Livros

Resenha: O quarto dia, de Sarah Lotz

OQuartoDia

Olá, pessoal.

Hoje vim falar aqui de um livro que eu estava muito ansioso para ler, muito embora tenha procrastinado por dois séculos antes de dar uma chance para a história. Devo começar dizendo que eu não li ‘Os Três’ – que é o livro anterior da autora e que deixou muita gente animada –, mas, segundo o que li em alguns fóruns literários, a leitura não é prejudicada pelo fato de que as histórias não têm cronologia entre si (corrijam-me se eu tiver sido informado errado). Em sendo assim, esse foi meu primeiro contato com a autora, mas já adianto que não será o último.

Na contracapa do livro, a gente se depara com um shoutout de ninguém menos que Stephen ‘Fucking’ King, e ele dá uma rasgadinha de seda um pouco maior do que eu teria esperado: “Um livro excelente. Esse cruzeiro veio direto do inferno”. Sem querer menosprezar o trabalho da Lotz, mas essas duas sentenças com certeza renderam a ela alguns milhões a mais em vendas. E, okay, ela mereceu, vai…

Entrementes, li em muitos blogs, avaliei algumas sinopses e assisti a alguns vídeos que falavam constantemente que esse era um livro de terror. Devo discordar. E isso me leva a uma discussão antiga que eu levantei aqui mesmo no blog para o #HalloweenWeek do ano passado na resenha de ‘A pista do alfinete novo‘, do Edgar Wallace. No texto, eu defendo que os gêneros Terror e Suspense não poderiam ficar na mesma categoria, porque, na minha opinião, todo Terror tem suspense, mas nem todo Suspense tem terror. Sintam-se à vontade para discordar da minha discordância nos comentários, porém, sendo presidente do clube dos chatonildos, eu realmente detesto trocar gato por lebre. Especialmente quando Terror é um dos meus gêneros favoritos…

Adicionalmente, a gente poderia entrar aqui em outra discussão sobre o que determina se uma história é de terror ou de suspense, certo? E aí, as opiniões certamente divergiriam de acordo com os gostos pessoais, portanto, seria um pouco mais difícil chegar a um consenso sobre as categorizações. Só porque uma história tem fantasma não significa que eu vá morrer de medo (alô, Gasparzinho!). O mesmo vale para vampiros, lobisomens, zumbis, et cetera ad infinitum. Nesse caso, e apenas por causa dessa situação, eu relevo que as livrarias coloquem na mesma estante Agatha Christie e Edgar Allan Poe. Mas vocês pegaram a ideia. ‘O Quarto Dia’ dá sustos, sim, mas medo… bem, creio que isso dependerá de cada leitor.

Logo no começo da história você já sabe que tudo vai acabar em merda para muita gente, e, ao longo da narrativa, é possível passear por um misto de sentimentos em relação aos personagens. Quer dizer, vai ser bem fácil você duvidar se quer que eles vivam ou que tenham um fim trágico. Isso conta muitos pontos positivos para qualquer escritor, posto que fazer o leitor ter empatia pelo que lê é um indicativo de sucesso na escrita. Se meu comportamento fosse blazé por causa da história, então o livro em si teria sido desperdiçado. Felizmente, Lotz consegue proporcionar laços emocionais satisfatoriamente para que o leitor se importe com a narrativa – seja para o bem ou para o mal.

Dito isto, deixem-me contar um pouco da sinopse.

‘O Quarto Dia’ trata da história de um cruzeiro de Réveillon, no qual 2.962 pessoas, entre passageiros e tripulantes, estão a bordo do navio O Belo Sonhador. Os três primeiros dias de viagem foram normais, muito bem, obrigado. No dia quatro, contudo, o navio perde a capacidade de gerar energia, assim do nada. Como consequência, o gerador de emergência não tem força suficiente para mover o navio. Por conseguinte, as pessoas perdem o acesso à internet e a comunicação por qualquer meio é interrompida com o continente. Deparam-se no meio do oceano, à deriva, sem nenhum sinal de proximidade à terra. Nem um avião sequer passa pelo céu. Sem ar condicionado, refrigeração, encanamento e luz, a comida começa a acabar, um vírus ataca uma boa metade dos passageiros e vigora a premissa machista de que apenas os mais fortes sobreviverão. Somado a isso, os passageiros acabam perdendo as estribeiras, passam a ver gente morta, o diabo a quatro, e o caos se instala por completo.

É interessante observar que as pessoas, quando expostas a uma situação extrema, tendem a não acreditar naquilo que está óbvio na cara delas. É tipo o Eduardo Cunha dizer que não tem conta na Suíça sendo que o banco já entregou inúmeros documentos que provam o contrário. Geralmente, isso se dá como um mecanismo de defesa das nossas funções neurológicas contra o perigo iminente. Eu, por outro lado, acho que é burrice mesmo.

Estruturalmente, o livro é narrado em terceira pessoa, mas sob o ponto de vista de seis ou sete personagens (esqueci agora). A cada capítulo é colocado aquilo que define (mais ou menos) cada personagem. Temos a Assistente de Bruxa, por exemplo, o Condenado, a Criada do Diabo, e assim por diante. Nos capítulos seguintes, são esses títulos que vão identificar o ponto de vista de quem está na cena principal. É quase que impraticável você não ter um favorito dentre eles, do mesmo modo que pode não se identificar nem um pouco com os outros. Lá pelo final, a estrutura narrativa muda um pouco, mas não darei spoilers, claro.

Antes de ler o livro, eu pensava que a história se passaria em apenas um dia (o quarto, obviamente). Tipo, achei que toda a merda ia acontecer no dia quatro e no dia cinco tudo já teria terminado, meio que algo à lá Jack Bauer (de 24 Horas), sacam? Mas não! A história se desenrola até o dia oito. Eu acho que gostei disso, porque se a trama fosse executada num único dia, ia ser uma leitura rápida demais para apreciação.

Agora sobre a escrita da autora. Eu já esperava que a Lotz escrevesse bem, portanto, apenas constatei que isso é verdade. A narrativa flui com facilidade, sem muitos bloqueios, e isso talvez se dê exatamente pelo fato de a história ser dividida em vários pontos de vista. Ao fazer isso, a autora nos obriga a lembrar do fluxo de pensamento de personagens que a gente leu trinta, quarenta páginas atrás, e isso, por si só, faz a gente criar memórias que nos auxiliam a identificar a personalidade de cada um.

Os personagens são ricamente trabalhados, e não deixam a desejar quanto aos quesitos de construção, comportamentos críveis, e reações desencadeadas. Em algum momento, as histórias se cruzam. É legal como a autora dá a cada um expoente da história um passado que influencia a gente a ter dúvidas constantes. Lembra que falei que às vezes torcemos para que alguém sobreviva e outras vezes torcemos pelo final trágico? É exatamente isso que a autora possibilita quando cede veracidade à atitude humana, e a correlação de cada um com a possibilidade do sobrenatural.

Você se pergunta o que está acontecendo.

É Alguém que está fazendo isso?

Ou é Algo?

Como um apaixonado por histórias (não por livros como objetos físicos, muito embora adore um livro bonito), costumo tentar entender o que leva cada escritor a escrever determinadas partes das suas obras. Nesse ponto, Lotz foi para mim uma leitura demasiadamente agradável, pois eu conseguia, em lendo, localizar as técnicas narrativas que ela usava, e entender o motivo (pelo menos o principal) para que aquilo fosse escrito daquele jeito (mesmo em se tratando de uma tradução, que, por sinal, está bem satisfatória).

Vejam bem, diferentemente de um filme, o livro não possui recursos sonoros nem de vídeo para sugerir reações. Quer dizer, quando assistimos a um filme de suspense, a trilha-sonora é rainha (vide Psicose do Hitchcock). Já no livro, para ambientar as cenas, o autor conta apenas com as palavras e a noção do que os leitores conhecem acerca do mundo. Para criar uma atmosfera de thriller, ou para dar um baita susto, escritores são muito mais suscetíveis a fracassar, pois qualquer palavrinha fora do lugar pode cortar o clima ou fazer criar outro diferente do desejado. Por tudo isso, dou à Sarah Lotz várias estrelinhas brilhantes, de modo a atestar que ela de fato sabe ambientar situações com palavras. É tanta sugestão implícita que eu lembrei em vários momentos da semiótica de Saussure, da indução pela linguagem. Para um bom entendedor, meia pala bas… Sacaram? Dou os parabéns para a autora.

Quanto à edição da Arqueiro, já vem com aquele padrão de qualidade que a gente conhece bem. É uma brochura (sem orelhas) com ótima formatação, páginas amareladas e confortáveis para a leitura e fonte no tamanho adequado. A própria capa me agradou muito, pois ao mesmo tempo em que é simples, dá uma noção perfeita do que seria um navio gigantesco solitário no meio do oceano à deriva pela noite. A ponta das folhas é toda pintada do mesmo azul que está na capa e isso dá um toque especial para o livro ficar bem bonitão. Trabalho decente, sabe, nada de desleixo.

A história é distribuída muito bem em 346 páginas, com os aspectos necessários para uma trama bacana. Vi muita gente reclamando do final, que ficou meio aberto, mas eu particularmente achei digno e até muito bom. É como se fosse um conto, sabe? O final está ali, pode se prolongar, mas não vai, porque quer dar ao leitor aquele sórdido gostinho de “porra, acabou?”. Ouvi dizer também que esse tipo de final é uma característica da autora, e que ela fez a mesma coisa com ‘Os Três’, portanto, torna-se ainda mais aceitável. Aliás, depois de ‘O Quarto Dia’, pretendo ler ‘Os Três’ para ontem, e espero não estar indo com muita sede ao pote. Soube que há referências ao primeiro livro dela nesse que eu li, mesmo que a leitura independente deles não compromete o entendimento das histórias.

Por isso, faço aqui minhas recomendações para que vocês leiam esse livro ótimo. Não é a coisa mais foda que existe, mas com certeza é uma história com alta qualidade de entretenimento, bem desenvolvida, cruel, e vale o seu dinheirinho suado nesses tempos de crise. Sarah Lotz se tornou dessas pessoas para mim que podem ser chamadas de Escritoras com E maiúsculo. Se ela continuar assim, e escrever tipo um livro por dia (risos), ela pode acabar se tornando a versão feminina do Stephen King, e acho que ele sabe disso.

Bem, por hoje é só.

Espero que tenham gostado do texto, pois cada dia se torna mais difícil escrever uma resenha que não tenha tantos spoilers.

Até a próxima.

Vlaxio.

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3 thoughts on “Resenha: O quarto dia, de Sarah Lotz”

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