Livros

12 de março: Dia do Bibliotecário

Imagine o seguinte cenário:

Uma construção medieval, erguida com pedaços de rocha cuja força sustenta um castelo meio barroco, meio gótico, meio sombrio. Nessa construção, existe um salão de proporções dignas da nobreza, mas sob os cuidados de monges misteriosos. Dentro desse salão, repousa um sem-número de estantes de madeira e estruturas de concreto que comporta outro sem-número de livros grossos, velhos e empoeirados. A iluminação do lugar fica ao encargo das luzes bruxuleantes de velas, archotes lamparinas. A atmosfera exala um misto odorífero de pergaminhos antigos, querosene para o fogo e a fragrância inigualável das páginas dos livros.

Esse lugar se chama biblioteca.

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Bem, pelo menos na visão que a maioria das pessoas tem acerca de uma biblioteca. Esse cenário, no entanto, alude à biblioteca específica do mosteiro beneditino retratada no livro ‘O nome da rosa’, de Umberto Eco — ou, também, no filme de mesmo nome, cujo protagonista é o excelente Sean Connery. Em ambas as obras, a biblioteca é apresentada nos moldes medievais, época na qual o conhecimento era detido pelo clero e confinado em abadias devidamente supervisionadas por autoridades religiosas. Não surpreendentemente, tanto o livro quanto o filme acabaram por contribuir em demasia para o imaginário popular no que concerne a bibliotecas.

Mas será que esse é um cenário verídico das bibliotecas?

Sim.

E não.

Sim, porque ainda existem, espalhadas mundo afora, bibliotecas que mais parecem verdadeiros palacetes, mantendo o desenho arquitetônico de centenas de anos, e que remontam a épocas no passado em que as construções megalomaníacas rendiam belíssimas edificações. Tais elevações, também, fazem parte de nossas relações associativas quando nos lembramos de uma biblioteca, e sua existência se justifica exatamente na memória histórica que trazem consigo ao longo do tempo.

E não, porque construções medievais que comportam acervos de livros estão cada vez mais diminuindo pelo mundo, dando lugar a espaços modernos, adaptáveis e edificados para serem práticos e eficazes no atendimento ao usuário. Hoje em dia — ainda bem! —, as bibliotecas podem ser encontradas em qualquer local que disponha de estruturas físicas mínimas para comportar coleções de livros e o serviço de referência.

O mundo continua sofrendo metamorfoses culturais, tecnológicas, políticas, econômicas, etc. Em sendo assim, as mudanças interferem diretamente na sociedade e no comportamento dos indivíduos sociais, por assim dizer. Dentro dessa concepção, é necessário reiterar que a biblioteca precisa se manter no mesmo ritmo em que essas metamorfoses ocorrem. Do contrário, vai acabar se tornando um mero armazém para guardar informações que poucos procuram e muitos desvalorizam.

Adaptar-se às novas silhuetas da contemporaneidade é um processo lento, especialmente se a biblioteca depender de recursos financeiros da esfera pública. Contudo, se existe um ator que pode minimizar as dificuldades desse processo, esse alguém é o bibliotecário.

Em certa vez, uma professora minha confessou, na sala de aula, que, como bibliotecária, sente-se parte da elite do mundo acadêmico. Os argumentos usados pela professora consideram, principalmente, o fato de que a informação é a base para a produção da ciência, e, como responsáveis pelo tratamento da informação, os bibliotecários desempenham papel imprescindível no universo da academia. Imaginem novamente a biblioteca medieval apresentada no começo deste texto. Lembrem-se de que há, para elucidação desse cenário, um sem-número de estantes que comporta um sem-número de livros. Agora pensem nessa biblioteca sem nenhum bibliotecário — consequentemente, nenhum agente capaz de tratar a informação para disseminá-la. Se um usuário — incauto, necessitado de conhecimento e inexperiente — chega a esse lugar com uma demanda informacional, podemos afirmar com toda propriedade que ele sofrerá maus bocados na tentativa de encontrar o que procura. Logo, o conhecimento permanecerá inutilizado e, portanto, inalcançável ao usuário.

Admitam ou não, todos os usuários necessitam em algum momento de auxílio quando buscam informação. A profissão do bibliotecário se justifica na premissa de guardião do saber, não no sentido austero de guarda, mas na concepção maleável de custódia de um arcabouço de conhecimentos que, nas mãos treinadas e para as mentes afiadas, passam a ser democráticos e acessíveis a todos aqueles que necessitam de informação.

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Mas, obviamente, nem todo bibliotecário é um bom bibliotecário.

Assim como nem todos os médicos são bons médicos, nem todos os professores são bons professores, nem todas as mães são boas mães, nem todos os avós… Ser bom ou ruim em determinada atividade não é exclusividade deste ou daquele ser humano. Trata-se, a bem da verdade, de uma característica inata que se desenvolve ao longo da vida de cada um, e das escolhas que os indivíduos fazem para se tornarem melhores ou não.

É bom que se reitere o fato de que não existem apenas as bibliotecas públicas, escolares, comunitárias, especializadas e universitárias. Isto é, não existe apenas a biblioteca tradicional, mas há, também, a digital, a híbrida, a em nuvem, etc. E o objeto de escopo dessas bibliotecas não se restringe a livros, periódicos ou multimeios. Podem se estender a bibliotecas/livrarias/streaming de e-books (Kindle Unlimited), de filmes e séries (Netflix, Crackle), de músicas (Spotify, iTunes), de imagens (Deviant Art, iStock), de jogos eletrônicos e aplicativos (Xbox Live, Windows Store, Google Play), dentre tantas outras existentes no mercado cujas funções administrativas podem muito bem ser exercidas por um bibliotecário.

O céu é o limite.

Por falar em céu, se a gente fosse comparar, as nuvens seriam os livros e o bibliotecário seria o cara capaz de prever o clima. Muita gente costuma pensar que bibliotecários passam o dia todo sem fazer nada na biblioteca. Deixa eu falar uma coisa para vocês. Isso é realmente verdade. Mas apenas em parte. Assim como existe esse tipo de bibliotecário, também existem aqueles bibliotecários que são ferramentas indispensáveis para a busca do conhecimento. E esses profissionais fazem tudo valer a pena, pois, sem eles, talvez hoje não existisse a Penicilina, por exemplo, ou a Teoria da Relatividade, ou a Psicanálise, ou o Computador…

Em certa vez, Carminda Ferreira disse que o Bibliotecário não tem futuro. O Bibliotecário é o futuro!

Nesse dia 12 de março, nós do blog não podíamos permitir que a data passasse em branco. Por isso, deixamos aqui nossa homenagem a esse profissional que se permite ser brutalmente pisoteado, como uma ponte que liga a ignorância ao conhecimento e sobre a qual caminham as maiores mentes da humanidade.

Feliz Dia do Bibliotecário!

Equipe Silêncio Contagiante.

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2 comentários em “12 de março: Dia do Bibliotecário”

  1. Verdade, o bibliotecário é muito importante na nossa busca por conhecimento, apesar de que hoje em dia , é menos valorizado, por conta da facilidade que temos em conseguir o que procuramos, na internet. Mesmo assim, é de grande importância, ele nos direciona, como uma bússola.
    Parabéns aa todos os bibliotecários.

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  2. Uma da profissões mais lindas ❤
    Era a minha primeira opção de curso quando prestei vestibular, por alguns motivos pessoais resolvi mudar de ultimahoras e fiquei com a segunda opçao: Bacharelado em Letras Vernáculas.
    Não me arrependo, longe disso!
    Mas penso em pedir reingresso e cursar biblioteconomia.
    Daqui a dois anos termino o curso de Letras, então…
    Parabéns a todos os profissionais da área. 👏💕

    Curtido por 1 pessoa

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