DEPOIS de assistir ao filme, porque existem muitas coisas que estão faltando e que estão diferentes (o final, por exemplo). Mas o filme é uma obra de arte, coisa de gente grande mesmo, e talvez se eu tivesse lido o livro antes, é provável que eu me detivesse demais aos detalhes divergentes entre as obras e não aproveitasse o filme do jeito que ele merece.

Enfim, isso é tudo por hoje. Dentro em breve, estarei voltando com uma resenha nova. Espero que tenham gostado pelo menos um pouco dessa, já que ela foi feita bem corrida.

Até a próxima.
Vlaxio.

Anúncios

Gostou? Não gostou? Deixe seu comentário, vamos ficar muito felizes em respondê-lo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s