Livros, Resenhas

Resenha: Dias perfeitos, de Raphael Montes, por Carolina Silva.

911djoljkblTítulo: Dias perfeitos

Autor: Raphael Montes

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 278

Ano: 2014

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Sombrio e claustrofóbico, Dias perfeitos é uma história de um amor obsessivo e paranoico que consolida Raphael Montes como uma das mais gratas surpresas da literatura nacional. Após ler seu primeiro livro, Scott Turow, um dos autores policiais de maior prestígio no mundo, disse que Raphael está “entre os mais brilhantes ficcionistas jovens” da atualidade. Em Dias Perfeitos, Téo é um jovem e solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e dissecar cadáveres nas aulas de anatomia. Num churrasco a que vai com a mãe, contrariado, Téo conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Téo fica viciado em Clarice – quer desvendar aquela menina diferente de todas que conheceu. Começa, então, a se aproximar de forma insistente. Diante das seguidas negativas, opta por uma atitude extrema – desfere um golpe na cabeça dela e, ato contínuo, sequestra a garota. Elabora então um plano para conquistá-la – coloca-a sedada no banco carona de seu carro e inicia uma viagem pelas estradas do Rio de Janeiro – a mesma viagem feita pelas personagens do roteiro de Clarice. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador.

Dias Perfeitos, segundo romance publicado pelo autor Raphael Montes: um amigo fez com que eu pulasse todo e qualquer livro “da minha interminável fila”. Tal fato não se deve a organização da edição, conhecida editora, ou até mesmo pela capa (ele prefere a da edição em inglês, com a mala rosa), mas por ser do mencionado autor, por quem nutre real admiração.

Confesso estar difícil escrever – terei que decepcionar um amigo…

Concordo com ele e com as críticas ao Raphael: o autor domina, sua escrita não aparenta falha – já tinha me surpreendido com O vilarejo –, merece brilhar! O Téo, minha humilde opinião, não.

A história gira basicamente ao redor de duas personagens e um desvio comportamental grave auxiliado por falta de empatia ou remorso, intervenções medicamentosas restritivas, e atitude exacerbada de controle.

Teodoro tem 22 anos, é estudante de medicina e tem Gertrudes como sua melhor amiga: estão sempre juntos na faculdade. O formol ajudou a prolongar tal laço. (Sim, ela é um cadáver usado nas aulas.) Ele é vegetariano, não fumante, evita o álcool, tem uma mãe paraplégica desde o acidente de carro que levou o seu pai.

“Quando criança passava noites sem dormir tentando desvendar os próprios pensamentos. Sentia-se um monstro. Não gostava de ninguém, não nutria nenhum afeto para sentir saudades: simplesmente vivia…” p.12

E ainda não nutre. Faz o esperado: se a mãe diz que o ama, ele responde que também a ama. Basta. Bastava – não mais após conhecer a “sua ratinha”.

Clarice Manhãs, 24 anos, estuda história da arte na UERJ, mas gosta de roteiro e está escrevendo Dias Perfeitos, onde três amigas caem na estrada e vivem diversas situações. Ela é extrovertida, vivaz…

“Eu bebo bastante, como de tudo, e já fumei de tudo também, mas agora só esse Vogue de menta, cigarro de mulherzinha, e, bem, eu trepo de vez enquando…” p.19

Churrasco. Apresentação. Conversa e um selinho de despedida. Foi o suficiente.

“Téo se sentia zonzo. (…) Algo havia explodido dentro dele. Algo que ele não conseguia nem queria explicar.” p.21

Certo. Interesse, querer conhecer melhor, almejar amor e felicidade… Quem não quer? Normal. Ficar olhando para a tela do telefone, observar a pessoa passar, imaginar como seria estarem juntos… De repente procurar no Facebook, no Instagram, seguir, curtir… Até que ponto para ultrapassar a linha imaginária e ir para uma outra margem?

Todavia, tomar decisões pelo outro e cercear seus direitos?!… Posso infligir a mim, embora não deva, mas ao outro?

“Acha mesmo que … vai me fazer gostar de você?” p.80

perfect-days-book-coverÉ exatamente isso. Após ela ter dito não ter interesse, ele acredita que se passarem um tempo juntos será o suficiente para que ela se envolva. Daí a capa da edição em inglês transcrever bem: mala rosa – “meio de transporte”. Clarice é sequestrada em grande estilo: Thiolax, flexivelmente carregada, e com direito a artigos de sex shop (algemas e mordaça). Viagem como no roteiro de Dias Perfeitos.

Por vezes circunstâncias e/ou momentos nos fazem agir de forma que jamais esperaríamos: um grito indevido, um bater a porta, algumas palavras ferinas… Depois refletimos, voltamos atrás ou não, pesamos o que foi acertado e o que foi errôneo… Condição humana. Por vezes nos desculpamos. Mas cominar, invadir o espaço interior e exterior, não discernir e continuar julgando-se correto, arranjando desculpas para atos, mesmo em níveis avançados…! Psicopatia.

Compreendo a necessidade de se sentir amado, argumento com o qual meu amigo defendeu a personagem para mim. Todos nós temos. Mas e os limites? O famoso “seu direito começa quando acaba o do outro”?!…

Não posso delongar ou todos os spoilers os quais escrevi e retirei, bem como tantos outros, poderão emergir de um lago próximo a hotel fazenda ou ilha. E o esquecimento, amnésia, pode se tornar uma dádiva.

Os finais do autor sempre nos trazem alguma surpresa, choque, consoante se olha para ele. Entendo a admiração do meu amigo pelo grande escritor. Mas não tenho como sentir empatia pelo Téo. Alguns podem concordar, outros discordar… Não obrigarei vocês a nada.

Um abraço,

Carolina.

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