Livros, Resenhas

Resenha: Mil tsurus, de Yasunari Kawabata + Premiados do Nobel, minha gente!

Olá, quarto dia do ano.

Olá, contagiante.

Ficou com saudade, né? Ah, que isso! Puxa uma cadeira e vamos conversar…

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O livro que vou apresentar hoje me decepcionou por um ponto, e me deixou extasiado por outro. Eu meio que fiquei numa vontade louca de ler um pouco de literatura asiática — especialmente a nipônica, que é meu xodó. E, para meu total assombro, me deparei com livros incríveis nesse nicho disponíveis para empréstimo na biblioteca da UFAM — onde estudo —, desde romances policiais até verdadeiros dramas de encher os olhos.

Não perdi tempo, e emprestei cinco de uma vez — se você reparar bem na imagem do livro, dá pra ver uma pequena parte da etiqueta branca no canto inferior esquerdo do exemplar, que indica a classificação da obra e sua localização na biblioteca. Levei comigo um livro técnico, uma trilogia policial e… ‘Mil tsurus’, do Kawabata, cujo nome eu conhecia previamente por saber que ele foi o primeiro escritor japonês a receber o Prêmio Nobel, mas eu não sabia que tinha sido por essa obra em particular. Li rapidamente a sinopse da contracapa e nem liguei muito para o que estava escrito, apenas emprestei e fui para casa morto de vontade para ler.

E, gente, posso falar? Eu agradeço a deus, javé, buda, alá, amon-rá, hórus… até ao monstro do espaguete voador. Foi uma das melhores leituras que fiz na vida, e não me arrependo nem um pouco de ter esperado ficar um pouco mais maduro para ler. Acho que qualquer pessoa pode ler esse livro, mas um mínimo de bagagem de leitura e experiência de vida a tornam mais proveitosa, sofisticada, intimista.

Por que fui decepcionado? Bem, o título do livro é ‘Mil tsurus’, correto? Não sei se vocês estão a par de algumas superstições asiáticas — pelo menos dessa eu sabia —, mas, de acordo com os japoneses, se você fizer mil tsurus de origami pensando em uma única coisa, ao final de todos os origamis essa coisa que você pensou e desejou por tanto tempo vai se realizar. É bem fofinha, essa mandinga. Entrementes, o livro não fala nada sobre essa superstição. A única relação dos tsurus com a história é o fato de que uma das moças pelas quais o protagonista é apaixonado tem um lenço com vários tsurus estampados, muito embora eu esteja certo de que nem chegam perto de mil.

Porém, essa minha decepção — ou frescura, você pode argumentar — não diminuiu em nada o prazer que tive coma leitura, e o tanto que cresci como pessoa, acumulando um pouco mais de experiência quanto ao comportamento dos seres humanos, que, por mais que você lhes diga o que é certo, jamais seguirão caminhos predestinados para um desfecho infinitesimal se comparado às grandes obras de fantasia que dominam o mercado livreiro do mundo.

O livro foi escrito por volta de 1949 e 1951, mas trata de temas atualíssimos no que diz respeito a relacionamentos, amizades, inimizades, falsidade entre as pessoas e a convivência social de uma etiqueta que acaba moldando o que chamamos de sociedade, mesmo sem apreciar tanto assim. A mente de Kawabata devia ser algo tão sensível e visceral que provavelmente teve grande peso em sua decisão de tirar a própria vida em 1972, fato que eu descobri com tristeza, porém sem surpresa alguma. A bem da verdade, você há de concordar comigo que o suicídio — pelo menos na carreira de artistas — acaba emprestando uma aura poética à sua vida, e, doravante, tornam-se ainda maiores depois de mortos. É um tanto macabro, devo admitir, mas ainda assim tem seu charme lúgubre.

Uma descrição perfeita para o autor encontra-se na orelha do livro:

Ao contrastar o ritmo harmônico da natureza e o turbilhão da avalanche sensorial, Kawabata forjou insólitas associações e metáforas táteis, visuais e auditivas que surpreendem por revelar os processos de fragilização do ser humano diante do cotidiano, numa composição surrealista de elementos da cultura e filosofia orientais, personagens acuados e cenários inóspitos.

A sinopse do livro é simples: Kikuji Mitani vai a uma cerimônia de chá, convidado por uma ex-amante de seu falecido pai, evento no qual há ainda uma segunda ex-amante do coroa. Chikako Kurimoto, a ex-amante anfitriã, tinha a intenção de apresentar Yukiko, uma moça que pode acabar se tornando sua esposa de Kikuji (ela é a dona do lenço de tsurus que eu falei lá em cima). Para completar, a segunda ex-amante, Ota, também tem uma filha, Fumiko, na mesma idade de Kikuji e que tenta lhe oferecer como pretendente.

Até aí, tudo bem, nada muito complicado. Mas não se engane, contagiante! Em apenas 171 páginas de história, Kawabata tece uma teia tão complexa, bem-amarrada e poderosa que você será incapaz de se livrar após a leitura. Ainda costumo ficar embasbacado com escritores que possuem a habilidade de criar mundos particulares e cheios de vida em tão poucas páginas. Por alguma razão, me parece que para um livro ser incrivelmente formidável ele deveria ter um número de páginas razoável para que a história pudesse ser mostrada sem parecer corrida ou atropelada pela pressa do autor. Mas com Kawabata é o exato oposto. A história tem um ritmo mais paradão, dessas tramas que a gente adora ler em dias chuvosos acompanhados de uma xícara de chocolate quente, e ele consegue tornar tudo mais profundo, imerso sob camadas de narrativa que, de tão despretensiosas, parecem que não conseguirão dizer a que vieram.

Ledo engano.

Uma das coisas mais legais do livro é exatamente o chá. Para quem não faz ideia, a hora do chá é — ou era, na verdade — levada muito a sério nos países asiáticos. Em ‘Mil tsurus’, por exemplo, as descrições das cerimônias são verdadeiros presentes ao leitor, que passa os olhos pelas páginas se perguntando como alguém pode escrever tão bem, usando tanta simplicidade linguística. O enredo da história tem tantas curvas que parece até um labirinto para a alma do ser humano, dando a entender que há pouca coisa mais impressionante do que o modus vivendi do homem na sociedade.

Para você ter uma ideia do que estou falando, deixe-me tentar explicar em poucas linhas o que acontece: para isso, vamos chamar os personagens de A, B, C, D, E, F, G e H. Preparados? Vamos lá!

A é casado com B e ambos são pais de C. A tem como amantes D e E, sendo esta última esposa de F — que é amigo de A —, e ambos são pais de G. B descobre as traições de A com D e E, mas nunca faz nada, “porque isso é coisa de homem mesmo” [Argh!]. A finalmente deixa de cornear B, para de falar com E, e D torna-se um tipo de amiga da família — até porque ela era um pouco feia, e só servia para aquelas coisas. Tempos depois, B morre. Posteriormente, A também morre. C, então, é convidado por D para uma cerimônia de chá a fim de ser introduzido a H, uma ótima pretendente. Nessa cerimônia, estão presentes também E e G. A mãe desta última vai atrás de C depois da cerimônia, pois não acabou muito bem, e lhe pediu que considerasse G como uma possível pretendente. C e E acabam tendo um caso, escandalizando D e G, por motivos diferentes. Mas C também é apaixonado por H, e não é capaz de dispensar G. Eventualmente, E morre, e G pede sua ajuda para o enterro. Furiosa, D observa o romance se formando entre C e G, arma um plano e gera um mal-entendido entre os dois para fazer C se casar com H. No entanto, H termina por desposar outra letra do alfabeto — irrelevante para este parágrafo — e G, que tem certos problemas de inferioridade, culpa-se por atrapalhar o matrimônio de C. Enquanto isso, D, que parece uma figura bruxuleante e imortal, continua se intrometendo na vida de C, em memória de A, a quem sempre amou e por quem sempre foi rejeitada.

Considerem isso 10% da complexidade desse livro.

Não estou brincando quando falo que escrever um enredo tão absurdamente lindo e ramificado em 171 páginas deve ser algum tipo de milagre. Não acho que sou capaz de dizer a você o quanto esse livro é incrível, sem acabar dando mais spoilers, por isso, se tiver oportunidade, dê uma chance a ‘Mil tsurus’, pois é desses livros raros, simplórios, que trazem perspectiva à nossa maneira de observar o mundo que nos cerca e as pessoas que orbitam ao nosso redor. É uma leitura que engradece, sabe, e te faz ter orgulho de ser um leitor. No fim das contas, a experiência é impagável.

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Minha sugestão de hoje é que você leia um livro/autor premiado com o Nobel de literatura. Muita gente costuma pensar que livros que ganham esse “Oscar dos Escritores” acabam sendo calhamaços intragáveis, com linguagem arcaica, deliberações filosóficas e alegorias sociológicas que não descem a goela. Certo. Alguns deles realmente têm tudo isso, mas… já parou para pensar por que ganharam um Prêmio Nobel? Veja bem, ganhar esse prêmio não significa dizer que o escritor ou a obra estão em algum nível divino que ninguém jamais vai alcançar. Mas, significa, sim, que são livros enriquecedores, que te fazem pensar ao se deparar com dilemas majoritariamente humanos.

Tive a oportunidade ler algumas obras de Prêmio Nobel na minha vida, e sabe o que aferi entre todas elas? Que, acima de tudo, essas histórias são escritas por pessoas sobre pessoas para pessoas. ‘Mil tsurus’ é um exemplo claro disso. Você não encontra dragões, nem alusões ao fantástico, ou mesmo romances água-com-açúcar. O que a maioria desses livros agrega ao leitor que os desafia na leitura é exatamente a certeza de que os seres humanos ainda são e sempre serão a inspiração mais caleidoscópica para criação de histórias, sejam elas baseadas em fatos reais ou construídas num tipo de ficção que jamais poderia existir no plano físico das pessoas comuns.

Quando sugiro a você que leia obras desse tipo, não estou tentando dar uma de maioral, que fica se achando só porque lê um ou outro livro mais conceitual. Longe de mim. Minha intenção é compartilhar a mesma experiência insólita que eu tenho quando me deparo com histórias desse calibre, que permearão minha mente por toda a vida. Não se restrinja a este ou aquele gênero. Melhor: mantenha sua predileção por determinado tipo de livro, mas acrescente outras formas de alegria no seu bojo de leitor. No pior dos cenários, você terá lido um livro de que não gostou. No melhor dos cenários… bem… posso garantir que algumas histórias podem fazer você flutuar até o espaço.

Isso é tudo por hoje.

Espero que tenha gostado e que retorne amanhã para mais uma bat-resenha neste mesmo bat-blog, deste mesmo bat-resenhista e nessa mesma bat-semana do mês. Te espero.

Há braços.

Vlaxio.