Resenhas

Ursula K. Le Guin e O feiticeiro de Terramar

Olá, leitores!

Eu estou gostando muito de escrever postagens sem a pretensão de transformar em resenhas, por isso esta será mais uma. Para mim, é divertido pegar um aspecto que me chamou atenção e discuti-lo com vocês. E vocês, como bons leitores que são, ao se interessarem, lerão a obra e perceberão outros pontos igualmente interessantes. Especialmente hoje o que irei conversar não está no enredo, mas no posfácio de 5 páginas da edição brasileira, lançada pela Editora Arqueiro.

Tenho certeza que vocês já pegaram um livro, na maior parte das vezes sendo de um autor que nós amamos desesperadamente, e sentiram vontade de grudar post-it nele todo. Ou até de riscar, se houver alguém versado nessa prática maligna. Eu senti vontade foi de tirar xerox do posfácio e distribuir para os tolos, para os confusos, para os amantes de fantasia e/ou de uma boa leitura, para os ativistas, para os meus amigos e inimigos. Eu só queria, e ainda quero, que as pessoas leiam Ursula K. Le Guin e se apaixonem.

O feiticeiro de terramar
O feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin.

A chave principal no posfácio d’O feiticeiro de Terramar é “em 1967”; já dá pra imaginar que tem todo um contexto histórico envolvido só com essa entrada. Em 1967, O feiticeiro de Terramar, apesar de certa originalidade, apresentava em seus alicerces o suficiente de um caráter convencional para ser bem aceito. A velha e amada ‘trajetória do herói’, sendo aplicada a um livro de fantasia com uma linguagem acessível para qualquer faixa etária.

Ursula era uma mulher que escrevia fantasia e ficção-científica na década de 1960, portanto, sabia quais batalhas lutar e como devia apresentar seu trabalho. Contudo, acabou deixando subentendida uma série de coisas, sem chamar atenção para elas, que mostravam um posicionamento bem forte acerca de várias discussões. No posfácio, ela evidencia quais posicionamentos ficaram subentendidos e revela alguns pontos que eu deixei passar desapercebidos durante a leitura. Um dos primeiros faz referência ao papel da mulher na fantasia:

De qualquer forma, as histórias não eram sobre as mulheres; eram sobre os homens, o que os homens faziam e o que era importante para eles.

Não vamos ter uma mulher forte em evidência, lembrem-se que ela deixou o livro ser tradicional o suficiente para não ser renegado. Entretanto, ela não deixará as mulheres serem subestimadas, nada daquela história manjada de princesa que precisa ser salva. O que ela nos dá é uma vilã menor, mesmo não sendo o principal mal a ser superado, mas que se torna uma pedra no caminho do seu protagonista. Esta vilã aparece duas vezes na história: quando menina e quando mulher. Uma mulher branca.

No primeiro capítulo, os invasores de Kargad são brancos. Serret, que traiu Ged quando era menina e mulher, é branca.

Isso nos faz perceber outro posicionamento incrível que a autora tem. Veja só: podemos não ter uma mulher poderosa como centro, mas o que ela nos dá são personagens, em sua maioria, de pele escura, “cobre e marrom até o negro dos domínios do Sul e do Leste”, como protagonista e aliados. Ou seja, não eram pessoas brancas salvando o reino e o mundo; na verdade, Ursula os apresenta como o pior tipo. Segundo a autora:

Um grande número de leitores brancos, em 1967, não estava pronto para aceitar um herói de pele escura. Mas eles não estavam esperando por isso.

Nem eu estava esperando por isso! Eu pensei em um livro de fantasia no grosso, aquele tipo que segue padrões bem estipulados e que te encantam pela qualidade do universo em que estão inseridos. Tapa na cara! Percebi que o protagonista não era caucasiano bem depois dos primeiros capítulos, seu melhor amigo é negro e seus aliados são o que eles quiserem ser, menos brancos. Pode parecer extremista, isso ocorre porque estou dizendo a vocês na lata, mas durante o livro você mal percebe. Pensa nisso em 1967!

Eu me opus à tradição racista, “tomei uma posição” — mas em silêncio, e isso passou praticamente desapercebido.

Outro ponto ao qual a autora alude é sobre os combates, as guerras, tão presentes nos livros de fantasia. É sempre a luta do Davi contra o Golias, a luta contra um grande mal, um inimigo injusto. Eles contra Nós. O Bem contra o Mal. Que se reduz a nada mais que um banho de sangue. Onde o herói se rebaixa a atuar como o vilão, mas por estar no lado certo da linha não é condenado. Este é mais um quesito em que a obra diverge de um arco tradicional, pois, para a autora:

Um herói cujo heroísmo consiste em matar pessoas não me interessa, e detesto as orgias hormonais de guerra das mídias visuais, o massacre mecânico de batalhões infinitos de demônios vestidos de preto, com olhos vermelhos e dentes amarelos.

Seu herói precisa lutar contra um mal desconhecido. A trajetória mais árdua é a da descoberta. Não só descobrir quem é esse inimigo, mas descobrir a si mesmo. A guerra é um lapso destrutivo, mas o conhecimento é a vitória. Uma vitória que não sinaliza o fim de uma jornada, mas o início de uma vida de conquistas.

O que discutimos aqui só foi possível porque uma frase desse posfácio não queria sair de jeito nenhuma da minha cabeça, e a ironia dela:

“Fantasia produzida na linha de montagem me dá calafrios.”

De fato, eu tenho que concordar. O que temos hoje é uma avalanche de livros do tipo “se você leu um, leu todos”. Alguns críticos especializados falam sobre as distopias atuais serem cópias das escritas na década de 1980, só foram acrescidas de um romance juvenil. Em seu cerne, são a mesma coisa. Inspiração é bom, há até um livro sobre isso. Ruim é ler um livro que mistura vários aspectos de obras atuais. Você leu, eu li e nós percebemos juntos e comentamos sobre isso.

O que eu não aceito, além de dizerem que é preconceito literário, é como há pessoas que enchem a boca para falar que “é muito bom, maravilhoso, você tem que ler!”. São pessoas que leem, mas não desenvolveram um senso crítico. Nada contra quem gosta de livro X, Y ou Z, mas vamos usar nossas experiências de leitura e filtrar o que não passa de um clipping. Se vocês não concordam, tudo bem, mas argumentem.

É muito fácil dizer para parar, que é preconceito literário, que não pode falar isso porque cada um gosta do que gosta. Devemos expressar nossas opiniões e embasá-las, devemos argumentar para sustentar o que defendemos. Em 1967, o que a Ursula fez foi original com traços tradicionais. Hoje, existem milhões de livros que seguem a sua linha. Hoje, eu posso achar que livros que são cópias carbonos de outros livros são o cúmulo. Amanhã, posso achar que a única solução para um problema social é recorrer às obras de determinada época para serem reescritas.

Tudo depende do tempo, o livro da Ursula, o posfácio incrível inserido depois de anos e a minha opinião acerca de alguns livros. Por enquanto, me dá calafrios livros sem originalidade nenhuma, esboços “adaptados” dos originais.

Sobre o enredo de O feiticeiro de Terramar, leiam o livro. Sério! LEIAM. O. LIVRO. E entendam a definição de magia, a importância das criaturas mágicas, a força de uma amizade, o amadurecimento pelos erros. Para finalizar, a ideia do livro é:

Ora, Merlin e Gandalf devem ter sido jovens um dia, certo? E quando eles eram tolos e imaturos, como aprenderam a ser magos?

Este é um livro sobre um mago de Gont, o mais poderoso mago de todos os tempos. E a aventura? Ela é tida como uma lenda. Dela foi feita uma canção que pouco resta. Mas, para esse mago, ela foi fundamental.

Beijos, May.

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7 thoughts on “Ursula K. Le Guin e O feiticeiro de Terramar”

  1. Primeiramente: Que resenha foda!

    Segundamente: Lerei esse livro muito em breve.

    Terceiramente: Risco meus livros, sempre risquei e sempre riscarei, até que a morte me leve desse mundo. Marcar a passagem de um texto, por exemplo, é fazer o um elogio ao escritor. Se o livro é meu e não tem nenhuma marcação, significa que eu achei uma merda.

    Quartamente: Aceita que entra mais fácil.

    ;P

    Curtido por 1 pessoa

    1. Rindo horrores com o “Aceita que entra mais fácil”.
      Genteeeeee
      Eu tenho alguns livros que a cada vez que releio marco algo que anteriormente não me chamou a atenção.
      Marcador verde cana neles!!

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  2. Sinto a mesma vontade, dá vontade de contar para todo mundo sobre o livro, ou de colocar na cabeça nas pessoas, de alguma maneira, tudo que eu li. Eu uso marcador de texto nos livros, mas não em todos.
    Essa resenha abalou meu psicológico, eu não costumo ter senso crítico, dificilmente acho um livro ruim.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Também tem-se a considerar o seu gosto, você lê a sinopse e sabe que vai gostar do livro. Ele te enrola, porque você já tem a prévia ideia — advindas de leituras anteriores — de que irá gostar daquele tipo de obra. Ter senso crítico não é não gostar de algo, é discutir os pontos fortes e fracos dentro de um livro usando de leituras anteriores. E você, eu sei, faz isso. Nós conversamos sobre o Richard não descer na nossa goela. E isso é uma crítica ao personagem, ou a forma em que a Julia construiu o elenco do tal livro.
      Bjs

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  3. Um amigo que ama literatura fantástica me disse ser um sacrilégio eu não ter exercitado a minha leitura com Ursula K. Le Guin.
    Que capa linda é essa?! Socorro 😍
    Olhe, não ando por aí riscando meus livros, mas desenvolvi o habito maligno de marcá-los com marcador de texto. Desenvolvi isso ao ler Comer Rezar Amar, já estava faltando pos it (se tornou um dos meus livros preferidos). Mas meu coração ainda dói quando faço isso com os livros da Clarice Lispector.

    Mas voltando ao livro May, vou dar uma olhada. Não sabia da época que tinha sido escrito.

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