Resenhas

A redenção: relacionamentos abusivos e violência doméstica

Olá, leitores!

Adoro quando uma das minhas leituras despretensiosas se revela promissora, ainda mais quando é de uma autora que eu gosto muito. Eu posso gostar mesmo dos Romances de Época da Lisa Kleypas, mas eu não sabia que ela poderia ser tão incrível até eu começar a ler os livros contemporâneos dela. O clima vai ser pesado, mas sempre para evidenciar uma discussão importante. Não é através da leitura que entramos em contato com realidades diferentes?

A protegida (Série The Travis Family; 01), de Lisa Kleypas.

A redenção é o segundo volume da série The Travis Family, que está sendo publicada pela editora Gutenberg no Brasil. O primeiro volume, A protegida, é simplesmente incrível, a autora presou por desenvolver a protagonista em detrimento do romance. O foco é tão centrado na Liberty que o romance passa para segundo plano e só desenvolvido no final do livro.

É uma daquelas histórias de mulheres fortes e com guarra, que te enchem os olhos de lágrimas. Engraçado que eu estava com esse livro na lista de leitura por muito tempo, fui ler porque descobri que o título em inlglês é Sugar daddy. Entrei esperando uma coisa mais erótica e, com a simplicidade de sempre, acabei com um baita livro nas mãos. E, mesmo assim, eu não estava preparada para o segundo.

O segundo volume da série se centra na caçula da família Travis, Haven. A Haven é uma garota idealista, cheia de princípios e vergonha da boa vida que sempre teve. Cresceu sendo criticada por não ser a perfeita dama do sul, sem ter um bom relacionamento com o pai e se sentido sempre tão inferior às expectativas da mãe. Ela é do tipo que se o pai impõe algo ela faz o contrário, não aceita que ninguém queira dominar a sua vida ou dizer o que ela deve ou não fazer.

Ela decidiu, mesmo que o pai e todos os irmão não aprovem, que Nick é o homem da vida dela, que eles vão casar de qualquer jeito. Independente dos avisos que o pai dá ou da forma silenciosa que o namorado é tratado pelos irmãos. Ela tem aquela certeza, mesmo que muito ingênua, que o garoto de classe média a ama sem visar o bom nome da família dela, o dinheiro e os contatos. Então, ela foge, casa com Nick, é deserdada e começa a viver o inferno.

O Clube do Livro Saraiva teve como tema feminismo em junho ou maio, onde abordamos uma série de discussões relacionadas a mulher. Uma dessas discussões foi acerca dos relacionamentos abusivos, discutido pela Lua Medeiros. O livro utilizado foi No escuro, da Elizabeth Haynes, que é um thriller psicológico. Contudo, A redenção vai mais direto ao ponto.

Isto aqui não é uma resenha, ou talvez seja e não me dei conta, pois o objetivo é colocar alguns trechos do livro que são referentes ao relacionamento abusivo e à violência doméstica sofridos pela Haven e que servem de alerta para todos nós, afinal, no mesmo livro é mostrado que o abusador pode ser uma mulher também. E que não é só o abuso físico que precisa de atenção, assim como não se remete a dentro de casa.

“Eu tenho corpo”, eu disse.

“Eu quis dizer peitos.”

“Eu tenho isso também. Eles só não são grandes.”

“Bem, eu te amo de qualquer jeito.”

Eu queria comentar que Nick também não tinha um corpo perfeito, mas eu sabia que isso daria início a uma briga. Ele não reagia bem a críticas, mesmo quando delicadas e bem-intencionadas. Nick não estava acostumado a ter seus defeitos apontados.

“A propósito”, Nick disse bruscamente, “para que você não fique surpresa, eu disse às pessoas que seu nome é Marie.”

Eu fiquei encarando o perfil dele totalmente confusa. Marie era meu nome do meio, que nunca era usado, a menos que eu estivesse encrencada. O som de “Haven Marie” sempre tinha sido um sinal garantido de que alguém tinha jogado merda no ventilador.

“Por que você não disse para eles o meu primeiro nome?”, eu consegui perguntar. Nick não olhou para mim.

“Porque faz você parecer uma caipira.”

“Eu gosto do meu primeiro nome. Eu não quero ser Marie. Eu quero…”

“Jesus! Será que eu não posso ter uma mulher normal com um nome normal?”, ele estava ficando vermelho, com a respiração pesada, e o ar ficou carregado de hostilidade.

A situação toda parecia irreal. Eu estava casada com um homem que não gostava do meu nome. Ele nunca tinha dito nada a respeito até então. Esse não é o Nick, disse para mim mesma.

[…] eu me dei conta de que os dias ruins do Nick — os dias em que eu precisava ser compreensiva e contrabalançar cada uma das pequenas injustiças que ele sofria — eram mais numerosos que os dias bons. Eu não sabia como consertar isso, mas suspeitei que a culpa fosse minha. Eu sabia que outros casamentos eram diferentes, que as mulheres não precisavam ficar sempre preocupadas em prever as necessidades do marido nem estavam sempre pisando em ovos.

“Eu não posso parar de trabalhar”, aleguei, entorpecida. “Nós não podemos ficar sem o meu salário.”

“Eu estou para ser promovido. Nós vamos ficar bem.”

“Mas… o que eu vou fazer o dia todo?”

“Ser uma esposa. Cuidar da casa. De mim. E de si mesma”, ele se aproximou. “E eu vou cuidar de você. Logo, logo você vai ficar grávida. Você ia ter mesmo que parar de trabalhar. Então já pode parar agora mesmo.”

Às vezes ele me prendia contra a parede e gritava na minha cara. Eu temia isso mais que qualquer coisa, a força da voz do Nick devastando meus circuitos, despedaçando partes de mim que não poderiam ser consertadas.

Eu me tornei uma bajuladora, e dizia para Nick que ele era mais inteligente que todo o mundo junto, mais que seu chefe, que as pessoas no banco, que qualquer um na família dele ou na minha. Eu dizia que ele estava certo quando era óbvio que ele estava errado. E, apesar de tudo isso, Nick nunca estava satisfeito.

A posição favorita de Nick era por trás, penetrando em mim com estocadas retas, egoístas, que não me davam estímulo algum.

 

“Quem é que paga suas contas, Marie? Quem é que põe um teto sobre a sua cabeça? Eu. Ninguém na porra da sua família está nos ajudando. Eu sou o chefe da família. E você vai fazer o que eu mandar.”

Eu estava dolorida da cintura aos joelhos. Eu nunca tinha feito sexo violento com Nick antes. Isso é estupro, uma vozinha se manifestou dentro de mim, mas eu logo disse para mim mesma que se estivesse mais relaxada, menos seca, não teria doído tanto. Mas eu não queria, a voz insistiu.

Na minha cabeça, Nick tinha se tornado tão poderoso que eu pensava que ele conseguiria explicar qualquer coisa, para então me levar para aquele apartamento e talvez me matar.

Eu senti que nunca mais conseguiria estar no controle de nada.

“Minha irmã disse que o que mais a ajudou foi ouvir que não tinha sido culpa dela. Ela precisava ouvir muito isso. Então eu quero ser o primeiro a lhe dizer… não foi culpa sua.”

Eu não me mexi nem falei. Mas senti lágrimas escorrendo das minhas pálpebras fechadas.

“Não foi culpa sua”, Oliver repetiu com firmeza, e dirigiu o resto do caminho em silêncio.

Haven vai ter seu final feliz, é a Lisa Kleypas sendo a mesma sempre. Vai ser difícil e doloroso, não ajuda que o par romântico dela é o inimigo jurado da família Travis. O Hardy é o que ela precisa, mas também vem com a própria bagagem. Ela vai precisar superar muita coisa antes de estar pronta para dar qualquer passo, entender o que aconteceu com ela e como ela caiu tão fundo. Nick tem o próprio probleminha se vocês me entendem, existem muitos Nicks pelo mundo e parece que a Haven tem um “chama” para o tipo.

Espero que isso sirva para vocês, levem para vida. Recomendo que leiam o livro, tem muito mais nele do que essa parte, mas era o que eu queria frisar. Como eu disse, o primeiro livro é maravilhoso e a sua leitura não interfere na compreensão do segundo livro. Ou seja, pode ler em separado que vocês irão entender.

Beijos, May.

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4 comentários em “A redenção: relacionamentos abusivos e violência doméstica”

  1. Nossa! Bem intenso, deu até vontade de chorar.
    Gente, estou um pouco sumida nos comentários, comecei a trabalhar semana passada, então meu tempo está contado, claro que eu leio todos os posts de vocês, mas infelizmente não dá tempo de comentar todos, como antes, mas continuo aqui!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ainda não tinha lido as sinopses dos livros dessa autora. Mas com a sua resenha fiquei com muita vontade de ler. Fiquei ansiando para saber mais sobre a “Marie” e como ela se livra desse marido abusivo. Você fez uma excelente resenha, parabéns!!! XD XD

    Curtido por 1 pessoa

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