Livros

Resenha: O príncipe de Westeros, de George RR Martin & Gardner Dozois + Feliz 1º dia do ano

Olá, primeiro dia do ano.

Olá, leitores do Silêncio Contagiante.

E… Olá, incauto visitante que se tornará leitor do blog em breve.

feliz

Sou o Vlaxio. Lembra de mim? Pois é! Andei sumido da face do blog por um tempo, e eu, sem modéstia como sou, poderia listar uma série de desculpas maltrapilhas que culminaram para este hiato no mundo das resenhas literárias. Porém, não ofenderei você com minhas leseiras-barés; apenas gostaria de informar que — até o derradeiro dia do ano que deixamos para trás, vulgo 31.12.16 —, estive empenhado num projeto pessoal que tomou muito do meu tempo, concentração e cabelos pretos.

Mas cá estou de volta, para alegria de uns e tristeza de… você não está triste, está?

Hoje, tomei a liberdade de escrever este post sem nem mesmo avisar à chefe-imediata-de-terceiro-grau, melhor conhecida como May Tashiro, o famigerado Moranguinho do Norte (rá, Frank Aguiar, melhor pessoa, lembra dele?). Basicamente, decidi publicar, de 1º a 7 de janeiro de 2017, uma resenha por dia, acompanhada de uma mensagem de minha escolha sobre a vida nesse ano que se inicia. Assim, começaremos a arrasar logo na primeira semana do ano, que tal?

Eu sei, soa entediante. Mas me dá uma chance, vai…

Claro, existe a possibilidade de a Tashiro me assassinar às escuras por eu vir ao blog dela, bagunçar um pouco as coisas, e ainda colocar em risco de tédio os leitores que tão bravamente nos acompanham nesses anos de estrada. Direito dela, né nom? Em sendo assim, caso eu não apareça por aqui amanhã… bem… CHAMEM A FUCKING POLÍCIA!

Encerradas as saudações, podemos dar início aos trabalhos do ano.

o-o

O livro sobre o qual você e eu vamos conversar hoje é O Príncipe de Westeros, uma coletânea de contos organizada por George R. R. Martin (Le-Pica-das-Galáxias) e Gardner Dozois (um cachorro grande do universo editorial internacional). Tenho exatos dez motivos pelos quais você deve ler esse livro. São eles: Neil Gaiman (Coraline), David W. Ball (Empires of Sand), Gillian Flynn (Garota Exemplar), Paul Cornell (Who killed Sherlock Holmes?), Scott Lynch (As mentiras de Locke Lamora), Phyllis Eisenstein (The book of elementals), Joe R. Lansdale (Hap and Leonard thrillers), Patrick Rothfuss (O nome do vento), Connie Willis (To say nothing of the dog), e, obviamente, George R. R. Martin (As crônicas de gelo e fogo).

O título dos contos dos respectivos autores são: Como o Marquês recuperou seu casaco (Gaiman), Proveniência (Ball), Qual é a sua profissão? (Flynn), Um jeito melhor de morrer (Cornell), Um ano e um dia na velha Theradane (Lynch), A caravana para lugar nenhum (Eisenstein), Galho envergado (Lansdale), A árvore reluzente (Rothfuss), Em cartaz (Willis), e O príncipe de Westeros ou O irmão do rei (Martin).

Se esses dez motivos não foram suficientes para despertar seu interesse pelo livro… põrrann… você tem caraminholas na cabeça. Brincadeirinha… *risos*… ou não. Vou dar mais algumas razões para desanuviar sua mente a fim de que você pegue o primeiro moto-taxi que aparecer pela frente para desembestar até a livraria mais próxima e adquirir um exemplar dessa belezura dos deuses.

Antes de mais nada, a coisa boa já começa na introdução do livro, que tem uma cara de prefácio, mas até pode ser considerado um prólogo, visto que foi assinada por um dos maiores escritores atualmente vivos (pelo menos ainda, eheh). Ela é escrita pelo nada-menos-que-brilhante George R. R. Martin, e, em linhas gerais, ele nos diz que as histórias contadas adiante são, principalmente, sobre canalhas. Sim, canalhas mesmo, você leu direitinho. De acordo com o Mini-Aurélio (naquela versão dada pelo governo em meados da década de 2000 aos alunos de escola pública — alguém mais possui um desses além de mim?), canalha significa “gente reles, desprezível; pessoa infame, indigna, vil”. Por alguma razão o Mini-Aurélio está certíssimo (bah! Talvez porque é um dicionário, duh!). As histórias do livro, de fato, nos apresentam gente dessa laia, mas, usando as palavras de Martin, devo admitir que “todo mundo ama um canalha”.

Agora, permita-me deixar algo claro. Eu não vou dar sinopse de nenhum dos contos, porque… bem… são contos, isto é, versões bem menores de histórias completas em livros, portanto, qualquer tentativa de sinopse pode se transformar num spoiler em potencial. E eu não quero estragar isso para você. Minha resenha de hoje vai consistir em tentar convencê-lo(a) a se interessar pelo livro sem dar maiores informações sobre o enredo das histórias divididas. Ou seja, a resenha será sobre o livro em si, não sobre contos específicos. Muito embora eu deva admitir — e acho que muitos poderão discordar das minhas preferências duvidosas — que há dois contos empatados no topo dos meus favoritos. São, por ordem de aparição no sumário, Como o Marquês recuperou seu casaco, do Gaiman, e Um jeito melhor de morrer, do Cornell.

Martin começa dando uma definição à sua maneira do perfil do canalha, que, mesmo amando-os, às vezes nos arrependemos de tê-los conhecido. O mais legal em tudo o que ele diz — algo que eu concordo muito — é que ele situa a personificação do canalha num patamar intermediário entre vilão e herói. Como se tais personagens habitassem uma zona que não é preta nem branca, mas cinzenta, e, exatamente por isso, nos agradam tanto. Tenho uma teoria para “explicar” a “explicação” dele, que é a seguinte: somos todos canalhas (nossa, parece até hashtag). Mas veja se concorda comigo. Eu, Vlaxio, não sou uma pessoa completamente boa, nem completamente má, doravante, fico pairando em um meio-termo. Não somos todos assim? Ninguém é um oito ou um oitenta absoluto. Ninguém é bom acima de tudo ou mal acima de tudo. Ninguém é só #TeamJesus ou só #TeamSatan. O cinza é a cor que melhor define o ser humano (nada daquela ladainha de emo; sem ofensa, até fui), porque o mundo não se divide entre pessoas boas e pessoas más, nem entre democratas e republicanos, nem entre sagitarianos e bolsominions, nem entre biscoito e bolacha. Ao invés disso, mesclamos ambas as premissas e nos tornamos… ta-daaa… canalhas.

Para completar, Martin passeia ainda pela desconstrução do gênero-canalha. Quer dizer, reitera o fato de que canalhas figuram por todos os gêneros literários, sem distinção, bem como na própria História da humanidade. Ao fazer isso, o autor dá várias indicações de livros e escritores formidáveis — muitos dos quais eu não conhecia e pretendo conhecer num futuro próximo — que trazem a representação do canalha em seus protagonistas mais indecorosos. Com isso, tentei descobrir qual meu canalha favorito de todos os livros que já li, e acabei percebendo que meu canalha favorito vinha exatamente do meu livro favorito, Lord Henry Wotton d’O retrato de Dorian Gray.

Muitos dos contos do livro são ambientados em cenários atemporais, lembrando a Idade Média, mas não se restringindo a ela. A bem da verdade, as histórias trazem um sem-número de alegorias da vida real, tais como fraude, sedução, charlatanismo, mentira, conivência, vagabundagem, roubo etc. A plêiade de temas recorrentes nos contos é para todos os gostos, e nos fazem perceber que somos tão canalhas quanto qualquer dos personagens em evidência. Não raro, você vai chorar de tanto rir, e rir de tanto chorar com as aventuras do livro (soei até como locutor de sessão da tarde agora). Há muitas partes em que você terá vergonha alheia (minha criptonita), ou que torcerá para o mocinho se dar mal em detrimento do sucesso do canalha, ou mesmo se enrolará numa posição fetal quando começar a amar um personagem e ele vir a fechar o paletó-de-madeira. A vida tem dessas coisas, não é, senhoras e senhores? Leitor que é leitor sabe bem do que eu estou falando.

Quanto à escrita, é óbvio que a pegada narrativa muda de um conto para outro. As ferramentas de contação-de-história variam desde pontos de vista em primeira e terceira pessoas até uso de linguagem chula (porém, adequada) para descrever cenas, diálogos e ambientações. O conto Qual é a sua profissão?, da Flynn, por exemplo, foi tão secamente escrito que em muitos momentos fiquei vermelho com a atitude narrativa da protagonista. Não obstante, mesmo que se mude o jeito de escrever de um autor para outro, há uma conformidade veemente entre todos os contos: são perfeitamente costurados com um trabalho narrativo de ótima revisão, e detalhes na medida certa para fazer você se transportar para dentro da história e, quiçá, imaginar-se nos sapatos do(a) canalha que leva o conto adiante.

A edição da Arqueiro tem uma capa linda (bem mais bonita que a versão americana, na minha opinião), e, além de trazer a qualidade de impressão que a gente já conhece, ainda conta com uma pequena biografia de cada autor antes do seu respectivo conto. Sou desses leitores que adoram conhecer o escritor por trás da obra e pensar que somos amigos quando começo a leitura do seu trabalho.

A seleção de nomes escolhida pelo Martin e pelo Dozois para integrar a coletânea funcionou muito bem na construção de um livro de contos realmente notável. Percebo que muitas pessoas menosprezam livros de contos, e quase sempre com argumentos injustos, por isso, acredito que essa visão deveria mudar daqui em diante. Veja bem, são dez histórias, certo? Nada melhor do que ler uma delas por dia, e ao fim de uma semana e meia você terá terminado de ler um excelente livro com histórias cativantes de pura fantasia e exímia habilidade para deixar satisfeito até os leitores mais exigentes.

Os livros deveriam ampliar nossa visão, nos levar a lugares onde nunca estivemos e mostrar coisas que nunca vimos, expandir nossos horizontes e nossa maneira de olhar o mundo. Limitar a leitura a um único gênero acaba com essa missão. Também nos limita, nos torna menores. Para mim, tanto no passado como agora, parece haver boas e más histórias, e essa era e ainda é a única distinção que realmente importa.

— George R. R. Martin

Para finalizar, gostaria de desejar a todos os leitores do Silêncio Contagiante um 2017 regado de jornadas ao desconhecido, de leituras à luz de velas em noites de chuva acompanhadas de chocolate quente, de amizades quase desfeitas por divergências literárias, porém reforçadas com a partilha de histórias extraordinárias com príncipes, princesas, mocinhos, vilões, criaturas mágicas, políticos utópicos, distopias eletrizantes, heróis anti-heroicos e uma porção de pequenas alegrias que formarão a felicidade de todos nesse ano que começa hoje.

Parafraseando algo que eu disse a um querido amigo recentemente, desejo que você abrace os clichês: elogie alguém do seu lado, se interesse pelo problema dos outros, faça cafuné num(a) gatinho(a) (no duplo sentido), presenteie seu próximo com um abraço-de-urso. Depois disso, sinta-se à vontade para ser egoísta. Ou melhor: à vontade para escolher a si mesmo ao invés das outras pessoas. Incorpore o clichê de ser clichê. Todo mundo é cafona em algum momento da vida. Então — sério mesmo —, permita-se ser cafona e trocar seu emudecimento usual por um sonoro “eu te amo” a quem te faz excepcionalmente bem. De quebra, acredite de uma vez por todas que você vale a pena ser amado — como filho(a), como irmã(o), como amigo(a), como pessoa e como… você mesmo. O bom e velho você.

Você sabe que não custa nada.

Caso meu corpo não seja encontrado numa sarjeta com a boca cheia de formigas e sinais de espancamento (beijos, Tashiro), pode ter certeza de que amanhã estarei de volta com mais uma resenha marota e alguma mensagem pseudo-motivadora para fazer você rir com piadas sem graça e um texto de primeiro, porque nós do Silêncio Contagiante somos phynos e prezamos por uma boa leitura. Se você, assim como a gente, ama livros e adora fazer parte do universo literário de alguma maneira, fique sintonizado no blog, porque 2017 promete ser periclitante, esdrúxula e formidavelmente brilhante.

Cola na gente que você brilha.

Despeço-me por hoje deixando de presente duas hashtags.

#SomosTodosCanalhas e #MayTashiroMoranguinhoDoNorte

Ah! Se der, conta pra gente nos comentários qual seu/sua canalha favorito(a).

Há braços.

Vlaxio.

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