Leitor Contagiante

Precisamos falar sobre Orgulho

“A comunidade LGBTQ+ não precisa de um dia para comemorar o Orgulho”. Eu gostaria que essa frase inicial fosse verdadeira, mas você e eu sabemos que a situação é um pouco mais complexa que isso.

orgulhe-se

Em retrospecto, dia desses aprendi estudando sobre a Teoria da Complexidade que na verdade, pasmem!, o complexo mora exatamente na simplicidade. É chamado de complexo porque é ridiculamente difícil fazer qualquer coisa se tornar simples.

Nesse sentido, dizer que comunidade LGBTQ+ não precisa de um dia para comemorar o Orgulho seria incorrer no erro de transformar essa situação em simples, só que do jeito errado. Por quê?, você pode perguntar. A resposta, no entanto, traz um conjunto de pontos de vistas que, juntos, criam um caleidoscópio de afirmações divergentes para cada caso.

Por exemplo: existem hoje (ainda bem) várias famílias que aceitam seus filhos e filhas pelo que eles/elas realmente são. Famílias essas que, embora somem pouco diante das outras famílias contrárias, não passam despercebidas exatamente por se sobressaírem a um padrão negativo. Para os LGBTQ+’s dessas famílias, Orgulho pode significar ser aceito, ou não precisar se esconder, ou mesmo não sentir medo dentro da própria casa.

Se todas as famílias fossem assim, talvez de fato não precisássemos de Orgulho.

Mas isso não é tão “simples”, é?

O que mais existe (e não vou generalizar, porque sei que, aos poucos, o mundo está mudando, mesmo que a passos de lesma) são famílias nas quais a realidade da aceitação é utópica. Famílias que podem até não agredir físico-verbo-psicologicamente seus filhos e filhas, mas que, vez ou outra, soltam frases aqui e ali com poder de ferir tão forte quanto as agressões diretas.

Famílias que preferem “um filho bandido a um filho veado”. Famílias que alardeiam que “com o filho dos outros, pode, mas se o meu for eu mato”. Famílias que sugerem que “isso é só uma fase, você não deve mais andar com aquele grupinho de amigos”. Famílias que “Deus vai te curar, a partir de amanhã vamos orar todo dia na igreja por você”. Famílias que “você pode ser veado, mas te proíbo de virar mulherzinha e andar por aí que nem uma moça”.

É essa realidade – inglória, eu sei – que traz a necessidade de um dia para comemorar o Orgulho. Não porque precisamos disso. Se não houver dia do Orgulho, vamos continuar vivendo, vamos continuar amando, vamos continuar incomodando.

O Dia do Orgulho, meu caro leitor, é necessário para fazer o óbvio ficar mais óbvio. Para lembrar que existe luta, mas existem conquistas também. Para dar ciência à sociedade que a regressão não será tolerada. Para impregnar nas pessoas o senso de que o amor, tal como a identidade individual e o moral de cada um, não depende da genitália. E, finalmente, para cantar ao mundo uma canção que une os diferentes, agrega os excluídos, inclui os menosprezados, abraça os expulsos e aceita, sem acepção, TODAS AS PESSOAS.

O que eu gostaria que você entendesse é que, para ter Orgulho, você não precisa se rebelar em Stonewall. Para ter Orgulho, você não precisa ser assinado como Harvey Milk. Para ter Orgulho, você não precisa ser um ativista desconhecido que devota a vida para a causa. Para ter Orgulho, você não precisa ser um número qualquer na estatística de mortos por LGBTQ+fobia.

Talvez isso seja o que os outros querem que você pense.

Mas… Sinceramente?

Penso que, para ter Orgulho, você só precisa deixar-se orgulhar por todos que lutaram por você, que lutam e que ainda lutarão. Mesmo entre a comunidade, ter Orgulho também é uma declaração pública, de sorte que orgulhar-se de algo que aos olhos de muitos deveria ser passível de condenação acaba se configurando como um posicionamento acerca do que você pensa. Um atestado de que você se importa pelo menos um pouco.

Em sendo assim, você não deve se orgulhar apenas hoje, 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTQ+. É permitido se orgulhar nos outros dias do ano também. Regozijar-se nas vitórias e aprender com as perdas. Cultivar a união, podar as divergências e exterminar o preconceito. Fazer perdurar o sentimento de liberdade.

Tem mais uma coisa! A gente deixa você que é hétero se orgulhar no nosso dia também, viu? Vale usar aqui a analogia do coração de mãe e dizer que na nossa comunidade sempre há espaço para mais um. E mais dois. Mais alguns milhares e milhares, no mundo inteiro.

O Dia do Orgulho existe para uma infinidade de coisas, mas não pretendemos dizer a você para deixar sua religião, nem queremos obrigá-lo/la a ver o mundo com nossas lentes, sobretudo sugerir que você deve mudar seu jeito. A única coisa que queremos é Respeito.

Respeito ao nosso Orgulho. Respeito à nossa liberdade. Respeito às formas de amar que praticamos. Respeito ao nosso espaço. Respeito ao nosso direito de ter os mesmos direitos que todos. Respeito ao nosso dialeto. Respeito ao nosso brilho colorido. E, acima de todas as coisas, respeito a nós como pessoas de bem, capazes dos mesmos feitos, das mesmas conquistas, e bons o suficiente para ocupar os mesmos espaços na sociedade.

Em nome da Equipe do Silêncio Contagiante, deixo aqui nossas felicitações a toda a Comunidade LGBTQ+ por mais um dia de ser orgulhar. Partimos da posição de que o amor rege todo o comportamento humano, portanto, olhem para o céu e imaginem cada nuvem que conseguirem ver como um pedacinho de amor que compartilhamos com vocês.

Um forte abraço.

Staff.

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7 thoughts on “Precisamos falar sobre Orgulho”

  1. Maravilhoso esse texto. Os fatos que são destacados são totalmente monótonos na “vida” de algumas pessoas, principalmente nas quais “vivem” suas “vidas” em torno de mentiras e falsidade, tudo apenas para não causar rebuliço em terceiros impoimportantes, assim mutilando e distanciando cada vez mas a sua felicidade. Confesso que me encontrei em tudo 💧.

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    1. Ficamos felizes que tenha gostado, João. Você também falou tudo: “mutilando e distanciando cada vez mais a sua felicidade”. Isso é muito real, cara…

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  2. Daqueles textos que fazem a diferença. Obrigada por nos proporcionar uma leitura dessa qualidade.
    Já passei por várias situações e acredite, é aquele “pequeno” detalhe dentro e fora do meio familiar que nos magoa absurdamente. Fora inúmeros outros problemas, muitos citados por você.
    Que cada um de nós possa se orgulhar todos os dias pelo pessoa que é. 🌈

    Curtido por 1 pessoa

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