Livros, Resenhas

Resenha: Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway

sinos

Aí o protagonista morre no final.

É mentira. A história termina antes de isso acontecer.

Para começo de conversa, preciso deixar claro que tive uma relação de amor e ódio com esse livro. Coisa parecida aconteceu apenas com A Metamorfose, do Kafka, sete ou oito anos atrás, quando o li pela primeira vez. Com um grande punhado de altos e baixos, eu consegui gostar bastante do livro, mas já adianto que não foi tarefa fácil. Muitas coisas me irritaram — tanto no autor quanto na trama em si. E, ao passo em que o terminei (depois de doze dias de leitura, tempo demais para o meu gosto, mas não vou ficar dando desculpas), eu me encontrava num estado enervado de letargia, em que minha mente havia sido anestesiada e a história, das duas, uma: ou era muito boa ou muito ruim. Na dúvida, o topo do muro me pareceu a posição mais sensata a adotar.

Muito do meu receio em “desgostar” dessa história em particular se deve ao fato de que esse é um dos livros mais incríveis do século XX, consagrado pela crítica e endeusado pelos hemingwaynianos. E, para falar a verdade, eu entendo e aceito esse fato. Sério mesmo. Mas parto do pressuposto de que um mesmo tom de cor pode ser visto de formas diferentes pelos olhos que o contemplam. Portanto, seja Hemingway um deus da literatura ou um demônio, concedi-me o direito de não gostar de várias coisas em seu livro.

Minha primeira experiência com o autor aconteceu no ano retrasado, com O Velho e O Mar. Esse livro, sim, achei impecável, e de uma profundidade abismal. Mas sou maduro o suficiente para entender que a constância de um escritor muda frequentemente, e isso não necessariamente se resume à experiência, mas, outrossim, a um conjunto de fatores — tais como o contexto, a cultura, e o estilo de vida em que ele está inserido —, que o inspira a escrever conforme aquilo que sente.

O engraçado é que o “Sinos” me enganou. Comecei a lê-lo e o apreciei de imediato. Mas aí as coisas foram se desenrolando e eu percebia cada vez mais que tinha precipitado minha opinião sobre ele. Então, algo surpreendente acontecia, e me tirava o fôlego. Sempre assim, como os batimentos do coração de uma pessoa com problemas cardiovasculares. Por isso tive tanta dificuldade em organizar os pensamentos na minha cabeça sobre essa história.

A ambientação do livro é a guerra civil espanhola. Republicanos Vs. Fascistas. No meio, uma batalha que matava muitos inocentes e destruía famílias inteiras em questões de uma noite. De um lado lutavam aqueles que defendiam a liberdade da democracia para o povo, enquanto do outro revidavam aqueles que acreditavam no crescimento pessoal por intermédio do trabalho forçado do proletariado, e que pensavam ser predestinados a governar com mão de ferro uma Espanha caótica, mas ao mesmo tempo poética, cruel e adorável.

A história fala de Robert Jordan — chamado erroneamente por todos de Inglés —, um americano que era professor de espanhol numa universidade dos Estados Unidos, e que agora vive na Espanha, servindo ao exército como dinamitador. Seu trabalho no livro consiste em explodir uma ponte e impedir que os inimigos da República recebam ajuda depois que forem atacados. Para isso, Jordan vai para as montanhas — onde fica a ponte —, e se junta a guerrilheiros a favor da República para cumprir sua missão.

Anselmo — ou o Velho — é o homem de confiança de Jordan. Um espanhol sério, nobre, que sabe matar muito bem, mas que abomina o assassínio de pessoas. Mata porque sabe que é inevitável, sem, no entanto, jamais sentir prazer na matança. Chega a se emocionar quando tira a vida de um soldado no livro, e isso é de cortar o coração. É um homem sensato e extremamente fiel. Jordan e ele se tornam muito amigos.

Maria é o par romântico de Jordan na história. Ela era prisioneira dos fascistas — que, depois de fuzilarem seu pai e sua mãe, rasparam sua cabeça e a estupraram tão violentamente que ela ainda sente dores. Costumava ser uma pessoa instável, mas com a ajuda de Pilar, que a acolheu, conseguiu reeducar sua mente para não enlouquecer por causa do sofrimento pelo qual passou.

El Sordo é o líder de um grupo de guerrilheiros em outra parte da montanha, que aceita ajudar Jordan a executar o seu plano de explodir a ponte. Como seu apelido diz, El Sordo é surdo — apenas de um lado, não lembro qual —, mas é também um homem notável, corajoso, e que se tiver de morrer levará consigo para o inferno tantos inimigos quanto puder.

Além desses personagens, existem outros com alguma relevância na história — o Cigano Rafael, os irmãos Eladio e Andrés, Fernando, e Augustín (um boca-suja muito engraçado) —, cujas personalidades são profundas e singulares, e que sem dúvida enriquecem a história. Contudo, meus personagens favoritos são Pablo e Pilar, o único casal da história além de Robert Jordan e Maria.

Pablo é o líder do bando de guerrilheiros com os quais Jordan divide acampamento. Ele é um homem inteligente, cruel, mas ao mesmo tempo dissimulado e, atualmente, covarde. Antigamente, era um assassino de fascistas e não se importava nem um pouco de fuzilar malfeitores. Agora, porém, talvez pelo medo de morrer, tornou-se um homem desconfiado, calculista e individualista. Sua relevância na história é muito grande, e você consegue amá-lo e odiá-lo em questão de uma página.

Pilar é a mulher mais durona que eu já encontrei num livro. Meio cigana, meio puta, meio mãe, ela possui — ou diz possuir — habilidades de previsão do futuro. Lê a mão das pessoas e também consegue sentir o cheiro da morte. É uma mulher extraordinária, em todos os sentidos. Por ter um temperamento forte e um gênio de leoa, acaba liderando o bando no lugar de Pablo — a quem julga inválido por causa da covardia recém-adquirida. Todos a odeiam e a amam na mesma medida, e, acima de tudo, respeitam-na sem questionar. É uma megera e uma doce senhora. Seu humor é mais cambaleante que bêbados em dia de tourada. É, na minha opinião, uma mulher-coringa, que representa as facetas caleidoscópicas de todas as mulheres. A densidade dessa personagem faz o leitor se curvar diante da magistral narrativa do Hemingway, e respeitá-lo um pouco mais. É uma personagem não apenas completa, mas inigualável, dessas que a gente encontra uma vez ou outra, e nunca esquece. Pilar certamente fez o livro valer a pena, e eu o leria inteiro novamente só por causa dela.

A escrita do Hemingway é muito simples — não se confunda com pobre, simplória ou insípida. Como diria Pablo Neruda, “Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio, coloca ideias”. Um autor pode descrever uma cena com riqueza de detalhes, e ainda assim não terá certeza de que o leitor visualizará o que ele narrou. O texto simples, sem rodeios, muitas vezes seco, bem imposto e com a seleção minuciosa de palavras não apenas facilita a inserção do leitor na história, como também lhe dá a precipitada impressão de que escrever dessa forma não tem nada de mais e que qualquer um pode fazê-lo.

Eu poderia dar vários exemplos que corroborariam perfeitamente o que quero dizer sobre a escrita de Hemingway, mas um parágrafo em particular — no meio de vários outros igualmente incríveis — me chamou atenção e eu, é óbvio, colecionarei:

E o surdo não pode ouvir música. Nem pode ouvir o rádio. Assim, ele dirá, não as tendo ouvido jamais, que tais coisas não existem.

Essa passagem tem uma conotação religiosa muito forte, claro. O livro todo é encharcado de religião, mas não do jeito que a gente costuma encontrar. O deus para eles deixou de existir, e agora as pessoas acreditam apenas na perícia de suas armas. Alguns personagens ainda são apegados ao conforto cristão, mas são minoria. O assunto é tratado com importância equivalente ao alcoolismo, por exemplo, como se todos um dia tivessem sido alcoólatras e agora deixaram a bebida de lado por causa da guerra. Ou algo que o valha. Além disso, o misticismo dos ciganos é figurinha repetida em todo o texto.

Não resta dúvida de que a descrição narrativa do autor é experiente e gabaritada. Ele se utiliza de artifícios literários avançados, e se sai muito bem desenvolvendo as cenas. Chego a pensar que é quase como se cada parágrafo fosse um amontoado de argila moldado por um artesão perfeccionista e habilidoso. As falhas, no então vaso moldado, seriam imperceptíveis a olhos destreinados.

Porém, acho de bom tom deixar registradas algumas das coisas que me desagradaram no livro. Só assim estarei sendo justo comigo mesmo, e me permitirei ser correto com minha própria opinião. Não significa que estarei certo — deus me livre ter cacife para julgar uma obra desse porte! —, significa apenas que estarei vendo um mesmo tom de cor de uma forma diferente daqueles que o contemplam comigo.

Vamos lá!

O personagem principal, Robert Jordan, foi encarregado de explodir uma ponte, mas a história se arrasta demais sem que a ponte seja explodida. Em determinado ponto, isso se mostra como algo claramente forçado, e perde a naturalidade da narrativa. Para se ter uma ideia, a ação que culminará eventualmente na explosão da ponte acontece apenas nas cem últimas páginas.

Outra coisa inverídica — e até chata, se me permitem — é a facilidade com que os personagens se apaixonam; é uma ofensa à propensão do leitor de aceitar tudo o que lê. Talvez isso se dê pela simplicidade da escrita do Hemingway, e que por isso não se atém à narração leviana da construção de sentimentos. Uma pessoa não vai amando outra pessoa aos poucos, ela simplesmente ama e pronto. Do mesmo modo que uma pessoa não vai odiando outra pessoa aos poucos, ela odeia, ponto final. Lide com isso. Não existe um caminho que leve alguém a formar os sentimentos; esse alguém apenas os tem e o leitor precisa aceitá-los.

Outra coisa: Maria é muito carente — e num grau desnecessário. Ela passou por maus bocados e comeu o pão que o diabo amassou, eu sei, mas, ainda assim, a infantilidade dela me irritou um bocado. A todo momento pergunta “Você gosta de mim?”, “Você me acha bonita?”, “Você se agrada da minha presença?”. Ah, por favor! Essa necessidade de atenção absurda é um prato cheio para a irritabilidade de qualquer leitor. Maria é um personagem meigo, okay, mas acredito, também, que sua delicadeza barra inocência barra insipidez passe do ponto em várias partes.

Uma coisa que reparei foi que o livro discorre sobre a guerra, mas não se dá ao trabalho de pôr o leitor a par da situação mais a fundo. Se quem lê não possuir uma bagagem mínima de conhecimento histórico, pode ficar perdido em algumas partes. Não é algo que comprometa a leitura seriamente, mas isso acaba distanciando o leitor de se situar adequadamente na história.

Uma gorda parte do livro é um show de ego literário do Hemingway. Essa foi a coisa que mais me desapontou barra irritou no livro. Como já disse, ele escreve muito bem — isso é irrefutável. No entanto, o livro acaba trazendo muitas partes de enchimento de linguiça. Claro que é um enchimento de linguiça da melhor qualidade, mas eu fiquei com a sensação de que o livro podia ter sido escrito em trezentas páginas em vez de seiscentos e vinte e quatro. Reduzi-lo pela metade não traria uma perda considerável para o seu conteúdo, na minha opinião.

Esse dispêndio de escrita acontece principalmente em momentos de introspecção do protagonista, que fica remoendo pensamentos sobre a guerra, sobre o amor e sobre a vida depois que voltar para casa. Como a história se passa num intervalo de quatro dias, era de se esperar que o ritmo da narrativa fosse bem dinâmico, mas o que se constata são altos e baixos intercalados no decorrer da trama. Obviamente, não existe livro que seja excitante em cem por cento de suas páginas, mas, mesmo quando é monótono — e olhem que eu gosto bastante de uma boa monotonia —, o livro se perde em muita ponderação e, consequentemente, torna-se repetitivo e enfadonho. Prova disso — caso queiram verificar — é o capítulo 18 do livro: trinta páginas inteiras para falar sobre um hotel em Madri. Hemingway é desses espécimes que podem discorrer sobre as coisas ad infinitum…

Mas nem tudo são horrores. Como já enfatizei, eu gostei de grande parte do livro. Duas coisas me emocionaram bastante na história, e ambas têm a ver com animais. A primeira é por uma coisa odiosa, mas que, eu entendo (não significa que concorde), faz parte da cultura ibérica. Trata-se das touradas. Algumas vezes, a história narra os torneios em que toureiros matam brutalmente os touros, e festivais em que toda a população se junta para abater o animal, sorridentes e ensandecidos, como se estivessem fazendo algo glorioso. A segunda coisa foi quando [alerta de spoiler] o cavalo de El Sordo se feriu durante a batalha, e ele deu um tiro de misericórdia em seu baio. Eu reconheço que foi necessário, mas nem por isso deixei de ficar tocado pela cena.

Agora, acima de tudo, o que mais gostei no livro foram os diálogos. Se me permitem o palavrão: caralho! Que diálogos eram aqueles?! Sempre muito bem construídos, como aspirante a escritor eu só posso me prostrar diante de algo tão formidavelmente escrito. Até as conversas mais levianas, sem sentido, e banais eram montadas de forma musical. O trabalho de um verdadeiro compositor prodígio! Partes de uma sinfonia que se juntavam para derreter o espírito do leitor. Já havia experimentado isso em O Velho e O Mar, e consegui ficar igualmente extasiado com o “Sinos”.

O final, ao meu ver, foi satisfatório.

Apesar de não ter sido uma leitura fácil — eu não a recomendaria para leitores de primeira viagem —, o livro criou uma dicotomia de sentimentos em mim. Poucas histórias têm tanta influência na minha formação como leitor, mas essa passa a ser com certeza uma delas. Com pontos positivos e negativos, a trama é obrigatória para quem gosta de guerra, relações interpessoais, e, principalmente, do dilema humano entre fazer o que é fácil e fazer o que é certo.

Os sinos dobram por mim, dobram por vocês, e dobram por todos nós.

Ainda no clima da leitura, fui atrás do filme de 1943, adaptado para o cinema com a bênção do próprio Hemingway, que escolheu a dedo o elenco para o longa. Gary Cooper no papel do Jordan, e Ingrid Bergman como Maria. Resumo: filme imperdível. O trailer está aqui.

Existe, também, uma música muito boa do Raul Seixas, inspirada no livro. Eu a escutei várias vezes enquanto lia, e agora ela não me sai da cabeça. Fala sobre coragem e de como precisamos da ajuda dos outros para cumprir nossas missões. “Nenhum homem é uma ilha”, afinal. Vale a pena dar uma conferida aqui.

Bem, por mais que eu quisesse continuar escrevendo indeterminadamente sobre o livro, acho que já passei do aceitável para uma resenha. Ela está cheia de opiniões pessoais — e muita tergiversação —, que muito provavelmente não concatenarão com as opiniões das outras pessoas. Mas foi o que achei e, portanto, coloquei para fora. No mais, isso é tudo por enquanto.

Há braços.

Vlaxio.

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4 thoughts on “Resenha: Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway”

  1. Metamorfose, de Kafka faz parte daquele grupo de livros que me desestruturou. Ele, Ensaio Sobre a Cegueira, O Príncipe das Marés.
    Sobre a seu estado “enervado de letargia” compreendo totalmente! Estava passando por isso semana passada ao começar a ler “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, até ontem que eu simplesmente dei uma guinada maravilhosa no meu ritmo de leitura.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Você precisa ler O Processo, do Kafka, é engraçado de tão trágico. E eu tenho medo de ler Precisamos Falar sobre o Kevin, porque sofro de um crush muito forte no Ezra Miller exatamente por causa do filme. Não consigo ver o personagem do Kevin como vilão… Talvez isso fale muito sobre mim, huehue (medo).

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      1. Olha, isso em realaçao ao Kevin te entendo. Não assisti ao filme ainda. Acho o Kevin do livro um… Erro! Vou ser curta e grossa rs, um erro que poderia ter amido evitado. Ainda estou no inicio do livro, Las fica claro que as atitudes dele não foram provocadas pela “falta de amor da mãe”.
        Sabe por que te entendo?
        Porque amo o Hannibal Lecter! Meu esposo imaginário 😂😂😂

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  2. Eita, parece ser um baita livro, apesar dos pontos negativos. Parece ser bem emocionante, tocante.
    Eu amo animais, e tenho certeza absoluta que vou gostar desse livro, que envolve muitas das coisas que admiro numa história.

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