Livros

Resenha: A longa e sombria hora do chá da alma, de Douglas Adams

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Olá, pessoas.

Hoje venho entregar a vocês mais uma resenha delicinha, dessas, cujo livro é ao mesmo tempo instigante, bem escrito e com uma história para ninguém colocar defeito. Trata-se de ‘A longa e sombria hora do chá da alma: segundo livro da série Dirk Gently’, do boníssimo Douglas Adams. Para quem não sabe, tive a oportunidade de resenhar outro livro do autor – o primeiro dessa série: ‘Agência de investigações holísticas Dirk Gently’ – aqui, e posso adiantar que a cada nova leitura dele eu fico mais perplexo com a beleza da obra.

Só pelo título já dá para ter uma boa ideia de que a pegada do livro é o humor, mas que nem por isso deixa de abordar temas sérios e fantásticos, como religião, ciência, tecnologia, etc. Como eu pontuei na resenha anterior, os trejeitos do humor negro britânico são incrivelmente presentes na narrativa do Adams, e isso confere ao livro vários pontos extras, posto que – vamos admitir – há bem poucas coisas mais engraçadas do que uma comédia à lá Elizabeth II. Para quem já teve a chance de ler o primeiro volume da série, sabe que tudo – e eu enfatizo: tudo – desempenha algum papel dentro das histórias do Adams. É o estilo “holístico” dele. Portanto, esse título – que é inusitado, charmoso e intrigante – será explicado em determinado momento do plot, e obviamente não pretendo estragar a diversão de vocês, por isso não vai ter spoilers.

Meu primeiro contato com o Adams – e acredito que o de muita gente – foi com ‘O guia do mochileiro das galáxias’. Nas primeiras páginas da trilogia de cinco livros eu já soube que me apaixonaria, e não estava errado. Um grande número de pessoas costuma pensar que os livros do Adams são mais voltados para um público dito Nerd – e isso, claro, tem seu fundo de verdade, considerando todas as referências encontradas na trama. Mas, sinceramente falando, penso que o Adams é desses autores coringas – tais como J. K. Rowling e Pedro Bandeira, dentre poucos outros – cujas histórias atingem todos os tipos de público. Seja Nerd, Geek, Fanboy, Gamer, Tiete, Bolsonete, e até simpatizantes do Monstro de Espaguete Voador – não importa. Tudo o que Douglas Adams escreve é passível de correlação e empatia com o cotidiano das massas, em maior ou menor escala, e isso, meus caros, é algo muito raro de se encontrar por aí.

A história começa nos apresentando Kate Schechter, uma mulher peculiar que está num aeroporto de Londres tendo dúvidas sobre a viagem que está prestes a fazer e se realmente devia entrar no avião. Schechter está a caminho de Oslo, na Noruega, para se encontrar com um homem com quem está envolvida amorosamente. Mas há algum tempo ela perdeu o amor de sua vida, que teve uma morte trágica e precoce. A partir de então, a vida dela, que já era digna de uma nota de rodapé bem cômica, tornou-se ainda mais pitoresca. Quer dizer, para ela, a graça de tudo não era tão veemente, já para o leitor… O caso é que, aparentemente, o universo a está bombardeando de sinais para que ela não faça aquela viagem, mas ela meio que ignora todos eles, porque não é religiosa nem supersticiosa. Uma gracinha.

Enquanto isso, Dirk Gently, o detetive mais legal de todos os tempos, está com a vida acabada, e chegou ao fundo do poço. Ele agora se sustenta fazendo uns bicos como quiromante numa tenda cigana qualquer. Claro que ele não tem poderes clarividentes nem consegue adivinhar o futuro de ninguém lendo a palma da mão, mas sua habilidade de dedução permite que ele “descubra” coisas a respeito dos clientes que nem eles mesmos sabem ou são cegos demais para ver. Gently tem um compromisso no dia do voo de Schechter, mas acaba chegando atrasado e se desencontra com o cliente.

Basta apenas isso para desencadear uma sucessão de eventos esdrúxulos que fazem a história ter aquela loucura que a gente tanto adora. Devido a uma ocorrência estranha no aeroporto, Schechter termina por não conseguir embarcar, e, eventualmente, os caminhos dela e de Gently se cruzam de forma engraçada, crua e muito boa. O que se segue é, para meu deleite, um caleidoscópio de zueira do melhor tipo que existe na literatura.

O que mais me deixa perplexo nas histórias do Adams é que ele consegue juntar um bilhão de coisas numa única trama, dar valor a elas, e fazer os quebra-cabeças todos serem solucionados no final. Em determinadas partes do livro, tem tanta coisa acontecendo de uma só vez que você chega a duvidar da capacidade dele de fechar todos os pontos soltos sem parecer apressado ou ofender a inteligência dos leitores. Mas de algum modo ele consegue fazer isso de modo majestoso, como se estivesse manipulando o leitor durante todo o tempo em que temos contato com a narrativa, para, então, passar a régua em todos os aspectos e dar uma forma legível ao mosaico de situações criadas por eles e às quais os protagonistas são submetidos.

O Adams é bom desse jeito!

No que diz respeito à escrita, eu realmente me acho um zé-ninguém para vir aqui e julgar o estilo do autor. Mas como é o que temos para hoje – huehue – farei esse sacrifício. Antes de mais nada, entendam uma coisa: o diabo mora nos detalhes. A partir dessa concepção, tenham em mente que, quando me refiro a detalhes, estou querendo dizer que tudo aquilo que parece tão trivial para alguns autores de renome – que focam apenas no extraordinário –, para Adams se torna muitíssimo importante, e a banda toca diferente. O mesmo se aplica, como falei lá em cima, a J. K. Rowling e a Pedro Bandeira.

O que isso significa? Simples e diretamente que Adams prioriza a narração dos acontecimentos como se eles fizessem parte da realidade comum dos personagens – mesmo na fatídica impossibilidade de isso ser verdade. Em determinadas situações de grande frenesi, por exemplo, ele vem e começa a falar sobre o clima, ou sobre um pássaro passando pelo céu, enfim, esse tipo de coisa, sacam? Essa descrição que transforma o extraordinário em ordinário é o que mais cria empatia no leitor, e, doravante, torna a leitura mais incrível.

De todo modo, eu poderia falar e falar sobre o quão foda Adams é, mas isso seria muita redundância para que eu me importasse. Meu conselho é que você dê uma chance à série, e passe a conhecer esse detetive que não apenas é engraçado como um personagem de Monty Python, como também não perde em nada para os queridinhos do mundo do romance noir, vulgo Sherlock Holmes e Hercule Poirot.

Isso é tudo por hoje.

Até a próxima.
Vlaxio.

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