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Tradução livre: Top 10 livros sobre mulheres selvagens

Desde utopia de ficção científica do século XVII até romances autobiográficos de vampiros, todos esses ótimos livros foram escritos por mulheres que irromperam fronteiras sociais, pessoais e literárias.

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Fonte: The Guardian

A primeira vez em que me deparei com a escritora do século XVII Magaret Cavendish foi em ‘Um teto todo seu’, de Virginia Woolf: “Que visão de solidão e rebeldia, o pensamento de Margaret Cavendish incita! Como se um pepino gigante tivesse se espalhado por sobre as rosas e cravos no jardim e os tivesse sufocado até a morte”. É uma descrição maravilhosamente peculiar e eu jamais poderia distorcer esta imagem de uma mulher aparentemente tão obstinada que Woolf achou necessário descrevê-la como, essencialmente, um pau no meio das flores.

O que Woolf quis dizer, suponho, é que Cavendish era demais: excêntrica demais, ambiciosa demais, indisciplinada demais. É certo que ela era notória por suas roupas, sua ortografia pobre e seu comportamento esquisito, e, mais odiosamente, por exigir ser levada a sério como escritora e filósofa natural. Ela foi a primeira mulher a ser convidada para a Sociedade Real de Londres — e a última, por 200 anos.

Comecei meu romance sobre Cavendish há uma década, mas sua recusa em negar as próprias ambições ou silenciar os mundos dentro dela — sua recusa, na verdade, em ser uma boa garota e ficar de bico calado — nunca teve tanta urgência quanto agora, quando um homem que buscou repetidamente silenciar e contar mulheres poderosas por meio de epítetos degradantes e escárnio se prepara para assumir o cargo de presidente dos EUA.

Em sua época, Margaret Cavendish era chamada de vadia, mentirosa, insana. Sou muito grata a ela e a dissidentes como ela, mulheres que se recusaram a diminuir a si próprias para fazer os outros se sentirem mais confortáveis, que se permitiram espalhar como rosas malditas por toda parte mesmo que isso significasse transgredir fronteiras sociais, pessoais e literárias. Aqui estão 10 dos meus livros favoritos de e sobre tais mulheres selvagens.

  1. The Hearing Trumpet, de Leonora Carrington

Mais conhecida como uma pintora surrealista, Carrington era igualmente estranha e feroz como escritora de ficção. Este romance de 1976 centra num bando de velhinhas corajosas que se revoltam contra os déspotas mesquinhos e psiquiatras charlatões que administram um asilo bizarro como se fosse algo saído de Alice no País das Maravilhas. Não é esquisito como um filme de David Lynch, é doce como um romance de companheirismo entre senhorinhas; também é uma sátira mordaz às estruturas de poder; e também e uma fábula mística do oculto.

  1. The Letters of Mina Harker, de Dodie Bellamy

Em Drácula, de Bram Stoker, Mina é a esposa vitoriana perfeita e passiva. Nesta obra, ela está excitada e morta em São Francisco na década de 1980, tendo possuído o corpo de Bellamy. Epistolar como a obra original de Stoker, o romance seque as aventuras de Mina/Dodie por uma cidade devastada pela AIDS. Tudo é selvagemente vívido, cheio de fofocas e sexo. Nas palavras de Eileen Myles: “Se há algo melhor que literatura, é isto”.

  1. Oreo, de Fran Ross

Publicado em 1974 e reeditado ano passado a uma atenção consideravelmente maior, a paródia de Ross sobre os mitos de Teseu traz uma jovem chamada Oreo, que sobrevive por causa de sua astúcia formidável. Partindo de seu lar negro na Filadélfia para encontrar seu pai judeu e vagabundo em Nova Iorque, ela segue uma das jornadas mais engraçadas, no meio de um redemoinho de piadas numa mistura de iídiche, linguagem de negro, e todo o tipo de inglês. Em um posfácio, Harryette Mullen atribuiu a recepção inicial pobre do livro ao fato de ser “mais excêntrico do que afrocêtrico” — um encaixe peculiar à altura do movimento das Artes Negras.

  1. The Description of a New World, Called the Blazing World, de Margaret Cavendish

A utopia de Cavendish se centra numa imperatriz e pode ser lida como uma resposta feminista a New Atlatins, de Francis Bacon, que, por sua vez, se centra num homem com formação acadêmica. O texto reluz com detalhes de ficção-científica, desde veículos feitos de ar até estrelas flamejantes que tornam a noite clara como o dia. E a própria Cavendish faz uma aparição metaficcional, levada para este novo mundo como uma amiga e entusiasta de sua imperatriz.

  1. Heroines, de Kate Zambreno

Este livro nasceu depois que Zambreno se mudou de Chicago para Akron por causa do emprego do marido: “Estou percebendo que você se torna uma esposa quando concorda em se mudar por ele. Você é colocada em um papel feminino”. Sendo uma obra crítica vorazmente pesquisada sobre “As mulheres loucas do modernismo” — Vivienne, Zelda, Jane, et al — Heroines também examina honestamente o casamento, a carreira e a identidade de Zambreno como escritora, arando diretamente quaisquer divisões acertadas entre literatura e vida.

  1. Suite for Barbara Loden, de Nathalie Léger (traduzido por Cécile Menon e Natasha Lehrer)

Outro texto espetacularmente híbrido — combinando criticismo de filmes, biografia, ficção e memórias — no qual Léger conta a própria história numa investigação do Wanda, 1970, de Londen, um filme no qual Londen meio que investiga a história dela através da história da protagonista. É como um espelho infinito de mulheres em dor e sempre à procura. Para informação, a revista que eu administro, Dorothy, publicou o livro nos EUA. Foi publicado no Reino Unido pela Les Fugitives.

  1. The Descent of Alette, de Alice Notley

Alette está numa jornada nas profundezas da cidade, onde espíritos pegam o metrô para sempre. Aqui ela encontra figuras subterrâneas e encara transformações espirituais, tudo numa busca para destruir um homem mal e charmoso conhecido como Tirano. Essa remodelagem feminista da forma épica e escrita num estilo de verso hipnotizante que implora para ser lido em voz alta: “Adentrei” “uma caverna” “onde sentava uma mulher” “que olhava feito pedra”.

  1. Lolly Willowes, de Sylvia Townsend Warner

Este romance de 1926 registra a vida de Laura Willowes, vulgo Tia Lolly. Começamos bem polidamente: Laura é uma boa garota que, por causa da morte do pai, se muda para a casa do seu irmão para ajudar a cuidar das crianças. Décadas se passam — escrevendo cartas, limpando a gaiola do canário — até que um dia Tia Lolly tem uma epifania. Ela abandona a vida de solteirona em Londres e se esconde numa aldeia, onde transforma a si mesma numa bruxa que caminha na floresta e adora ao diabo.

  1. Zami: A New Spelling of My Name, de Audre Lorde

Estou lendo este agora e acho completamente atrativo. A “biomitografia” de Lorde é uma história sobre crescer negra e pobre em Nova Iorque. É sobre ser poeta, filha, irmã, lésbica e amiga. “Toda mulher que já amei”, escreve ela, “deixou sua marca em mim”. Vemos essas mulheres tomarem uma forma vívida nas páginas, desde a mãe imigrante e imponente de Lorde até vizinhas e amantes.

  1. Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf

Apesar da resenha confusa de Cavendish, UTTS sempre será um texto seminal para mim. Minha cópia está malmente legível por causa do vandalismo que eu fiz nela, inclusive um grande SIM riscado depois disso: “Este é um livro importante porque lida com os sentimentos de mulheres numa sala de visitas”. Isso ecoa uma linha no seu ensaio Ficção Moderna: “Não desconsideremos que a vida existe mais naquilo que é pensado grande do que naquilo que é pensado pequeno”. Me impacta que essa lista de mulheres selvagens, não raro aumentadas nos livros, inclui um número de livros sobre as coisas pequenas da vida — onde, como explica Woolf, a vida existe tanto quanto existe em qualquer lugar, para qualquer um.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês, por Danielle Dutton, no The Guardian. Confira na íntegra aqui.

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2 comentários em “Tradução livre: Top 10 livros sobre mulheres selvagens”

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