Livros, Resenhas

Resenha: As três irmãs, de Anton Tchekhov + Que tal começar a ler os clássicos para variar?

Olá, quinto dia do ano.

Olá, contagiante!

Advinha quem está começando a dar os primeiros sinais de cansaço ao escrever uma resenha por dia? Isso mesmo, não eu! Porque estou adorando vir aqui diariamente para conversar com você sobre a segunda coisa que eu mais adoro no mundo: LER. A primeira — caso você esteja curioso — é escrever. Espero que você também esteja curtindo essa semana porra-louca de resenhas, porque estamos entrando na reta final dela, e depois não quero choro de saudades, oká?

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Hoje vou falar sobre um clássico da literatura universal, mais especificamente da literatura russa — ontem falei da asiática, anteontem, da brasileira, e no dia anterior, da americana/inglesa (aposto que você nem se deu conta disso) (e essas duas últimas não eram de livros clássicos). Lembra quando falei aqui que uma das minhas metas para 2017 — e para o resto da vida, na verdade — seria ler um clássico por mês? Pois é! Entrei janeiro e estreei a meta vitalícia com a leitura de ‘As três irmãs’, do dramaturgo russo Anton Tchekhov. Daqui a pouco digo quais minhas pretensões para leitura de clássicos ao longo do ano; antes disso, porém, vamos direto ao assunto, porque tempo, meu bravo leitor, não se vende na esquina.

‘As três irmãs’ é um drama escrito em forma de peça teatral, dividida em quatro atos. O mais interessante em ler esse tipo de narrativa é que não há muita narrativa. O que se tem são os diálogos dos personagens, com alguns poucos indicativos das ações deles dentro de determinado cenário, a fim de instruir os atores sobre o comportamento esperado nessa ou naquela situação. Tenha em mente que a história foi escrita para ser encenada em um teatro, com uso de interpretações, direção, produção de cenário, sonoplastia, etc. Ou seja, quando mostrada no teatro, a história conta com o auxílio de inúmeras ferramentas visuais, sonoras e de vibração que ajudam ao expectador compreender o que vê.

Entrementes, quando o roteiro da peça está sendo lido, a experiência se restringe em grande parte à imagética que o leitor é capaz de construir. Isto, na minha opinião, pode ser bom ou ruim — a depender. Bom, porque, se o leitor tiver um pouco de bagagem e uma imaginação decente, preencher as lacunas da narrativa não apenas pode deixar de ser um problema, como também é capaz de levar para além do que o escritor jamais sonhou. E ruim, porque, se o leitor tem uma bagagem leve e experiências rasas, pode acabar não entendendo o enredo ou pensar que o escritor é que não soube executar o que se propôs.

As três irmãs são Olga Prosorov (a mais velha), Maria Prosorov (a do meio) e Irina Prosorov (a caçula). Curiosamente, elas têm um irmão, Andrei Sergueievitch Prosorov, mas, apesar de ele estar na história junto delas, não é um personagem tão forte. A personalidade das irmãs é o que as define, e também a coisa de que mais gostei durante a história — especialmente por ter uma tara com esse negócio de “três irmãs” na minha vida: as mulheres mais fortes da minha família são três irmãs, um dos meus filmes favoritos (Hocus Pocus) tem três irmãs como protagonistas (as Sandersons), e no meu segundo livro (cof cof), há também três irmãs muito presentes na história.

Na obra de Tchekhov, a mais velha, Oliútchka¹, é a mais severa, inteligente e tem um ar todo professoral de quem adora ensinar. A do meio, Machenka², é a mais irritada, infeliz com o casamento e mais propensa a cometer pecados de traição sem o menor pudor (essa é das minhas, porque sou desses que partem do pressuposto de que: ninguém é de ninguém). E a mais nova, Irinuchka³, assume um comportamento jovial e tem muitos momentos sonhadores que a levam a desejar uma vida de conto de fadas.

¹ Forma afetiva para Olga; ² Forma afetiva para Maria; ³ Forma afetiva para Irina.

A história começa com as irmãs lembrando que faz exatamente um ano desde que seu pai morrera — em paralelo, também é aniversário de Irina —, e deliberando sobre as mudanças ocorridas em seu estilo de vida nesse período. O pai delas era um militar importante, por isso sua casa recebe sempre a visita de militares — alguns deles, inclusive, tornaram-se amigos da família, enquanto estão de serviço naquele local. Em virtude da carreira do pai, a família se mudou, num passado não muito claro, para uma província russa, mas o maior sonho das irmãs é voltar para a vida urbana de Moscou, onde foram criadas quando pequenas.

Para mim, há um simbolismo forte nessa história, que é o de que nossos sonhos nem sempre se realizam. Tal qual o livro que resenhei ontem, este também usa o cotidiano das pessoas para aflorar uma história sobre a vida comum — e, ao fazer isso, torna tudo mais grandioso, por incrível que pareça. No entanto, Tchekhov tem uma pegada mais depressiva, e costuma enxergar o copo meio vazio. Ele retrata a realidade com floreios, mas também com exatidão de destinos. Personagens vêm e vão, e as irmãs continuam levando a vida provinciana que tanto detestam, pois — como todos nós em algum momento — foram engolidas pela rotina.

O Ato I se passa no salão da casa dos Prosorov (antes do almoço). Aqui temos as irmãs em seu cotidiano, conversando com alguns amigos e na iminência de um almoço comemorativo para o aniversário de Irina. O ápice deste ato é a chegada de Aleksandr Ignatievitch Verchinin, um tenente-coronel, comandante de um de um destacamento de soldados, que foi grande amigo do pai das irmãs e as conhece desde pequenas. A presença do homem traz à história a ciência da guerra, fazendo alusões, inclusive, ao incêndio que colocou Moscou em chamas anos antes. Até então, as situações/problemas das irmãs eram um tanto quanto contraditórias à realidade de famílias pobres. Os Prosorov tinham dinheiro suficiente para morar numa bela casa sem dificuldades, por isso o drama da pobreza não os assolava. Com a chegada de Verchinim, porém, várias perspectivas foram adicionadas à história.

O Ato II se passa no mesmo dia e no mesmo cenário, mas desta vez à noite. Aqui se apresenta com mais veemência o fato de que Natacha está entrando na família e tem tentado comandar a casa dos Prosorov. Ela chega a cancelar uma reuniãozinha dos amigos só porque seu filho não estava se sentindo bem. Natacha, de longe, foi a vaca… digo… personagem que eu menos gostei. Casando-se com Andrei, ela pensa que pode se achar a rainha dos Prosorov. Quenga!

O Ato III se passa no quarto que Olga e Irina compartilham — cada uma tinha seu próprio quarto, mas Natacha pediu que Irina saísse de seu quarto por um motivo X —, e agora já se passaram três anos. Nesse momento, já dá para perceber que o tempo está correndo, e, ao invés de realizarem o sonho de se mudar de volta a Moscou, Olga se torna diretora de um liceu, Maria engaja projetos de traição, e Irina resolve aceitar o cortejo de dois soldados do destacamento de Verchinin. Não obstante, esse é o Ato mais legal de todos, pois há um incêndio acontecendo na mesma rua da residência dos Prosorov, e as situações tornam-se mais divertidas de acompanhar.

O Ato IV, último da peça, se passa no jardim da propriedade. E, depois de mais algum tempo, Tchekhov coloca a cereja no bolo — dizendo, de uma vez por todas, que “querer não é poder”. O banho de água fria que o autor dá nos sonhos das três irmãs funciona para nós, leitores, como uma espécie de choque de realidade. Veja bem, a história foi escrita há 116 anos (1901), mas trata de desejos humanos incrustados em sonhos que sofrem com as adversidades da vida tais como as que sofremos nos dias de hoje. Nem tudo depende de nós. Há sempre a variável do outro. Lembra de Sartre? “O inferno são os outros”.

O pano de fundo da história é uma Rússia pré-União Soviética, portanto, inserida numa época de revoluções sociais, protestos perigosos e inconformismo com o regime dos Czares. Além de uma leitura incrível — e, provavelmente, uma atuação brilhante dos atores —, ‘As três irmãs’ podia muito bem ter ganhado um Nobel, mas, como sabemos, é impossível premiar todos os grandes escritores. Os personagens todos são muito críveis, e você, assim como eu, vai acabar gostando de um ou dois, e também odiando um ou dois. Algumas das resoluções do enredo são de dizer um “Aaargh!” bem sonoro, mas, no geral — vai por mim! — é um puta-livro-do-cacete!

classico

Agora, que tal começar a ler os clássicos você também? Você pode ser um leitor de um gênero preferido, claro, e se recusar terminantemente a engajar leituras das quais tem certeza de que não vai gostar. Mas, poxa!, não custa nada dar uma chance aos deuses da literatura universal. Eles ganham esses títulos por alguma razão, sabe, e, mesmo que a gente não concorde em cem por cento das vezes, na maior parte do tempo são reconhecimentos merecidos.

Isso para não mencionar as inúmeras vantagens que o hábito de ler clássicos pode trazer à sua vida de leitor constante. Para listar algumas delas, posso citar: enriquecimento do vocabulário; acúmulo de experiências sensoriais e não mais apenas as audiovisuais que o cinema e outros livros fraquinhos oferecem; você se torna mais culto não apenas no jeito de falar, mas nas referências que faz no dia-a-dia, na forma como escreve, e nas conversas com outras pessoas; e, a mais legal de todas as vantagens, é que você vai se permitir conhecer histórias estupendas, que são únicas em sua essência, e que, mesmo não tentando te ensinar alguma coisa, acabam te enchendo de uma grandeza de espírito tão forte que, no fim das leituras, você vai se sentir uma pessoa melhor/maior/mais digna de apreciação.

Pra te dar um empurrãozinho, vou listar abaixo minha lista pessoal de clássicos para esse ano, que serão lidos mensamente (no mínimo). Em sendo assim, vai ter resenha deles todo mês aqui no blog, então, se você quiser me acompanhar nas leituras, a gente pode acabar trocando uma ideia quando a resenha sair. Não seria formidável?! Vê só!:

Janeiro: As três irmãs, de Anton Tchekhov (lido);

Fevereiro: O ateneu, de Raul Pompéia;

Março: Tragédias, de William Shakespeare (releitura);

Abril: O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (claramente releitura <3);

Maio: Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski;

Junho: O castelo, de Franz Kafka;

Julho: Mansfield Park, de Jane Austen;

Agosto: O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë (releitura);

Setembro: Madame Bovary, de Gustave Flaubert;

Outubro: Frankenstein ou o Prometeu moderno, de Mary Shelley;

Novembro: Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez; e

Dezembro: Tom Sawyer, de Mark Twain (releitura <3).

E aí, o que achou da minha lista? Se quiser me acompanhar, dá pra se programar legal, né? Como eu falei, minha meta é ler um clássico por mês. MAS… isso não quer dizer que eu não possa ler mais de um (que não esteja nesta lista) para aproveitar o embalo. Por muito tempo ignorei os clássicos, e hoje, nos altos do meu quarto de século de idade, me arrependo amargamente por não ter lido mais Shakespeare, Dickens, Austen, etc. na adolescência. Tenho certeza de que eu seria um Vlaxio muito melhor do que minha versão atual.

Enfim, isso é tudo por hoje. Não esquece que a gente tem um novo encontro marcado amanhã, e eu, claro, espero pela sua companhia porque sou um completo forever alone, e você não quer me ver continuar assim, quer? Em todo caso, o espaço também é seu. Puxe uma cadeira e inicie uma conversa sempre que sentir vontade. Até…

Há braços.

Vlaxio.