Livros, Resenhas

Resenha: O guia definitivo do mochileiro das galáxias, de Douglas Adams

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Olá, sexto dia do ano.

Olá, contagiante!

Hoje é o dia perfeito para falar sobre o fim do mundo, que, de acordo com o livro, aconteceu numa quinta-feira, portanto, estamos no pós-fim do mundo. Quando li pela primeira vez que a terra ia ser explodida numa quinta-feira, fiquei #chateado porque quinta-feira é meu dia favorito da semana, subsequente ao dia de que menos gosto, vulgo quarta-feira. Mas… bah!… o apocalipse tinha de acontecer em um dos sete dias da semana, não é mesmo? Embora todo mundo espere mais ou menos que aconteça numa segunda-feira para ninguém ter de ir trabalhar/estudar…

A história começa com Arthur Dent, um típico inglês de meia idade, tendo de lidar com uma equipe de demolição que pretende colocar a baixo sua casa para construir um desvio da estrada. O projeto ficou em exposição na Secretaria de Obras por nove meses, a fim de que a população tivesse tempo suficiente para contestar qualquer uma das etapas. Contudo, não é como se a Secretaria de Obras divulgasse os projetos em exposição, por isso, se sua casa figurasse numa lista de demolição para construir um desvio, você, tal qual Arthur Dent, provavelmente só ficaria sabendo disso quando os tratores amarelos acampassem no seu jardim.

Em paralelo, Ford Prefect, melhor amigo de Arthur Dent, sempre foi um homem esquisito — até lunático, às vezes —, mas especialmente naquela quinta-feira ele se mostrava mais estranho que o usual. Ford vai até a casa de Arthur e diz que precisa lhe contar uma coisa importante, e que ambos precisam de uma bebida. Ford Prefect é, na verdade, um extraterrestre do planeta de Betelgeuse que está preso na Terra há 15 anos, e, desde então, espera a hora certa de voltar para casa. O fim do mundo é a oportunidade perfeita para isso.

Quando o Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galáctico chega à Terra, diz que o planeta deverá ser destruído para a construção de uma via expressa hiperespacial que passa pelo nosso sistema estelar. Ironia pura! O mais cômico de tudo é que, assim como na situação da casa de Arthur, os planos do projeto e a ordem de demolição também ficaram à disposição do público para reclamações formais no Departamento de Planejamento… por cinquenta anos… só que em Alfa do Centauro, há meros quatro anos-luz de distância. Em sendo assim, a “surpresa” do povo da terra era injustificável.

Então, Prostetnic Vogon Jeltz, comandante da nave alienígena, dá a ordem para energizar os raios demolidores e, em menos de dois minutos, BOOM!, a Terra explode num quinzetrilhão de pedacinhos. A partir disso, a história começa de verdade. Arthur Dent conseguiu se salvar porque Ford Prefect os colocou de modo clandestino na nave dos vogons pouco antes da demolição planetária. Não obstante, sem uma terra-natal para voltar, só resta a Arthur perambular pelo universo, tornando-se, doravante, um mochileiro das galáxias.

Essa versão da Arqueiro em capa dura que eu tenho traz a trilogia de cinco livros do Adams em um único volume. O ‘Guia do mochileiro das galáxias’ é o primeiro livro, seguido de ‘Um restaurante no fim do universo’, ‘A vida, o universo e tudo mais’, ‘Até mais, e obrigado pelos peixes!’, e  ‘Praticamente inofensiva’. Há algum tempo já tenho contato com os livros do Adams, e até resenhei dois deles, que também são leituras obrigatórias para leitores constantes. Você pode conferir a ‘Agência de investigações holísticas Dirk Gently’ e a ‘A longa e sombria hora do chá da alma’ sempre que quiser.

O posto de uma das melhores trilogias da ficção científica é mais do que merecido. Jamais me cansarei de endeusar a capacidade narrativa do Adams, e a visão que ele tinha sempre à frente de seu tempo. Aposto que se ele estivesse vivo, seria um dos roteirista de Black Mirror — tal como foi roteirista de Doctor Who em alguns episódios. O poder da escrita do Adams reside justamente na sua pegada holística, ou seja, em suas histórias, TUDO está ligado. Não pense você que vai se deparar com a obsessão com a cor amarela, por exemplo, e ela não vai representar um trator prestes a demolir sua casa.

Muito do que Adams escreve tem um tom de comédia — e eu já falei isso várias vezes: o melhor do humor negro inglês —, mas, especialmente na trilogia do mochileiro, é mais do que possível perceber que ele também faz críticas sociais. As alegorias construídas ao longo da história podem até ficar aos encargos de raças alienígenas nas quais somos arrogantes demais para acreditar, porém, é por meio delas que Adams alfineta os formatos de governo, as ações políticas desenfreadas em detrimento de lobistas, e, acima de tudo, o louvor à máxima de que o poder é apenas outro nome para dinheiro.

Uma vez, certa pessoa me perguntou como eu enxergava esse tipo de coisa nas histórias que lia. Respondi que eu não leio, apenas, mas leio fazendo associações. Veja bem, a menos que Douglas Adams realmente tenha viajado pelas galáxias e mantido um registro minucioso de tudo o que via, sua narrativa baseia-se exatamente naquilo que encontramos no planeta terra. Isso é o que chamamos de simbolismo da história. Os temas vão desde corrupção e assoberbamento da tecnologia, até estruturas sociais e formas de cultura.

Mas sabe o que é mais legal nos livros do Adams? Que você pode lê-los sem qualquer ciência desses simbolismos, porque, antes de mais nada, a escrita dele serve para entreter no mais sofisticado nível da literatura. Fico me perguntando, quando penso no assunto, como Adams se sairia enveredando por histórias do tipo ‘Senhor dos anéis’, ‘As crônicas de Nárnia’… e até mesmo ‘Harry Potter’. Não tenho o costume de ler muita ficção científica — apesar de ter uma queda por Steampunk —, mas ouso dizer que Douglas Adams é o Sir Arthur Conan Doyle de nossa época — ele morreu em 2001 —, e a série Dirk Gently está aí exatamente para provar meu argumento.

No caso da trilogia do mochileiro — ao contrário do Dirk Gently —, os heróis da história não são propensos a ter um leve poder psíquico para dedução. A bem da verdade, Arthur Dent é apresentado como um homem extrema e enfadonhamente comum, mas que, com sua trivialidade, acaba emprestando um tom peculiar à narrativa que o coloca nas mais malucas situações. Isso sem falar que a trilogia é um manjar dos deuses para quem adora consumir conteúdo voltado aos temas espaciais — e, assim como eu, se interessam cada vez mais pelos mistérios do universo.

Isso é tudo por hoje. Espero que tenha gostado e que dê uma chance ao livro, pois você não vai se arrepender. Amanhã eu volto para o último dia da maratona de resenhas, e pretendo terminar essa empreitada em grande estilo. Me aguardem. Paz!

Há braços.

Vlaxio.

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