Livros, Resenhas

|RESENHA| Cilada para um marquês, de Sarah MacLean

cilada-para-um-marques

Queridos leitores,

Se ainda no século XXI a fofoca reina, imagina no século XIX, quando as aparências eram tudo e um pouco mais, a reputação era considerada a joia mais preciosa de uma dama e a aristocracia não tinha mais nada a fazer, além de tomar conta da vida dos outros. De certa forma, a fofoca só migrou de plataforma, apesar de os jornais e revistas especializados ainda existirem sob o pretexto de “informar” os interessados em saber quem é a nova conquista de Neymar Jr.

cilada-para-um-marques-jornal

Você tem ideia do quão infame alguém pode se tornar na Inglaterra e mais adiante no século XIX? Porque os protagonistas de hoje figuram num dos maiores escândalos já registrados, e isso aconteceu em junho de 1833. Mesmo sendo extremamente comum fugas de casais apaixonados para Escócia, não é comum que uma dama empurre seu cunhado em uma fonte, degrade a forma de vida ociosa da aristocracia em frente da própria, peça uma carona para um dos canalhas mais famigerados, roube sua bota, pegue uma carona clandestina vestida de criado, acabe numa viagem na estrada para o Norte com o tal celebre canalha.

Poderia até ter conquistado fãs, uma linda história de amantes que fugiram para Escócia. Contudo — mesmo que tirássemos da equação as injurias à nobreza —, lady Sophie Talbot é uma d’As Cinderelas Borralheiras, uma das Irmãs Perigosas, embora seja considerada a mais desinteressante e calma entre as cinco. Sophie, a desdivertida. Você pode estar se perguntando o que são as Irmãs Perigosas, eu diria que aonde elas forem um show é armado, a diversão é certa e os escândalos são abundantes.  Elas são desprezadas, elas são aclamadas, e elas podem ser ladies, mas não têm um pingo de sangue azul. São filhas de um mineiro, que teve muita sorte na vida, e conseguiu de forma misteriosa — ainda que haja muita especulação sobre jogos e apostas — um título há 10 anos.

Já pensou? Um dia você é a filha de um mineiro, no outro, rodopia nos salões de baile. Parece um sonho — para as irmãs e a mãe de Sophie, mas não para ela. Ela estava satisfeita com a vida antes do título, viviam muito bem em Mossband, nunca imaginou ter nada mais que uma livraria e se casar com seu amigo de infância, Robbie — o filho do padeiro. Mas a vida aristocrata é triste e frustante, uma vida de aparências, de tentar se encaixar onde não é aceita, ser algo que ela não é e não quer. Sophie quer liberdade, ela quer ser amada, ela quer livros e mais livros, filhos, uma vida singela, porém, uma vida feliz. No meio da clandestinidade, ela decide correr atrás do passado, correr para Mossband e encontrar um futuro em um lugar que ela já chamou de lar.

“Felicidade! É esse o cheiro dos livros. Felicidade. Por isso eu sempre quis ter uma livraria. Existe vida melhor do que vender felicidade?”

— Sophie, p.219

Entretanto, Sophie não contava com uma variante em seus planos: o Marquês de Eversley e futuro Duque de Lyne, Rei. Um canalha com tanta fama quanto suas irmãs, um homem conhecido por arruinar damas prestes a se casarem. Não espere um cavalheiro, Rei é do tipo grosseiro e tem certeza de que a mais nova Irmã Perigosa armou uma cilada para que ele se casasse com ela, tomando posse de um dos títulos mais desejáveis da Inglaterra. Pobre coitado, mal sabe ele o ódio que Sophie tem da aristocracia. Ela não casaria com ele nem que ele fosse o último homem da cristandade; principalmente depois de ele ser tão cruel com ela. Vale ressaltar que Sophie sabe guardar rancor como ninguém. Para Rei, a questão do casamento é mais complexa que não se casar com uma mulher interesseira ou viver na vagabundagem, ele nunca irá se casar com Sophie ou com mulher nenhuma. Já basta ele ter de fazer uma longa viagem para o norte para ver o pai que ele despreza — Sophie que se vire, ela não é problema dele.

“— Nós não deveríamos gostar um do outro — as palavras dela saíram num suspiro.

— Não se preocupe. Nós não gostamos.

Que grande mentira.”

— Sophie e Rei, p.163

É no percurso que a trama se desenrola, o casal se desenvolve e conhecemos o passado e os desejos de cada um. Eu adoro os livros da Sarah MacLean, isso não é novidade. Acho que ela consegue sempre apresentar o feminismo nos seus livros de formas diferentes e mostrar que ele está relacionado a escolhas. Vejamos, na série O clube dos canalhas, ela cria uma heroína numa posição de poder. Uma mulher que se esconde atrás de ilusões, que criou seu próprio reino, e não se deixou ser vítima. Ela se revela como carrasca daqueles que a menosprezaram, e é a guardiã do dinheiro e dos segredos da nobreza. Já em Nove regras a ignorar antes de se apaixonar, ela apresenta uma personagem acomodada com sua posição na sociedade, mas que quer experimentar o que a vida tem a oferecer. Ela procura por uma liberdade que os homens usufruem sem pensar duas vezes, mas depois — assim que realizar sua lista de regras a quebrar —, ela pretende se acomodar novamente. A trajetória da personagem é recheada de pensamentos que vão contra a posição que as mulheres têm de ter na sociedade; ela não é feminista, mas as ideias são. Sophie é mais uma dessas manifestações que a autora conseguiu fazer acerca do assunto, e de forma brilhante. Sophie quer uma vida pacata, quer casar e ter filhos, mas com quem ela escolher e onde escolher. Ela quer ter uma livraria, acordar cedo para trabalhar e ser útil, isso é uma escolha dela. São os sonhos dela, independente do que a sociedade acha que uma mulher pode fazer e deve fazer.

“Opções, não. Opção. No singular. Porque a verdade era que as mulheres, na Inglaterra de 1833, não tinham opções. Elas tinham um caminho que deveriam trilhar. Que eram obrigadas a trilhar. E que deveriam se sentir gratas por serem obrigadas a trilhar esse caminho.”

— Sophie, p. 65-66

cilada-para-um-marques-diagramacao
Uma coisa interessante, gostaria de ressaltar o trabalho lindo de diagramação do livro. Cada capítulo se inicia com uma manchete bem chamativa; algumas são divertidíssimas e outras, um tanto peculiares… Por fim, eu indico com fervor esse livro. A autora sempre consegue me prender e segurar a carga certa de drama pra não ser exagerada ou leviana. Eu adoro a forma como sinto aquela pontada no coração a cada página, e como o clímax da estória sempre me leva às lágrimas. Apesar de eu não ter falado tanto do Rei, ele é um personagem incrível, mas vocês, ao ler, precisarão descobrir sozinhos a longa trajetória — muito maior que a Grande Estrada do Norte — que ele precisará percorrer para ter um final feliz.

LEIA TAMBÉM:


1390-20160812175154FICHA TÉCNICA

Título: Cilada para um marquês (Escândalos e canalhas; 1)

Autor (a): Sarah MacLean

Editora: Gutenberg

Edição: 1 ed.

Ano: 2016

Páginas: 320

Skoob: Adicione!

Compre: Amazon


Espero por vocês na entrada do castelo do Duque de Warnick,

May

Anúncios

Gostou? Não gostou? Deixe seu comentário, vamos ficar muito felizes em respondê-lo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s