Livros, Resenhas

Resenha: Sobre a escrita – a arte em memórias, de Stephen King + Está na hora de escrever seu próprio livro!

Olá, sétimo dia do ano.

Olá, contagiante!

Se a eternidade fosse boa, se chamaria tempo de vida. Mas não é! Assim como nossa validade, as coisas do mundo têm um fim, ou seja, o que é bom dura pouco. Por isso, é claro que a melhor semana de resenhas que você respeita tinha de acabar uma hora. Eu sei, você vai argumentar que terá saudades e tudo mais, mas precisamos nos separar, dar um tempo, experimentar novos horizontes, conhecer novas pessoas… Como diriam os franceses, c’est la vie!

Rá! Só estou fazendo média, me ignorem…

Hoje o dia está bem animado para mim, porque eu esperei a semana inteira para conversar sobre esse livro. Talvez eu seja suspeito para falar — já que adoro escrever e blábláblá —, mas estou animado à beça para exibir essa obra. Primeiro porque tenho uma relação de amor e ódio com o Stephen King (já explico a razão), e segundo porque em muito tempo eu não me sentia tão inspirado por um livro a criar vergonha na cara e ser produtivo — aliás, recomendo que você leia esse livro em conjunto ao ‘Como se tornar mais organizado e produtivo’ que eu resenhei na segunda-feira, pois os dois vão contribuir para inspirá-lo ainda mais.

Enquanto escrevo esta resenha, ouço uma das minhas playlists favoritas no Spotify — English Breakfest —, porque estou no clima para começar o dia com o pé direito. Minha mesa está cercada de luzes coloridas, que lançam reflexos contentes no teclado do meu notebook. Uma brisa leve entra pela porta do quarto, enquanto contemplo o horizonte de árvores através da janela aberta. Meu cachorro — um chow-chow de nome Todd — tira um cochilo em sua cama, depois de um café da manhã farto, produzindo um ruído relaxante quando respira. Essa é a ambientação perfeita para escrever, na minha opinião.

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A resenha de hoje é do livro ‘Sobre a escrita: a arte em memórias’, de Stephen King, considerado Rei do Terror por uma comunidade inteira de leitores. Se o título é merecido ou não, apenas você pode julgar ao ler os trabalhos do cara — e, olha!, ele tem um montão de coisa escrita. Inúmeros de seus livros e contos foram adaptados para as telonas e se tornaram clássicos do cinema, como O Iluminado (The Shining, 1980), por exemplo, Louca Obsessão (Misery, 1990) e também Conta Comigo (Stand by Me, 1986) — esse último marcou minha infância e eu o adoro até hoje —, isso para citar apenas alguns.

O que posso dizer? Stephen King é com certeza um escritor versátil, além de indubitavelmente prolífico — vocês já viram o tamanho dos livros dele? Entrementes, como eu disse acima, tenho uma relação de amor e ódio com o autor. De amor porque adoro sua escrita, o jeito de narrar, as ferramentas de descrição que usa e, principalmente, a capacidade de construir personagens críveis. Por outro lado — a parte do ódio —, não gosto das histórias dele. Infelizmente, é a mais pura verdade. Deus sabe quantos livros dele já tentei ler, porém, mesmo reverenciando-o como escritor, alguma coisa se quebra na nossa conexão quando leio as histórias que escreve.

A bem da verdade — devo admitir em nome da sinceridade que você e eu compartilhamos —, ‘Sobre a escrita’ foi o primeiro livro dele que terminei. Tudo bem, você pode me julgar o quanto quiser, mas, como eu devo ter dito em alguma de minhas resenhas anteriores, leio por prazer. Doravante, se uma leitura não me dá prazer, não tenho qualquer pudor em deixá-la pelo meio do caminho. Algumas delas, eu retomo a ela ao longo da vida. Outras, no entanto, jamais passam por meus olhos outra vez. Reitero, contudo, que Stephen King é um dos autores que pretendo revisitar em suas obras, não apenas por considerá-lo um dos escritores mais incríveis ainda vivos, mas porque tenho certeza de que vou gostar de suas histórias eventualmente, apenas não achei o livro certo ainda.

Cortando a conversa fiada, vamos ao que interessa.

‘Sobre a escrita’ é na verdade um tipo de autobiografia, mas não apenas isso. King se dispõe a escrever sobre escrever, entende, e compartilhar memórias de diversas experiências pelas quais ele mesmo passou desde o início de sua carreira até os dias atuais — pelo menos atuais até meados de 2000, quando o livro foi publicado pela primeira vez nos Estados Unidos [há uma edição comemorativa de 2010 (que é a que eu tenho em mãos) publicada pela Suma de Letras em 2013].

A estrutura do livro é dividida em Currículo, Caixa de Ferramentas, Sobre a Escrita, e Sobre a Vida. Além desses tópicos principais (e mais TRÊS prefácios), King passeia pela vontade de ensinar a escrever — como o fez durante algum tempo quando foi professor de Escrita Criativa —, mas acaba cobrindo apenas o essencial. Como ele mesmo diz, seu livro não é uma apostila de como escrever bem, mas uma conversa com um escritor que teve a oportunidade de se tornar profissional.

No Currículo, temos a parte mais biográfica do livro — que, deixe-se claro, é uma não-ficção. Aqui é o tópico em que mais podemos nos identificar com a pessoa Stephen King, desmistificando um pouco todo o endeusamento que paira em sua órbita como icônico Rei do Terror. É muito legal quando você é convidado a entrar nas memórias de um autor famoso, pois isso nos dá a oportunidade de perceber que, para além do óbvio, há vários Stephens Kings espalhados pelo mundo.

Ele e sua família passaram por muitos perrengues, pois nunca foram abastados. Faziam parte da classe média-baixa, e isso significa que, muito embora não passassem fome, não tinham luxo algum na vida. A história da sua infância é uma lindeza só, e você vai se divertir a valer com os relatos das traquinagens que ele fazia ao lado de seu irmão. A mãe de King também é uma personagem importante na sua história, e, como a maioria das mães, era vista como uma deusa para seus filhos.

Ainda na parte do Currículo, King tenta, à sua maneira, conceituar de verdade o que é a escrita. E a definição que ele dá é realmente plausível. Veja bem, ele não chegou e disse: “escrever é felicidade” ou “escrever move o mundo” ou “escrever é vital”. Nada desses clichês. Ele define a escrita de modo a nos fazer enxergar as consequências da escrita, do processo de interação entre a largada e a chegada dessa corrida que só os loucos se propõem a correr. Claro, não vou dizer o que é a escrita porque você deve ler o livro para saber.

Em seguida, temos a Caixa de Ferramentas. Ele dá uma explicação prévia sobre o que é essa caixa de ferramentas com uma história envolvendo seu tio. No entanto, em linhas gerais, as ferramentas dessa caixa são as habilidades que você acumula a fim de usá-las ao escrever. Conhecimento de ortografia, por exemplo, sempre deve estar presente na sua caixa de ferramenta, além de inúmeras outras expertises. Para acumular essas ferramentas, não existe fórmula mágica, diz ele, você deve ler muito e escrever muito. Há um motivo pelo qual pilotos de avião experientes são aqueles com mais horas de voo; porque eles leram muito sobre pilotar e gastaram muito tempo pilotando. O mesmo acontece com as habilidades que você armazena na sua caixa de ferramentas. É preferível que você tenha ferramentas sobrando — mesmo com sua caixa pesada — a ter ferramentas faltando e prejudicar sua escrita.

Depois desse adendo, ele passa a falar Sobre a Escrita em si, propriamente dita, com todas as letras. Essa é a maior parte do livro, e cobre desde tipos de narrativa e exemplos de sucesso até coisas que você deve evitar ao escrever e elementos de estilo — este último sendo um dos mais importantes para o escritor ter sua própria voz. Aqui, King tece algumas críticas ao comportamento de alguns escritores, mas faz questão de reiterar que nem tudo funciona para todo mundo; o que ele escreve nesse livro é o que funciona para ele. Esse parêntese veio muito a calhar, porque outros escritores, tão bons ou melhores que o King, discordam de alguns dos métodos deles, por isso, me senti um pouco menos acuado em discordar de algumas coisas que ele dizia também. Todavia, no geral, essa parte do livro é um verdadeiro tesouro para qualquer aspirante a escritor, não porque pretende ensinar como escrever bem, mas porque dá perspectivas de como não escrever mal. King diz, inclusive — e eu concordo plenamente —, que nada ensina a escrever tão bem quanto livros ruins. Livros bons têm pouco a acrescentar, mas livros ruins são basicamente um manual de coisas para não fazer quando estiver escrevendo.

Dando seguimento, temos Sobre a Vida: Um Postscriptum. Nesse tópico — um dos meus favoritos —, Stephen King conta sobre o ano de 1999, quando, ao fazer uma caminhada numa bela tarde, foi atropelado por um furgão de um caipira que não prestava atenção à estrada. Não vou me estender muito sobre o acidente, mas essa foi uma das partes mais dinâmicas do livro, porque, mesmo sabendo que o Steve sobreviveu e voltou a andar, era como se eu tivesse de torcer por um personagem esperando que ele não morresse. Ele conta também como foi voltar a escrever depois do hiato que dedicou à sua recuperação. Não foi fácil, mas… bah!… é por isso que temos Misery e o filme Louca Obsessão, não é mesmo?

O próximo tópico, ‘E, por fim, Parte I: Porta fechada, porta aberta’, traz algo interessante para alguns leitores. King disponibiliza alguns trechos do livro 1408 sem qualquer correção, com o texto cru, tal como ele escreveu na primeira vez. A partir disso, ele disponibiliza também a versão desses trechos com as correções que ele fez. A revisão é incrível e mostra como realmente uma história crua pode melhorar na segunda versão. King namorou a ideia de disponibilizar o manuscrito inteiro sem revisão, mas aí o livro se tornaria um calhamaço enorme e pouco publicável — eu, por outro lado, adoraria que ele tivesse feito isso, mas já me contentei com os trechos contidos nessa versão.

Adiante, temos ‘E, por fim, Parte II: Uma Lista de Livros’ e ‘Mais do por fim, Parte III’ (que é um acréscimo à segunda parte feito na edição comemorativa de 2010). Em ambos os tópicos, ele lista os livros que leu entre 1998 e 2000, bem como os cem melhores livros que ele leu entre os anos de 2001 e 2009. É uma ótima lista, devo admitir, mas, para minha vergonha, li apenas 4 títulos dentre os quase 200 que ele enumerou. Talvez eu faça uma meta para ano que vem, quem sabe, do tipo “Desafio Stephen King”, e comece a ler os livros que ele indicou nos próximos dez anos. É algo a se pensar.

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Agora, minha sugestão do dia, para fechar com chave de ouro essa linda semana de resenhas, é que você escreva seu próprio livro. Muita gente vai rolar os olhos, torcer o nariz, suspirar e até rir da minha cara. Você pode argumentar que escrever livros não é para qualquer pessoa, e, de fato, não é mesmo, mas isso não significa que você não consiga executar essa empreitada. Como diz a sabedoria popular — é sério —, para ter vivido uma vida plena, você deve plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Eu acho isso o máximo, especialmente porque já fiz duas dessas coisas — a não ser que você conte meu chow-chow Todd como filho, então já terei feito todas as três.

Brincadeiras à parte, é bem capaz que você tenha aquele rascunho empoeirado, esquecido no mais profundo oceano das suas gavetas, marinando como se fosse um ceviche esperando para ser degustado. Que tal enfrentar as traças e resgatar seu texto? Ou talvez você nunca tenha escrito nada na vida além de pesquisas escolares, trabalhos acadêmicos e post-its para lembrar sua mãe do aniversário da sua prima, mas, lá dentro de você, deseja gestar uma ficção sobre coelhos assassinos num romance de época sobre a Dinastia Romanov. Vai que!

O que estou tentando dizer a você é que escrever não é uma hidra de sete cabeças. Não obstante, é indispensável declarar que quem escreve bem acaba se destacando no círculo social em que vive, porque, sejamos francos, tem um monte de gente por aí que sequer sabe diferenciar “mas” de “mais”, estou errado? Por conseguinte, se você está lendo o texto desta resenha, significa que é um leitor, e, como tal, já deve escrever melhor do que as pessoas que não leem, correto? Porque não aproveitar essa vantagem para criar uma história toda sua, com universos particulares, ou rotinas mirabolantes, estruturas sociais profanas, príncipes, princesas, canalhas, meretrizes, cafetinas, bordeis, vida submarina, elfos malignos, fadas prostitutas, criação de abelhas, decoração de interiores, artesanato indígena…?

Uma coisa eu digo a você sem medo de errar: escritores são deuses. Criamos, destruímos, consertamos, regemos, destruímos outra vez, criamos coisas melhores e reinamos soberanos sobre nossa criação. Não estou querendo blasfemar a crença de ninguém ao comparar escritores com deuses, apenas tento dar uma perspectiva de que, quando escrevemos, estamos no controle do que acontece — mesmo quando a história parece ter vida própria —, e isso, meu caro(a) leitor(a), não é possível em muita profissões/hobbies. Será mesmo que não está nem um pouco curioso sobre como é ser uma deidade da literatura?

Você tem todo o direito de recusar minha proposta. Afinal, se você acha que escrever não é a sua praia, não há muito o que eu possa fazer para demovê-lo da ideia de que apenas escritores escrevem histórias. Mas me responda uma coisa: O que você tem a perder? Tempo? Bah! Todo mundo gasta tempo com coisas muito menos legais, tipo pensar quantas gotas de chocolate são colocadas num chocotone. Você pode escrever no notebook, no PC, numa folha de ofício, num caderno velho, em papel higiênico, no braço do seu irmão caçula — escrever não exige muitos aparatos. Basta ter vontade de colocar para fora uma história que habita em sua mente. Eu sei que você tem pensamentos loucos, que as pessoas ficariam malucas se soubessem da metade deles. Pois bem! Transforme sua loucura em uma história e loucos serão aqueles que não enxergarem sua criatividade a quilômetros de distância. No fim das contas, é você quem decide se compartilha ou não.

Bem, isso é tudo, pessoal. Com a resenha de hoje, encerro a maratona da primeira semana do ano de 2017 — espero que em grande estilo. Pretendo não sumir mais do blog por tanto tempo, e você deve esperar muitas novidades da nossa equipe esse ano. Tomara que você tenha gostado desse pequeno projeto que fiz e não tenha sofrido muito com meus longos textos no decorrer da semana que passou. Fazer o quê? Sou desses…

Há braços e até a próxima.

Vlaxio.

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2 thoughts on “Resenha: Sobre a escrita – a arte em memórias, de Stephen King + Está na hora de escrever seu próprio livro!”

    1. Não é?! Qualquer um que tiver o pé atrás com o King, deveria ler o Sobre a Escrita primeiro. É o tipo de autobiografia que faz a gente simpatizar com o autor e buscar nas obras dele aquilo que não conseguíamos ver antes da leitura desse livro. Que bom que gostou, Julio…

      Curtido por 1 pessoa

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