Livros, Traduções

Tradução livre: Bibliomania | a estranha história da compra compulsiva de livros

Uma ensaísta analisa o passado curioso de colecionadores patológicos — e delibera sobre sua própria necessidade de vida de amontoar-se sobre mais volumes.

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Ilustração: De Agostini | Fonte: Our Daily Read

Quando eu era jovem, desenvolvi um tipo de orgulho perseverante no meu desejo de pular uma ou duas refeições para poder gastar com livros. Mais tarde, por causa da vantagem do cartão de crédito sendo aceito no campus [da universidade], pude passar a comprar tanto livros quanto comida. Justifiquei minha dívida crescente como sendo necessária para minha educação, e brinquei com amigos que, enquanto os outros gastavam dinheiro com carros e roupas caras, a coisa de mais valor que eu possuía eram minhas estantes de livros.

Percebo agora que minhas “brincadeiras” eram, na verdade, falsa modéstia. Eu realmente amava livros, sempre amei, mas também me tornei arrogante com o prazer de possuir tantos. Foi aí que minha primeira pilha de “To-Be-Read” (TBR) (A-Ser-Lido) começou — todos aqueles volumes que comprei com intenção de ler. Anos depois, a economia adulta me forçou a parar de comprar toda vez que entrava numa livraria, meu trabalho como resenhista agora faz chegar à minha porta uma média de cinco novos títulos por semana. Minha pilha TBR está alcançando o teto, e mesmo sem estar contraindo dívidas, o prazer visceral que eu tenho de estar rodeada por livros ainda continua o mesmo.

No século XIX, colecionar livros se tornou comum entre os cavalheiros, principalmente na Bretanha, e transformou-se numa obsessão que um dos cavalheiros chamou de “Bibliomania”. Thomas Grognall Dibdin, um clérico e bibliógrafo inglês, escreveu ‘Bibliomania ou Loucura do Livro: um Romance Bibliográfico’, que era uma gentil sátira àqueles que se viam afligidos por essa “neurose”. Dibdin medicalizou a condição, chegando ao ponto de criar uma lista de sintomas manifestados nos tipos específicos de livros que eles obsessivamente buscavam: “Primeiras edições, edições verdadeiras, livros impressos em letras pretas, cópias em papel largo; livros mal cortados com pontas que não foram aparadas pela ferramenta do encadernador; cópias ilustradas; cópias únicas com encadernação marroquina ou alinhamento de seda; e cópias impressas em velino [papel de pergaminho]”.

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Reverendo Thomas Frognall Dibdin (1776-1847) | Ilustração: Alamy | Fonte: Our Daily Read

Mas o próprio Dibdin era obcecado pelo aspecto físico dos livros, e em suas descrições dava intensa atenção aos detalhes de suas encadernações e impressões (ao invés do conteúdo) que traía sua própria paixão. Numa carta publicada num jornal de 1815, ele implorou aos inscritos para aumentar suas inscrições para ajudá-lo a completar um conjunto de volumes chamado O Decamerão Bibliográfico — mais lindo do que podiam imaginar. “Eu devia ser contrário a prometer o que não será entregue, ou incorrer a censura da vaidade ou presunção ao afirmar que os materiais já coletados, neste departamento do trabalho, são mais numerosos, mais lindos, e mais fiéis, do que qualquer um outro, ao meu conhecimento, que foi visto pelos olhos do público”.

Enquanto Dibdin criava novos materiais para satisfazer a fome daqueles que buscavam por livros, os leilões pelos itens já existentes trouxeram preços inacreditáveis. O fim sangrento de tantos nobres franceses na revolução fez um influxo de colecionáveis chegar ao mercado porque bibliotecas privadas estavam sendo esvaziadas postumamente. Em 1812, o leilão da biblioteca do terceiro duque de Roxburghe, John Ker, representou um momento divisor de águas, de acordo com Michael Robinson, que leciona na Universidade de Massachusetts-Dartmouth. No seu próximo livro, Cavalheiros Ornamentais, Robinson diz que o interesse no leilão de Roxburghe se alastrou com propaganda, bem como a falta de livros no tempo de guerra. Muitos ingleses abastados — e um representante de Napoleão — apareceram no leilão, que durou 42 dias, e incluiu uma tremenda seleção de incunabula (livros impressos antes de 1500). Uma edição de Bocaccio foi vendida por £2,260 (por volta de $190.000 em dólares americanos atuais), o mais alto preço pago a um único livro até aquele ponto. O próprio Dibdin estava no leilão, lembrando-se do evento como cheio de “coragem, carnificina, devastação e frenesi”.

A busca obsessiva por livros não acontecia longe da cultura de massa, no entanto. Recentes estudos revelaram tensão entre um britânico nascido republicano e esses bibliomaníacos. Até mesmo Thomas De Quincey, autor da memória de vícios ‘Confissões de um comedor de ópio inglês’, descreveu os viciados literários que ele observou no leilão de Roxburghe como irracionais, e governados pelo “capricho” e “sentimentos” ao invés de razão. De Quincey usa o termo pretium affectionus — “preço fantasia” — para descrever como os preços eram decididos, transformando o colecionador de livros num almofadinha regido por suas emoções.

Mesmo que ainda seja cedo para falar de uma subcultura “gay”, Robinson escreve sobre a “desconcertante veadagem da representação estereotipada dos bibliófilos do século XIX”. Homens que colecionavam livros eram frequentemente vistos como efeminados. Em 1834, revista literária britânica Athenaeum publicou um ataque anônimo insinuando que um dos proeminentes membros do clube de Dibdin era homossexual.

A linguagem de Dibdin, que é notória por sua sensualidade, é cheia de duplo sentido e descrições sobre colecionar livros numa linguagem sexualizada; do seu ‘Decarmerão Bibliográfico’, aqui estão alguns diálogos característicos:

— Pode nos presentear com um gole desse creme?

— Felizmente é uma de minhas atribuições gratificá-lo com uma boa dose dele.

Conforme Robinson me contou: “O discurso heroico-jocoso de Dibdin sobre livros e colecionadores contém uma linguagem que é difícil de ler sem ser uma sugestão sexual. A sensualidade dessas coisas é bem surpreendente, na verdade — ao ponto de que pode realmente não ser chamada de sugestão. Estas facetas da subcultura implicam a possibilidade de que os homens que hoje podem identificar-se como gays ou queers fossem resumidos a colecionar”.

Uma das preocupações em meados do século XIX no que diz respeito a colecionar livros era o medo de que, ao amontoar-se de livros, os compradores estivessem negando aos seus conterrâneos o patrimônio. A imagem do diletante rico era a de um consumidor manifesto de livros que nunca seriam lidos — a velha pilha TBR — portanto, estariam mantendo os livros fora do alcance da comunidade intelectual. O colecionador era frequentemente retratado como tendo um tipo de doença antissocial que o impedia de contribuir para o bem maior ao compartilhar suas riquezas impressas. Mas a origem de muitas antologias literárias jaz nas bibliotecas desses colecionadores privados — que estabeleceram, à sua maneira, uma herança literária nacional.

Conforme exploradores da Era Colonial se tornaram tesouros arqueológicos e artesãos de outros países, os colecionadores de livros foram discutivelmente culpados de um roubo cultural similar. Mas uma pesquisa da literatura acadêmica de bibliomania fracassou em levar essas acusações adiante. Encontrei, por outro lado, uma curiosa resenha de um livro de 1855 que discutia a “dominação árabe” da Espanha antes da Reconquista. Na resenha, é oferecida uma crítica à bibliomania mulçumana: enquanto alardeavam a preservação dos Mouros da cultura ocidental durante o período conhecido pejorativamente como Idade das Trevas, “poucos de seus trabalhos, contudo, são valiosos para o estudioso moderno”. Numa linguagem completamente orientalista, os colecionadores de livros do mundo islâmico são tratados com os mesmos termos usados nas críticas anteriores aos colecionadores britânicos: “Não podemos simpatizar com suas excentricidades extáticas de paixão, ou dar muito mérito às suas imagens e descrições supersensualizada, e à sua verborragia e eufemismo afetado”. Aparentemente, parecia tudo bem os Árabes terem salvo Aristóteles e os matemáticos — mas sua escolha de preservar livros contendo linguagem passional fez os Vitorianos ficarem desconfortáveis.

Lá pela passagem do século, como evidenciado por um artigo de 1906 do Museu Metropolitano de Arte, colecionar livros não era mais passível de desprezo. Eram necessárias habilidades para separar o joio do trigo; colecionar livros era agora uma “ciência completa” e os leitores compreendiam que eles também podiam achar algo muito bom, contanto que possuíssem um “julgamento perspicaz, gosto impecável, paciência inesgotável — e uma competência para o ridículo”. Conforme o autor aponta, é necessário conhecimento especial para saber que ‘A história de um bêbado’ de Franklin Evan — um livro que muitos jogariam fora — era na verdade “o primeiro trabalho publicado, e com raro valor ” de Walt Whitman. Bibliomania passou a ser um direito de se exibir.

Escolhi minha universidade baseado na coleção da sua biblioteca: Cornell, em Ithaca, Nova Iorque, foi co-fundada pelo historiador e bibliomaníaco Andrew Dickson White, que passou a vida viajando o mundo e colecionando livros, e doou mais de 34.000 tomos raros para a construção da biblioteca de Cornell. Nisso, sua bibliomania foi útil a uma causa comum, apesar dos receios de alguns críticos: até hoje, estudiosos vão até Ithaca para usar o que antes foi admirado somente na privacidade das estantes de White. A primeira vez que sentei naquela biblioteca, segurando um livro publicado antes de 1500, senti algo semelhante ao modo como me senti próxima dos oceanos: minúscula, e em proporção correta com o mundo. Manusear livros de séculos anteriores é um lembrete pungente de que, não apenas as pessoas amaram os livros por toda a sua existência, como também continuarão amando no futuro. Talvez hoje, a bibliomania não seja um comportamento irracional, pois os livros se tornaram menos venerados e as bibliotecas, mais raras. Ao invés disso, assim como para aqueles antes de nós, é um ato cuidadoso de preservação para aqueles que virão depois.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês, por Lorraine Berry, no Our Daily Read. Confira na íntegra aqui.

 

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