Livros, Resenhas

Resenha: Cada homem é uma raça, de Mia Couto

wp_20170306_10_09_04_pro

Olá, contagiante!

Hoje resolvi conversar sobre um livro incomum para os padrões aqui do blog. Trata-se de uma obra com onze histórias curtas, portanto, por questões práticas, vou falar brevemente sobre cada uma delas, dispondo-as por ordem de preferência. Não é da história que menos gostei à que mais gostei. Mas da que gostei casualmente à que gostei ferozmente.

É um texto escrito num formato diferente, em prosa, não sei se vão gostar.

Aqui vai:

#11. O pescador cego

O barco de cada um está em seu próprio peito.

— Provérbio Macúa

Esse conto me enervou um pouco. Sai o velho, rumo à pesca, e no mar se perde por tempo longo. A fome o açoita no estômago sem piedade. Precisa dum peixe para comer, só que não tem iscas. Como lidar? Me coloquei — ou tentei, pelo menos — no lugar do homem. Perdido, mar, fome. Necessita de comer. Para conseguir pesca requer isca, já que, como ele mesmo bem pontua, “ninguém conhece peixe que se suicide por gosto, mordendo anzol vazio”. Tem de ter isca, ponto final. O que ele faz? Usa o olho! Pega peixe, come peixe, fome vem de novo. O que ele faz? Usa o outro olho! Fica cego: o pescador. Como disse, me coloquei em seu lugar. Eu, por outras vias, ter-me-ia mutilado tantas outras partes do corpo antes de chegar aos olhos. Para mim, óbvio. Por isso essa estória está em última posição. Burrice do protagonista. Isso, e mais outras coisas. Como o orgulho ferrenho de sua masculinidade. Também a alusão à violência contra mulher de modo leviano e corriqueiro. O final, resta uma dúvida. Que, certo, não falo nem por uma vida de pescador burro.

#10. Mulher de mim

O homem é o machado; a mulher é a enxada.

— Provérbio Moçambicano

Fiquei cabreiro com essa história. Ilustra essa posição por, sei nem lá, não entendi direito o conto. Tem a ver com espírito. E espiritismo, também. Fantasmas, se falando propriamente. Mas não decidia se gostar ou duvidar. Em muro alto fiquei no topo. Conta de um homem; ele vê visagem, uma mulher-visagem. Ela o visita, e ele, pela constância, já pensa em tragédia. Ela o tranquiliza, e lhe conta suas intenções. Ele não resiste, e aí o título da história se faz entender.

#9. A lenda da noiva e do forasteiro

Eis o meu segredo: já eu morri. Nem essa é minha tristeza. Me custa é haver só uns que me acreditam: os mortos.

Mulher-puta. Não mulher-fruta. É assim que apresento a tal dessa noiva. Cabra odiosa, pelo que faz. O forasteiro — e seu cão-demônio — sabe o deus!, nem fez cócega no meu interesse. Há um noivo — par da dita cuja — e ele, sim, gosto de. A população diminui, e se atribui essa baixa demográfica à vilania endeusada do forasteiro. Nada se há de fazer. A não ser oferecer a donzela — noiva do noivo — para o homem com seu cão. Talvez uma perseguida o acalme nos desaparecimentos. Rá rá rá, rindo eu fico. Tudo bem, aceito essa forçosa parte da história. Ela se vai, mas o que faz depois, mãe do céu, nem lembrar gosto. Fico raivoso, com pena do noivo — e emputecido com a inrazão do povo.

#8. Os mastros de Paralém

Só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo.

Um pai viúvo, um casal de filhos. Caseiro de casa grande para senhor-patrão, o homem vigia as laranjeiras. Chega-se nas terras desconhecido incauto, finta de guerrilheiro. Não se sabe se perigoso ou se inofensivo. Os filhos do homem são curiosos, vão ter com o guerrilheiro. A menina aparece embuchada, claro, como não?! Um neto é nascido, e demora a amolecer coração de avô. Pior, neto mulato. Não preto. De onde se originou? Vai o avô satisfazer sua dúvida. Desfere golpe injusto. Quando sabe de sua injustiça, não se remedia como quer, mas continua sua vingança. Pena sofreram as laranjas.

#7. Rosalinda, a nenhuma

É preciso que compreendam: nós não temos competência para arrumarmos os mortos no lugar do eterno. Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, imiscuem-se do território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei. A mais séria consequência desta promiscuidade é que a própria morte, assim desrespeitada pelos seus inquilinos, perde o fascínio da ausência total. A morte deixa de ser a mais incurável e absoluta diferença entre os seres.

Rosa, a linda. Rosalinda. É gorda como só as boas gordas. Bunda do tamanho do mundo. Mulher de personalidade, certo, como muitas das da laia dela. Gostei da caracterização dessa história. Ótimo contexto, a viuvez. Sempre rende bons contos, pelo menos nesse livro. Ela chora o amor já morto. Mas o conto vale mais pelo escrito.

#6. A princesa russa

[…] Bastou correr fama que em Manica havia ouro e anunciar-se que para o transportar se construiria uma linha férrea, para logo aparecerem libras, às dezenas de milhar, abrindo lojas, estabelecendo carreiras de navegação a vapor, montando serviços de transportes terrestres, ensaiando indústrias, vendendo aguardente, tentando explorar por mil formas não tanto o ouro, como os próprios exploradores do futuro ouro […].

— António Ennes, Moçambique, Relatório Apresentado ao Governo, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1946, pp. 27-30

A história toda é uma confissão. De pecador, quem mais? O padre escuta, o pecado é narrado. Homem, manco, que gosta de mandar. Consegue emprego que lhe permite mandar, em casa de russos que vão à Moçambique em busca de ouro. O ouro, maluvido, nem tchum, escasseou-se com rapidez. Restou a casa, grande, e a princesa russa, frágil, sozinha, enfurnada em quartos e encarando ponteiros andando. Relógios, claro. Ela logo decide explorar. Primeiro a casa. Depois a ala dos criados, e então o mundo. Descobre-se amor perdido em outro país. Tentativa de contato. O pecador, pecando, interfere, maldito. A princesa se queda doente, endoidece, como não? Era esperado. O tempo passa, e leva junto a sanidade. Ela sai em nova aventura, acompanhada do pecador manco, que conta ao padre como, canalha, a deixou para morrer, iludida e doida.

#5. Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu

Império: em pé, rio a bandeiras despregadas.

Então, existe a propaganda. O cortador de cabelo — engraçado como só ele em sua falsa seriedade — arremete aos clientes histórias contadas. Mentiras, certo. De um artista de cinema, o tal do Poitier, que lhe deixara o cabelo cortar, como ao dos filhos. E a barbearia nem parede tinha. Ar livre, debaixo de árvore. Com clientes levando frutadas na cabeça e tudo! Um mal-entendido ocorre e o deus-nos-acuda se sucede. Resta apenas o respeito pela espera do barbeiro, seu funcionário aleijado e o comparsa de propaganda.

#4. A Rosa Caramela

Acendemos paixões no rastilho do próprio coração. O que amamos é sempre chuva, entre o voo da nuvem e a prisão do charco. Afinal, somos caçadores que a si mesmo se azagaiam. No arremesso certeiro vai sempre um pouco de quem dispara.

É mulher doida. Corcunda. Todo mundo a trata como tal sua sanidade. Ela nem se importa. É digna, em sua loucura. Diz, perdeu o amor de sua vida antes de casar. Ninguém acredita. História de fundo tem homem, irmão e filho. Os três divagam sobre as peripécias de Rosa Caramela. Que se desnuda em velório, sim, por que nunca? Então, muito chato isso, ficamos sabendo o paradeiro do dito noivo. Meu deus!

#3. O apocalipse privado de tio Geguê

— Pai, ensina-me a existência. — Não posso. Eu só conheço um conselho. — E é qual? — É o medo, meu filho.

Por que não? Geguê é tio de sobrinho órfão. Perdeu os pais e encontrou fraternidade naquele homem. O homem, se sabe, não é dessas flores que a gente cheira. Vish, não mesmo! É malandro, de marca maior — a da criminalidade. Tem uma sobrinha, que desperta desejos no sobrinho. Manda-a embora e ensina o garoto seu ofício. O garoto é bom, e aterroriza os bons costumes. Mas esquecer a menina, que bom, neca de pitibiriba. Exige do tio saber o paradeiro dela, o tio responde, o sobrinho descobre tragédia, e causa outra para si próprio. E deixa sem saber se fez ou não até o fim.

#2. O ex-futuro padre e sua pré-viúva

A vida é uma teia tecendo a aranha. Que o bicho se acredite caçador em casa legítima pouco importa. No inverso instante, ele se torna cativo em alheia armadilha. Confirma-se nesta estória sucedia em virtuais e miúdas paragens.

E aí um garoto cresce, certinho por demais. Pensam logo, é doente. Nem é. Apenas certinho, com intenções seminaristas. Quer ser padre. Tem garota — a mais desejada de todas — se acaba apaixonando pelo garoto que quer ser padre. Confusão armada. Barriga aparece, o garoto é obrigado a casar. Depois do matrimônio, não há barriga — pois se é assim, nem há consumação, outrossim, bem feito! Recorre-se à feitiçaria… e não dá certo. Pelo menos imaginam todos! História muito boa, sério…

#1. O embondeiro que sonhava pássaros

Pássaros, todos os que no chão desconhecem morada.

Embondeiro é árvore de cabeça para baixo. No da estória, vive um passarinheiro. Dentro da árvore. Colhe pássaros em gaiolas, e sai a vender pelas ruas. Essa história é mágica, conto lindo. Mas os pais não apreciam a presença do vendedeiro. Querem-no matar. Um garoto, o mais encantado pelos encantos do encantador de pássaros, vai em sua ajuda. O povo fere o homem, e a magia dá conta do povo — muito triste, tal modo, como se sucedeu o final. Triste, mas angelical — poético, até! Meu conto favorito em disparado. O que mais recomendo, certo.

———————————

wp_20170306_10_11_12_pro
Uma das melhores frases escritas num livro.

 

Então, agora deixando minha tentativa de prosear de lado, vamos ao geral da obra. O livro é escrito em prosa, e ela é tão boa que se parece musical. Esse foi meu primeiro contato com Mia Couto, por indicação — e presente — da minha professora. É desses autores que a gente se pergunta onde ele esteve minha vida toda que ainda não o conhecia.

Os contos — além de hipnotizantes — trazem temas recorrentes muito fortes e que dão bastante pano para manga. Ele discorre sobre racismo, orgulho étnico, violência contra mulher, patriotismo. Mas, acima de tudo — e provavelmente o que mais me fez gostar desse livro —, os contos são impregnados do folclore moçambicano.

Nunca tinha lido nada do tipo, mas ele faz uma boa mistura de misticismo, religião e lendas. Todas as histórias têm um apelo sombrio, e isso é um ponto muito positivo. O texto é por demais delicioso, e certas vezes tinha vontade de comê-lo.

Um livro para releituras, certamente. Se o ler daqui a um ano, tenho certeza de que vou gostar do mesmo tanto, e ainda encontrar significados que me foram ocultados nessa primeira leitura. Tenho mais um livro desse autor, e espero que seja tão formidável quanto esse… O presente que ganhei foi muito mais que um livro, foi um compêndio de sonhos. E moçambicanos, todos, como eu nunca esperei ler algum dia.

Há braços.

Vlaxio.

Anúncios

2 thoughts on “Resenha: Cada homem é uma raça, de Mia Couto”

  1. Sua escrita me lembrou muito a de Machado de Assis, Vlaxio.
    Esses contos sombrios, me atraem , me lembram “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ou até mesmo “Dom Casmurro”.
    Então, gostei bastante, obrigada pela resenha !

    Curtido por 1 pessoa

Gostou? Não gostou? Deixe seu comentário, vamos ficar muito felizes em respondê-lo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s