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Resenha: Confissões de inverno, de Brendan Kiely

Olá, pessoal.

Hoje vou falar de um livro diferente de tudo o que já resenhei aqui no Silêncio Contagiante. Quando Tashiro me passou Confissões de Inverno, disse que a história se tratava de um garoto que foi aliciado por um padre. Bem. Em termos gerais, essa é a melhor sinopse que eu poderia ter recebido. O livro é exatamente isso. Não é spoiler, claro, já que é possível encontrar esse detalhe na contracapa.

Confissoes de inverno_Capa WEB

Quando dei uma olhada no título original em inglês, Gospel of Winter, revirei os olhos e torci logo o nariz. Cheguei a pensar que tinha a ver com autoajuda, ou pior, que a história fosse uma nova candidata ao lugar d’A Cabana, do William Young. Verifiquei imediatamente a Ficha Catalográfica e lá dizia que era Ficção Americana, portanto, fiquei mais tranquilo, mas ainda com algumas suspeitas.

Vou logo começar dizendo que você tem que sobreviver às quarenta primeiras páginas. Basicamente os capítulos um e dois. O início da história é um exercício de chatice, e se prolonga desnecessariamente. Mas depois disso, tudo passa a melhorar e aí você consegue engatar a leitura de uma vez, e pode até terminar numa sentada.

A capa e a contracapa trazem alguns pequenos reviews que elogiam o autor e sua façanha de escrever um livro bom em sua estreia. Pois é. É o primeiro livro do cara. Infelizmente, esse fato se torna bem perceptível durante a leitura; não dá para esconder que ele é um escritor de primeira viagem. Estou longe de afirmar que o Kiely não escreve bem, mas também não dá para dizer que ele é um prodígio. Prova disso são algumas cenas que parecem ter sido criadas apenas para preencher lacunas dispensáveis, e atuações de personagens que foram forçadas para dar uma “deixa” ao protagonista. Nada muito grave, porém.

Penso que o autor errou a mão no drama. Vejam bem, o plot gira em torno de um crime horroroso cometido por um representante da igreja católica, e isso sozinho já tem uma carga bem pesada, mas ainda assim Kiely faz questão de nos lembrar frequentemente que tudo é uma tragédia e o diabo a quatro. Fiquei com a sensação de que a história estava apelativa. Eu, enquanto leitor, tenho discernimento suficiente para saber que um padre abusar de um adolescente é algo terrível, e não preciso ser chamado a atenção através de ponderações de autocomiseração do personagem principal.

Mas okay. À guisa de uma sinopse mais elaborada, o livro é sobre Aidan Donovan, um adolescente de 16 anos que passa por alguns problemas em casa. Seu pai abandona a família para morar com uma outra mulher – muito embora jamais tivesse sido um genitor presente. A mãe encara a situação combinando álcool e aparências. Para completar, a babá que o criou e a quem ele considera como uma figura materna é demitida e ele é privado da sua companhia. Mas há algo que o mantem firme, com a máscara empunhada no rosto: a atenção especial que ele recebe do padre Greg, que tem sido o único a entender seus problemas.

Devo adicionar um detalhe: a narração é em primeira pessoa, o que significa que nós estamos constantemente dentro da cabeça do personagem. Em determinados momentos, a distância entre os diálogos fica um pouco longa demais, porém, isso é algo que podemos compreender, posto que tanto conflito emocional demanda uma grande quantidade de introspecção por parte de Aidan, que, grosso modo, não pode contar seu segredo a ninguém.

Aidan possui três amigos ao longo da história. Josie, Mark e Sophie. Particularmente, achei Sophie descartável, ou seja, mais uma das ferramentas narrativas usadas pelo autor para preencher uma lacuna desnecessária. Em princípio, o trio não inclui Aidan no círculo, mas, aos poucos, o garoto vai entrando para o grupo e consequentemente passa a imitar o hábito do bando de frequentar festas, consumir drogas e ingerir muito álcool.

A bem da verdade, Josie e principalmente Sophie foram bem pouco exploradas, e eu senti falta de mais desdobramentos em suas histórias. Mark teve mais atenção do autor, mas também ficou muito na superfície. Creio que isso se deva ao fato de que o livro é bem curto, apenas 219 páginas. Se bem trabalhada, a história poderia ocupar facilmente mais duzentas páginas que eu não me importaria.

O cenário da trama é uma comunidade em Connecticut, bem próximo a Manhattan. É uma pequena cidade cheia de gente que bebe perfume francês e caga dinheiro. Não existe pobreza, e muito da minha chateação com as primeiras quarenta páginas reside exatamente no fato de que Aidan fica fazendo ponderações muito rasas, do tipo de como a vida é dele é tão horrível, mesmo que ele tenha dinheiro suficiente na carteira para comprar todo o estoque de uma banca de flores se quiser, ou que ande com um motorista próprio para todos os lugares e não consiga decidir se compra remédios tarja preta ou erva da boa para passar o fim de semana. Somente a partir do terceiro capítulo é que conseguimos penetrar essa camada de riqueza e chegamos ao núcleo decrépito que faz funcionar essa singela “sociedade”.

Mas vamos ao que mais interessa, certo? Deixem-me ser franco. A história traz à tona temas como pressão social, traição matrimonial, abuso de drogas, consumo excessivo de álcool, aliciamento psicológico, homossexualidade, confusão sexual, bullying, catolicismo e, obviamente, pederastia. Aliás, vocês sabem a diferença entre pedofilia e pederastia? Em sentido amplo, pedofilia engloba crianças até os 14 anos, enquanto pederastia engloba crianças dessa idade para cima, sendo, no entanto, restringida a relações entre pessoas do mesmo sexo.

Agora, o antagonista. Padre Greg é o tipo de pessoa que todo mundo gosta. Todo mundo, e ponto final. Ele chegou à comunidade recentemente para ajudar o idoso padre Dooley a cuidar da Igreja do Preciosíssimo Sangue de Cristo (preciso rir). É um homem de fé, e capaz das maiores façanhas, como arrecadar grandes quantidades de dinheiro para ajudar escolas, e tem um histórico impecável de trabalho com crianças na África. É a última pessoa de quem poderiam suspeitar, não acham?

Aidan está preso num vácuo de constante tortura, tendo de lidar com a ausência do pai, as festas pomposas da mãe, e um quadro de depressão que por algum motivo não é mencionado em parte alguma do livro. Por uma sugestão, ele aceita fazer trabalho voluntário na igreja com a intenção de não enlouquecer em casa. A vítima perfeita para o algoz perfeito. O estado de Aidan facilitou muito a aproximação do padre Greg, que o envolveu com toda a atenção pela qual o garoto estava desesperado. Sendo chato novamente, eu acredito que Aidan, com 16 anos, é suficientemente maduro para se livrar da situação em que se meteu. Tudo bem, ele teve muitos motivos para se entregar de bandeja, mas não consigo largar a opinião de que ele também quisesse ceder de boa vontade. E não me entendam mal, pois não culpo a vítima pelo estupro, e tenho absoluta ciência de que padre Greg é o verdadeiro vilão da história.

Nessa parte, o autor ganha vários pontos positivos. Ele soube retratar com sensibilidade, porém de forma crível, a relação entre Aidan e o padre Greg. Algumas cenas são descritas com detalhes bem indignantes, mas fico feliz que Kiely não tenha nos poupado por pensar que não aguentaríamos. Se ele tivesse feito isso, teria ofendido mais uma vez a inteligência do leitor.

Haverá cenas tocantes, bem como cenas repugnantes, e até cenas surpreendentes de verdade. É um livro pesado, mas não é como se fosse traumatizante. Dá para ler tranquilo, desde que você possua uma mente mais maleável. As justificativas para algumas partes – como o final, por exemplo – estão longe da nossa realidade, no entanto, para a realidade de Aidan, no mundo de feras em que ele vive, são compreensíveis e aceitáveis.

Como consideração final, eu gostei muito da história, mesmo achando que ela teria sido muito melhor desenvolvida por um escritor experiente. Comecei achando Aidan um merdinha, mas terminei simpatizando bastante com ele. Não é um personagem fácil de gostar, mas com o tempo a gente se acostuma à nuvem sombria de intempéries que o segue de perto. Não recomendo o livro para todo mundo – especialmente se você tem o sério problema de achar que as religiões são perfeitas e intocáveis –, mas recomendo para quem quer uma leitura fora da rotina, que entretém ao mesmo tempo em que faz deliberar sobre muitas coisas que estão escrachadas à nossa volta e nas pessoas que nos cercam.

Isso é tudo por hoje.

Até a próxima.
Vlaxio.

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2 comentários em “Resenha: Confissões de inverno, de Brendan Kiely”

    1. Ah, e uma curiosidade: eu fiz a besteira de olhar pra foto do autor na orelha da contracapa antes de ler o livro. Resultado? Eu não conseguia parar de imaginar ele sendo o padre… tadinho.

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