Resenhas

Resenha: A vida secreta das árvores, de Peter Wohlleben

Até as árvores têm uma vida social badalada e eu, aqui, numa deboísse crônica que me levará a uma morte solitária num hotel de Paris com vista para o Sena.

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Oi, gente!

Estou de volta dos mortos para mais uma resenha, assim, como quem não quer nada, com um livro despretensioso e uma leitura de entreter à beça. Caso você seja um biólogo ou estudante de Ciências Biológicas, bem, este texto (e o livro, consequentemente) não vai te dizer muita coisa que você já não saiba. Pelo menos em informações científicas. Por outro lado — e isso fica aos encargos da magia dentro da literatura — A Vida Secreta das Árvores é não apenas um gostoso passatempo, como também uma ótima fonte de respostas para perguntas que a gente, ao longo da vida, já se fez em algum momento.

Outro dia, por exemplo, estava assistindo ao programa da Ana Maria Braga (não escondo: vejo sempre que posso), e o tema do dia eram as formigas. Isso mesmo. Essa formiga que de repente aparece no seu rosto e você sequer sentiu ela subir pelo seu corpo. Ou aquela que sente o cheiro do bolo que você assou, chama as amigas e quando você se dá conta há uma fila indiana de insetos até o infinito. A pesquisadora convidada falou o que você e eu sabemos por alto: que formigas vivem em colônias, blábláblá. Contudo, a complexidade da convivência desses insetos (carinhosamente chamados de insetos sociais ou insetos urbanos) é tão caleidoscópica quanto às sociedades humanas.

Nesse livro, passamos a ter exatamente esta visão acerca das árvores.

Contudo, sabe qual o maior trunfo do livro? A linguagem. Peter Wohlleben, que é um engenheiro florestal alemão, escreveu um texto repleto de dados científicos, sem que, no entanto, fizesse parecer que teríamos de ler um calhamaço técnico recheado de termos documentários dos quais não temos a menor ideia do significado. Até porque, para se tornar um best-seller do New York Times, certamente a escrita deveria ser romanceada, do contrário a obra seria publicada num periódico acadêmico.

Wohlleben foi muito feliz ao fazer associações com coisas que sabemos a respeito. Para tanto, ele juntou a vasta experiência profissional na área das Ciências Agrárias à aspiração de escritor. O resultado? Um livro muito bem escrito, com uma fundamentação prática exemplar e de uma maestria literária que poucos mortais do meio científico conseguem imprimir numa obra que oferece, em simultâneo, conteúdo e entretenimento de qualidade.

De primeiro fiquei com o pé atrás, porque logo na capa o livro traz uma chamada meio “globo repórter”, entende? Tipo: o que elas sentem, como se comunicam, do que se alimentam… hoje, no globo repórter. Só que a minha curiosidade foi aumentando, porque, bem, eu meio que tenho um crush no misticismo das árvores. Basta você ser fã de fantasia para saber que as árvores, em qualquer saga que se preze, possuem vida própria, podem ser geniosas, muitas vezes poderosas, conseguem lutar em guerras, e a lista só aumenta. Por isso decidi dar uma chance a esse livro e, ainda bem, não tive um pingo de arrependimento.

A estrutura do livro é dividida em capítulos curtos, o que empresta dinamicidade à leitura. A linguagem despojada, junto à boa qualidade da edição da Sextante, torna a experiência ainda mais prazerosa. Quando você para pra pensar, já terminou o livro e quer um pouco mais. Ouso dizer, inclusive, que se você, assim como eu, mergulha nas leituras sem medo, pode acabar se achando um expert em árvores ao fim das pouco mais de 200 páginas.

Isso acontece, creio eu, pelo fato de que o Wohlleben traça um panorama bem completo das árvores, cobrindo muito daquilo que justifica o argumento dele de que as árvores, de fato, têm uma vida secreta (já que o comportamento é mostrado bem diante dos nossos olhos e ainda assim não percebemos nada graças à vida ocupada que levamos). Para você ter uma ideia, o engenheiro florestal elucida um sem-número de questões a respeito das amizades entre as árvores, a linguagem que usam para se comunicar, o processo de reprodução, os sinais da idade e até, PASME!, etiqueta entre as árvores e uma fucking ESCOLA para elas.

Sério, pessoal, isso tudo é muito interessante. Eu, por exemplo — que trabalho e estudo na UFAM (ou seja, na floresta) —, depois que li o livro sempre me flagro observando as árvores que consigo ver da minha sala. Fico imaginando o que será que elas estão conversando, me pergunto se elas me conhecem ou se nem ligam pra mim, ou se elas ficam com raiva quando alguns macacos vêm da baixa da égua pular nos galhos delas e comer as folhas e frutos. Consegue entender o que tô falando? Isso sem falar que elas podem estar tentando chamar minha atenção, neste exato momento que escrevo esta resenha.

Eu não quero dar uma de ambientalista poser, mas, pelo menos pra mim, esse livro funcionou como um óculos cujas lentes me permitem enxergar a beleza das árvores para além do óbvio. Devaneando ainda mais, isso me faz agregar valor à minha noção de pequeneza em relação ao universo e eu tenho um mindblow toda vez que lembro que, em algum lugar, a qualquer hora, uma árvore pode estar arrumando as malas para viajar até o Norte!

E eu fico todo arrepiado.

Bem, caro leitor, isso foi tudo por hoje.

Pode não ter sido tão legal quanto as resenhas de romance de época, mas você não vai se arrepender se der uma chance a esse livro. Pode ser uma agradável surpresa, vai por mim.

Há braços.

Vlaxio.

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6 thoughts on “Resenha: A vida secreta das árvores, de Peter Wohlleben”

  1. Que bacana! Eu tbm gosto muito de árvores, adoro globo repórter 😍
    Deve ser bastante interessante fazer um estudo mais aprofundado sobre esse tema, gostei da resenha, e ainda estou esperando a de “Boneco de pano”.

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  2. Eu adorei isso, ainda mais por ter assistido a reportagem das formigas. Eu fiquei pasma quando ela levantou o azulejo e tinha umas mil! E tu viu como aquelas criaturas maléficas são inteligentes pra krl?! Se as árvores, grandiosas como são, tiverem toda uma estrutura de pensamento e de cultuma e costumes, por que não ser uma? Poderíamos todos sermos árvores.
    Bjs

    Curtido por 1 pessoa

  3. Ganhei esse livro recentemente em um sorteio. No inicio não fiquei muito empolgada, ma sli algumas resenhas e criticas ótimas, o que fez despertar meu interesse. Assim que chegar vou ler e venho dizer o que achei.
    Beijão!

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