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Resenha: Simon vs. a agenda Homo sapiens, de Becky Albertalli

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É tipo aqueles livros que eu gosto tanto de ler que não estou certo de que vou conseguir ser imparcial.

Quer dizer… eu não quero ser imparcial. Verdade seja dita.

Nem cumprimentei vocês.

Olá, pessoal.

Se eu tivesse que resumir, diria que o livro tem a medida certa.

Mas felizmente eu não tenho que resumir nada. Isso me alivia. Pensem comigo: ninguém compra uma caixa de chocolate com a intenção de comer apenas um. Verdade seja dita. Novamente.

Aí o enredo da história não tem nada lá muito original, mas, como eu disse, o livro foi escrito na medida certa, e, pelo-óscar-de-Leonardo!, nem vamos começar a falar de toda fanboyzisse que ele desperta em leitores incautos. Vulgarmente conhecidos como: eu/tu/nós.

Então, tem esse garoto. Simon. Dezesseis barra dezessete anos. Ensino médio – nenhuma novidade, bleh! –, sarcástico, do tipo que faz teatro, e que tem amigos ligeiramente fodas. É um garoto normal… Considerando que ninguém é muito normal nessa faixa etária. E com uma família satisfatoriamente esquisita.

Vamos às descrições:

Fato #1: Simon é gay.

Fato #2: Simon não é assumido.

Fato #3: Simon se corresponde por e-mail com um cara.

Vamos aos esclarecimentos:

Fato #1: Simon é gay, porque ele nasceu assim e tá vivendo, tem gente que não nasce assim e tá morrendo, ele nasceu assim (ba-dum-tss).

Fato #2: Simon não é assumido, porque, bem, a família dele tem meio que a mania de fazer tudo um grande exagero. Nada no sentido ruim, claro. Mas qualquer mudança no comportamento do garoto puxa o gatilho de uma reação constrangedora dos pais e das irmãs dele, tipo o fato de ele passar a tomar café, o fato de ele começar a namorar (à época, garotas), e a lista se estende sem vergonha.

Fato #3: Simon se corresponde por e-mail com um cara por causa de um ínfimo post no Tumblr que o deixou impressionado, e ele acabou criando a necessidade de manter contato com o autor desse mesmo post.

E é aí que está grande parte do trunfo do livro. Simon troca e-mails sob um pseudônimo com um cara que também usa um pseudônimo. O detalhe sórdido: ambos estudam na mesma escola, têm a mesma idade, e provavelmente se veem todos os dias, mas não sabem quem são. Eles concordaram em manter suas identidades em segredo, porque dessa forma podem deixar de lado qualquer julgamento pessoal e construir uma amizade baseada na segurança do anonimato.

Quem fucking nunca?

A maior parte da história é estruturada a partir de capítulos que se alternam entre a realidade de Simon na escola, em casa e com os amigos, e a fantasia dos e-mails que ele criou como um universo todo particular, no qual conversa com um suposto estranho sobre coisas que não pode conversar com as pessoas que conhece.

Pensem bem: não seria formidável ter um(a) parceiro(a) de conversa com o(a) qual você não precisasse medir palavras, esconder segredos, nem se preocupar com o julgamento dos outros? Esse cenário é na verdade bastante sedutor (e comum, até), já que, basicamente, precisamos nos policiar todo o tempo quando convivemos com pessoas reais. E é exatamente isso que apela para a vontade de Simon continuar trocando e-mails com esse desconhecido, que, para efeitos de sinceridade, poderia muito bem ser um pedófilo em temporada de caça. Felizmente a história não entra nesse campo mais pesado.

O que acontece é que, não surpreendentemente, Simon vai se apaixonando aos poucos por esse personagem fictício chamado Blue. É muito divertido, porque, conforme os personagens são apresentados ao leitor, você se pega fazendo conjecturas acerca da identidade do cara com quem o Simon conversa. Tipo, toda vez que alguém novo aparece na trama, você pensa algo como “Será que esse é o Blue?”.

As pistas vão sendo dadas muito esporadicamente, é claro. As conversas dos e-mails são sempre divertidas, levemente refinadas, e obrigatoriamente inteligentes. Algumas das situações que eles descrevem são ridiculamente empáticas, ou seja, fazem a gente se sentir no lugar deles.

Não é constrangedor, exatamente, porque a coisa toda estava na minha cabeça. É realmente incrível, não é? Alguém pode causar sua crise de identidade sexual e não ter sequer ideia de que está fazendo isso.
[tradução livre]

Como o contexto básico da história é a escola, muito do livro faz referência às suas vidas no ensino médio. Devo dizer, no entanto, que algumas coisas também se aplicam ao ambiente universitário. Deve ser um tipo de magia universal que rege o planeta terra. Alunos serão sempre alunos. Professores serão sempre professores. O que muda é apenas o endereço.

Quer dizer, quando você pensa sobre isso, é um pouco foda quando os professores acham que podem ditar o que você pensa. Não é o bastante se você apenas se senta quieto e deixa eles ensinarem. É como se eles achassem que têm o direito de controlar sua mente.
[tradução livre]

Mas nem tudo são flores. Há, logo no começo do livro, um acontecimento que passa a determinar o caminho da história a partir dali. Por um descuido patético e comum, os e-mails trocados entre Simon e Blue acabam caindo nas mãos de uma pessoa que passa a chantagear Simon. Essa situação é basicamente a mistura que passa a envolver todos os personagens da história, pois Simon começa a regrar seu comportamento de acordo com as paranoias que ele tem de todos descobrirem que ele é gay.

Isso foi até que interessante, porque, analisando bem, esse acontecimento deu o “pano para manga” que a história precisava. Os plots de personagens secundários passaram a ficar mais evidentes, e as complexidades de cada pessoa acabaram criando um caldo bem gostoso de saborear na leitura.

O que me leva a destacar os pontos positivos da escrita da autora. Então… Becky Albertalli. Esse foi o primeiro livro que eu li dela (e provavelmente vai ser o único, porque dei uma pesquisada super-rápida e acho que ela não escreveu outras coisas), mas foi muito bom. Não. Foi ótimo. Sério mesmo. Eu havia terminado de ler um livro com temática LGBT e foi muito fácil comparar a escrita de duas autoras escrevendo sobre basicamente a mesma coisa.

Talvez o êxito da Albertalli venha da experiência dela como psicóloga clínica, que, como ela mesmo fala no final do livro, lhe proporcionou ter contato com vários jovens corajosos, criativos e divertidos que são gays. Esse feedback possibilitou que ela escrevesse algo muito natural. Não houve nenhuma parte que eu achei forçada, ou que fosse apelativa no sentido de usar dramas para dar efeito às cenas.

Na verdade, o livro tem aquele tipo de pegada despretensiosa que eu adoro. Do tipo que a autora não exagera muito e aposta na simplicidade de apenas sentar e contar uma história. Novamente digo: na medida certa. É um livro feliz, gente. O final vai fazer muitas pessoas cansarem de dizer “Awwww”. E isso me lembra uma coisa…

Eu gostei muito do final escolhido para o livro, e penso que vocês também vão achar suficientemente agradável. MAS… na minha humilde opinião, houve dois momentos no livro em que a história poderia ter terminado ali mesmo e eu acharia ainda mais legal.

Primeiro final sugerido:

Houve uma pausa. Nós ainda nos olhávamos. E um sentimento no meu estômago de que havia um rolo esticado lá dentro.
– É você – eu digo.
– Eu sei, estou atrasado – ele fala.
E então surge um som estrondoso e um solavanco, e a música aumenta. Alguém grita, depois ri, e a volta começa.
[tradução livre]

Segundo final sugerido:

Então eu me inclino até ele, e meu coração está na garganta.
– Eu quero segurar sua mão – digo suavemente.
Porque estamos em público. Porque eu não sei se ele é assumido.
– Então, segure – ele diz.
E eu seguro.
[tradução livre]

Eu não pretendo explicar o contexto dessas cenas, porque seria claramente um spoiler, muito embora vocês precisem ler para entender e concordar com o que eu estou falando. Mas se a Albertalli tivesse usado um desses, especialmente o primeiro final sugerido, eu ficaria felicíssimo. Porque tudo acontece rapidamente, e tudo fica perfeito de uma hora para outra, e de repente parece que o planeta parou a rotação só para observar o que estava rolando entre os dois. Foi mágico e fofo. E eu não acredito que acabei de escrever isso.

Bem. Eu seriamente gostaria de escrever muito mais sobre esse livro. Na verdade, minha vontade era de contar a história inteira, e encher vocês de detalhes, mas isso não seria de bom tom e, como eu sempre digo, somos phynos e não damos spoilers (muitos).

Minhas considerações finais, de verdade, são duas coisas:

1 Becky Albertalli é o equivalente feminino do David Levithan.

2 Becky Albertalli precisa escrever mais livros. Tipo, pra ontem!

Adoraria, inclusive, assim como um pedido de um leitor-de-boas, que os dois passassem a escrever livros de ficção contemporânea que envolvessem pessoas um pouco mais velhas. Okay, eu sei que a adolescência tem um grande sex appeal para escritores, mas, gente!, ninguém é adolescente para a vida inteira, e eu meio que estou mais do que pronto para consumir literatura LGBT cujos protagonistas componham uma faixa etária entre os 20 e 30 anos. #ProntoFalei.

Enfim, espero que tenham conseguido engolir essa resenha, e recomendo com força que vocês leiam esse livro. A Intrínseca já o traduziu para o português e acredito que os exemplares chegarão às livrarias a qualquer momento num futuro bem próximo.

Isso é tudo por hoje.

Até a próxima.
Vlaxio.

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8 comentários em “Resenha: Simon vs. a agenda Homo sapiens, de Becky Albertalli”

  1. A unica coisa que eu posso pensar é em Ai meu deus eu preciso ler esse troço e descobrir meu final favorito!!!

    Você realmente gostou do livro, né?! Acho que essa enxurrada de livros LGBT que saiem em um único molde, onde só se troca o nome dos personagens, me saturaram tb… Fora que eu não suporto YA! Então acabo lendo, dentro dessa temática, muita coisa “extremamente” erótica e ruim. Alguns viraram meus livros favoritos da vida, mas o que adianta ter 3 livros de 300. Olha só o tempo perdido! Esses escritores YA precisam começar a pensar em crescer com seu público.

    Bjs

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    1. Muito bem colocado, Tashiro… Os escritores realmente precisam entender que os fãs deles crescem, amadurecem, e mudam de gostos. Para aquela turminha que tá entrando agora na adolescência, já tem bastante YA no mercado que eles vão sempre poder aproveitar. O que falta é o “A” se separar do “Y” no YA e começar a ficar mais evidente nessa categoria literária. A história do Simon vs. a agenda Homo sapiens seria incrivelmente mais legal se, por exemplo, os protagonistas estivessem numa universidade. E isso se aplica a tantos outros livros…

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    1. Oi, Francisco. Superbacana a entrevista com a Becky. Mostra como ela é uma pessoa realmente legal, e como isso se refletiu no modo como ela escreveu o livro tão gentilmente, sem deixar de soar verdadeira. Muito bom!

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