Nada a ver

Textos grandes ou pequenos? A escrita como ferramenta de argumentação dos blogs

Olá, leitores!

Eu estava refletindo sobre várias coisas: a vida, o universo, meu projeto e tudo o mais. Aconteceu de me deparar com uma grande pegadinha da vida, o holismo dos acontecimentos mais recentes, que explodiram em uma conexão fenomenal às 3h da manhã na minha cabeça.

E segundo o dicionário, holístico ou holista é um adjetivo que classifica alguma coisa relacionada com o holismo, ou seja, que procura compreender os fenômenos na sua totalidade e globalidade.

— FUSI

Para quem não vive no planeta Terra, há uma série… PARA! Com certeza, há de haver muitos extraterrestres fãs de Douglas Adams. Voltando, tem essa série de TV, baseada nos livros desse cara citado anteriormente, chamada Dirk Gently’s Holistic Detective Agency. Nessa série, tanto a assassina quanto o detetive se caracterizam como holísticos, pois eles tendem a associar fatos que não parecem se conectarem até encontrarem um todo.

Uma semana atrás, eu estava super estressada porque tinha de apresentar um trabalho no 1º Encontro Internacional SDisCon: Múltiplas Linguagens, Semiótica e Discurso na Contemporaneidade. Eu gostei muito, muito mesmo, do evento. Das palestras e dos trabalhos que eu pude assistir. Um desses trabalhos falava sobre a descaracterização das obras literários no cinema, apresentado por uma aluna de graduação do interior do estado.

Observação: na cidade dela não tem nem cinema nem livraria, e tem uma Internet de merda.

Eu captei algumas coisas bem interessantes sobre a pesquisa, que irei tentar compartilhar com vocês de forma breve e sem entrar na parte teórica.

Nós criamos, elaboramos, construímos, imagens mentais das obras quando as lemos; essas imagens são subjetivas. Ou seja, lemos o mesmo livro, mas imaginamos os personagens e os cenários de formas diferentes nas nossas cabeças. E as pessoas que escrevem os roteiros, aquelas que queremos matar de vez em quando, têm sua própria imagem acerca da obra. Quando uma obra é adaptada, há uma necessidade de alinhar o roteiro a várias diretrizes. Sendo uma dessas, a comercial. Afinal, é um produto.

Então, há a decepção. Aquele filme não corresponde com a imagem que você fez da obra que o inspirou, isso explica muito bem o porquê de os leitores raramente gostarem de obras literárias que foram adaptadas. Existem, mesmo que raras vezes, excelentes adaptações. Tão raro, que penso que o termo ‘adaptado de’ deve ser substituído por ‘inspirado em’. “Foi mera inspiração” cai melhor do que dizer que é adaptado de algo quando, na verdade, não chega nem próximo daquilo. E, obviamente, tira da reta das críticas dos fãs mais ferrenhos, que nunca vão gostar daquele filme. Sempre vai haver um “podia ter essa cena”, “eles não deviam ter tirado X personagem”, “podia ter escolhido um ator mais parecido”…

Okay, vocês entenderam essa parte do projeto dela. O que aconteceu nas discussões após foi uma das coisas que clicaram na minha cabeça ontem, imagem versus descrição. Por que leva mais tempo ler um livro que assistir um filme? Não é só por que cortaram um monte das nossas cenas favoritas, não! O escritor vai construir através das palavras uma imagem na nossa cabeça. Ele irá descrever a imagem em quanto, no filme, você vê aquela imagem.

O que nós vemos na imagem acima é uma bela e delicada casa verde turquesa, cerca branca, cheia de flores e grama bem verde. Ela parece pequena para os padrões americanos, mas acolhedora. Há, ainda, uma bicicleta na frente da casa, encostada na cerca, na calçada da rua. E que fofa é essa bicicleta, ela combina com o tom turquesa da casa e tem um belo arranjo feminino no guidom.

Vocês captaram muitas das coisas que eu escrevi em milésimos de segundo, olhando uma imagem que no filme aparece em um instante rápido e supérfluo. Essa imagem pode dizer muito das personagens, que elas têm uma vida financeira estável, que há de viver só mulheres nela por ser tão feminina, que pelo menos há quem use de transporte principal a bicicleta para se locomover todos os dias e esta é uma mulher.

Um dia antes deste trabalho ser apresentado, houve a abertura do evento seguida de várias palestras. A Dra. Mirna Feitoza Pereira, da Universidade Federal do Amazonas, esteve à frente de uma dessas palestras, Semiótica: perspectiva de investigação e ensino na contemporaneidade. Ela propôs, simplesmente, a ideia da representação do pensamento por meio de diagramas. Já imaginou? Um trabalho de meses, todas as suas conexões, representado em um diagrama.

O diagrama não como uma ilustração de um ponto do trabalho, mas o trabalho em si. A síntese, ícone do pensamento. Ou seja, a síntese do pensamento.

Sendo assim, foi apontado o seguinte: o diagrama é o trabalho. Ele é o resultado e não precisaria de mais nada do que ele próprio. Contudo, como defender seus resultados? É nesse ponto que entra a linguagem escrita, pois é nela que se explica a trajetória da pesquisa. É na linguagem escrita que se encontra o argumento, a linguagem escrita como o ambiente da argumentação.

SAMSUNG CSC
Monique Braga e Tammy Rosas

No mês passado, aconteceu o The Nerds Show, organizado pela Tammy Rosas, do blog Circo Literário. Na entrevista com a Monique Braga, do blog Viagens Literárias, foi questionado acerca dos textos grandes nos blogs literários e como isto poderia se apresentar como um desmotivador. Ambas, Monique e Tammy, deixaram bem claro que não gostam de tais textos.

De certa forma, eu fiquei com isso preso na goela. Não como uma crítica à minha pessoa, mas pensando como um blogueiro pode me convencer que gostou ou desgostou de um livro com uma resenha de dois parágrafos de cinco linhas cada e uma sinopse. E como eu poderia convencer alguém a ler um livro sem apresentá-lo, descrevê-lo, mostrar o que eu gostei e desgostei, e, ainda assim, o texto ficar reduzido.

E foi isso que explodiu na minha cabeça ontem!

Resenha é resumo crítico. É claro que ninguém está escrevendo para a faculdade, mas resenha é um resumo que contém uma crítica acerca de um determinado objeto. Para você criticar algo, é necessário argumentos. Antes de você argumentar, criam-se imagens acerca do conteúdo e depois infere-se acerca desses conteúdos, essas imagens são a base do argumento. Por exemplo:

O protagonista é alto, moreno, bonito e sensual. Talvez ele não seja a solução dos problemas da nossa heroína, mas a causa de muitos. Ele é um homem de muitos amigos, deveras amado pelas prostitutas e possuidor do título de libertino Classe A. É impossível não se divertir, ele dá um ar brincalhão à estória.

Descrevi o protagonista, inferi sobre ele e o apresentei como um argumento da qualidade do livro. Só que um argumento não basta, as resenhas são compostas de muitos. Para mim, uma resenha onde o blogueiro diz “gostei, recomendo”, “divertido”, “para quem gostou do livro Y” e et cetera, não é resenha. Por que você gostou? O que você viu no livro que o torna divertido? Quais são os aspectos que se assemelham à obra Y?

Eu entendo que textos longos podem ser cansativos, mas resenhas sem argumentos são vazias e refletem um trabalho preguiçoso. Um texto longo pode ser tornado dinâmico com memes, vídeos, imagens e o que sua criatividade conseguir alcançar. Sejam parágrafos mais curtos, citações intercaladas, listas. Mas que o texto nunca deve deixar de ser é o ambiente da argumentação.

É evidente que os blogs literários estão em uma desvantagem imensa em frente dos booktubers. Primeiro, há pressa. A pressa de se obter uma informação instantânea, relacionando isso a tudo e não só para saber sobre um livro específico. Os booktubers têm um passo à frente na questão de linguagens disponíveis, que passem ao leitor de forma mais rápida e direta o que ele achou da obra. Sendo assim, enquanto eu escrevo e você interpreta de várias formas, a pessoa do vídeo vai falar, gesticular e apresentar através das expressões no rosto. Há que se levar em conta que aparenta uma credibilidade maior, você está vendo se a pessoa gostou de fato. Mentir ou falar a verdade é muito associado com expressão.

Os olhos não mentem

De forma alguma desmereço o trabalho deles, há muito mais do que aqueles breves 8 minutos de vídeo. Horas de gravação e erros, mais horas editando e mais ainda implorando aos deuses da Internet para não lhe falharem. E tem que ter muita coragem, dar a cara a tapa. Também existem questões acerca do como apresentar, como se posicionar, como criar conteúdo que o diferencie.

E é nesse embalo que termino este texto, criemos conteúdo que nos diferencie, mas nunca deixemos de argumentar e expressar de forma concisa nossas opiniões. Independentemente do tamanho do texto.

Beijos, May.

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8 thoughts on “Textos grandes ou pequenos? A escrita como ferramenta de argumentação dos blogs”

  1. É uma discussão muito válida. Quem lê minhas resenhas, já conhece o calhamaço que eu escrevo. Mas é como você disse, trata-se de um resumo “crítico”, portanto, necessita de uma construção de argumentos que deem sentido à crítica, do contrário o texto se torna um amontoado de palavras vazias sem relevância para a obra resenhada. Quando vou atrás de uma resenha nos blogs estrangeiros, por exemplo, procuro sempre uma boa quantidade de parágrafos, porque sei que vou encontrar informações suficientes para desenhar a obra na minha mente, ao contrário de resenhas com poucas linhas, que, das duas, uma: ou foram feitas por obrigação das parcerias, ou para entrar no hype do que todo mundo está lendo no momento. Quanto à parte da semiótica, isso é bem parecido com o que Saussure chama de “imagem acústica”, que, basicamente, é a mentalização imagética feita por uma indução prévia (como um texto lido, ou uma frase ouvida). Se eu escrevo “a casa está em chamas”, vamos todos mentalizar imagens diferentes, mas sempre vai haver uma casa pegando fogo, e não uma cachoeira de chocolate, por exemplo, ou uma cesta de maçãs. O conceito mental que a gente tem é baseado na nossa experiência de vida, que adquirimos por meio de associações semióticas que fazemos todos os dias da nossa existência, para sempre, amém. No fim das contas, acho que gostar ou não de textos longos vai de cada indivíduo e da propensão que ele tem de consumir determinado assunto. Eu poderia ficar horas lendo ou assistindo vídeos sobre semiótica e teoria do pensamento complexo, mas não dou um minuto sequer da minha vida a textos e vídeos que contenham violência gratuita ou apologia ao racismo. Afinal, não se trata de uma questão de ponto de vista. Trata-se de uma questão de compreensão semiótica. 😉

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    1. Sobre a casa em fogo, algumas pessoas são estranhas… Tipo a irmã do Todd, de Dirk Gently’s. Todos os seus argumentos são válidos, pior coisa que tem é escrever algo por pura e forçada obrigação. Muito obrigada por sua colaboração!
      Bjs

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  2. Eu particularmente, gosto das resenhas apresentadas neste blog, assim que abro a página, vejo que a maioria das resenhas são grandes, só que eu vou lendo, e sem perceber, já chego ao fim . Eu não me imagino lendo uma resenha que não descreva pelo menos uma cena , só a sinopse não basta, realmente.

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    1. Eu acho assim, Aline, sinopse eu leio em qualquer lugar. Quando você entra num blog, ou você quer opinião sobre um livro ou quer ver indicações de leitura. E, claro, você quer saber se é bom ou ruim e o porque de ser bom ou ruim. Então, de fato, você está muito certa em gostar da gente 😉

      Bjs

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  3. Que discursão deliciosa é essa aqui?!
    Cheguei!
    Então, vamos por parte…
    Estou em uma disciplina chamada Infanto-juvenil. Analisamos diversas obras infantis e juvenis e também o “como escrever para crianças”. Bem, no momento estamos analisando as diferentes versões dos contos de fadas.
    Ah! Minha gente, nunca gostei de contos de fadas, e o único que eu tinha certa admiração caiu por terra tem pouco temo: A Bela e a Fera.
    Bom, esses contos foram recontados diversas vezes, alguns livros são mais curtos, outros mais longos…
    E aí chegamos às adaptações.
    Lembra-se do estardalhaço de “A Bela e a Fera” que foi lançado esse ano com a maravilhosa Emma Watson?
    Então, o filme foi vendido como algo revolucionário. Sinceramente? Mais do mesmo! Apenas perpetua a forma “correta” de se viver imposta pela burguesia. O fato de a Bela ser uma mulher sensata e apaixonada por livros não apaga inúmeros itens patriarcais que aparecem nos livros e nos filmes.

    Bem, muita gente crucificou a Emma Watson por ser feminista, ser envolvida com diversos projetos e aceitar mesmo assim o papel. A atriz até fez algumas exigências que foram atendidas, como não usar espartilho e saltos desconfortáveis.
    Na minha humilde opinião? O filme é magnifico visualmente falando, as atuações estão ótimas, direção de fotografia, as músicas originais, é fiel ao desenho que eu tinha em fita cassete aos sete anos de idade, mas revolucionário? Passa longe!
    O filme dividiu opiniões, e é aí que chegamos ao que você citou “uma obra é adaptada, há uma necessidade de alinhar o roteiro a várias diretrizes. Sendo uma dessas, a comercial. Afinal, é um produto.”
    Temos personagens negros no filme? Temos sim!
    Temos o tão falando personagem gay? Temos!
    E como isso foi representado?
    Um gay que se transforma no armário, personagens estereotipados. Enfim, um produto para ser vendido. Comentando outra coisa que você observou a famosa decepção das pessoas em relação às obras que viram filmes e ficam completamente diferentes do imaginado. Acho que as pessoas esquecem que as nossas interpretações de livros, filmes, músicas, quadros, a arte em geral, depende muito da nossa visão, vivencias e bagagem de mundo. Não tem como agradar a todos, eu não vou imaginar algo igual à outra pessoa.

    Partindo agora para o tamanho dos textos, acho impossível escrever uma resenha sem colocar argumentos e mais impossível ainda não colocar de forma explicita sua opinião no que está sendo escrito, o que de certa forma leva ao aumento do texto. O que você escreveu pode ou não chamar a atenção do leitor, pode chamar a atenção inicialmente e após a leitura da obra eu simplesmente não concordar em quase nada com você. E pensando no cansaço dos textos escritos para blog, eu acho que isso vai muito da linguagem utilizada, o público que seria alvo. Muitas vezes conseguimos dizer várias coisas com um texto conciso. Para finalizar, acredito que não importa o tamanho do texto, desde que ele tenha embasamento, embasamento esse que vem dos argumentos apresentados por aquele que o escreveu, posso não concordar com alguns, mas é daí que nasce grandes discussões válidas, se isso vai tornar o texto mais longo, tranquilo, o que não dar para digerir é textos sem alicerces, rasos ou que nos faça sentirmos indiferentes ao que lemos.
    Socorro! Escrevi demais!
    Beijos!

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    1. Ohhhh Samy, você TOTALMENTE pegou o espirito da coisa!

      Eu tenho que acrescentar que, acerca da discussão da Emma como Bela, independente de ser feminista ou não, ela precisa trabalhar assim com eu e como você e como as milhares de pessoas que só tem titica de galinha na cabeça ao criticá-la incessantemente batendo na mesma tecla. Como se fosse a afirmação fosse resultante das premissas igual a um silogismo: se Emma Watson é feministas e A Bela e a Fera não é feminista; logo, Emma Watson não pode atuar em A Bela e a Fera. Lógica de gente estranha.

      O que eu acho é que, assim como você fez acerca da integração de personagens gays e negros, é preciso um olhar social acerca das representações que são feitas no filme. Isso se associa a socio-cognição. É um filme cheio de problemas que empregou uma feminista em alta para dar uma amenizada, sim!

      E, por fim, você pegou realmente o espirito dos textos! Sendo grande ou pequeno, precisa de argumentos e não um emaranhado de frases com conotações rasas.

      Beijos, May.

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      1. May em relação a Emma falei algo parecido na aula.
        Tipo: gente é o trabalho da criatura. Ela não está prejudicando ninguém e citei uma situação que ocorreu varia vezes comigo.
        Sou professora, uma aluna pediu ajuda nas atividades de religião, eu sou praticamente uma descrente, na verdade minhas crenças passam longe do catolicismo, vou chegar para a aluna e dizer que não vou ajudá-la porque não concordo e não acredito no que está na bíblia?
        Não vou ajudá-la porque as questões expostas no livro são altamente alienados?
        Eu sou paga para ajudá-la nas disciplinas de humanas. Ora essa! Minhas contas não se pagam sozinhas.
        Não estou traindo minha ideias ou deixando de auxiliar ninguém. Apenas estou trabalhando.
        Mas seres humanos tem cada ideia sem noção 😒

        Curtido por 1 pessoa

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