Resenhas

Para todos os garotos que já amei, de Jenny Han, e Não tira o batom vermelho, de JoutJout

Olá, leitores!

Odeio começar posts assim, mas preciso situá-los para o fato de que estou em fim de semestre, que me esforcei para passar em todos as matérias pela primeira vez em 4 anos e que estou fechando um projeto de pesquisa, e é por essas e outras que o blog se encontra um pouco largado. Contudo, respondendo aos pedidos das nossas amadas leitoras Aline e Samy, resolvi “reler” Para todos os garotos que já amei e resenhá-lo para vocês.

Por que as aspas? Da primeira vez que eu peguei esse livro, eu não o terminei. Li mais da metade, mas havia algo me incomodando e eu não conseguia identificar muito bem o quê. Entretanto, essa releitura me abriu os olhos, talvez seja por uma agregação de conteúdos feministas que eu internalizei nos últimos dois anos. Queria poder dizer a vocês só coisas incríveis, contudo, nem tudo são flores e eu sou sincera demais. Se fosse para eu adoçar a vida para vocês, enviaria jujubas todos os dias.

Eu sinto que pulei alguma coisa, tipo o enredo do livro… Coisinha simples. Sendo assim:

Para todos os garotos que já amei, de Jenny Han. Editora Intrínseca, 2015.

Lara Jean é uma das três irmãs Song, a do meio para ser mais exata, filha de mãe coreana e pai americano. Se eu não me engano, ela tem dezessete anos, está prestes a começar o segundo ano do Ensino Médio e passando por uma grande mudança na sua vida familiar: sua irmã mais velha está se mudando para a Escócia. Margot é o tipo de irmã mais velha que se doou completamente à família após a morte da mãe delas, Lara Jean está feliz que ela vá começar a viver mais mesmo que seja longe deles.

Margot tem um namorado, Josh. Josh é um menino incrível, doce e amável. Na verdade, todos na casa de Lara Jean — incluindo o pai das irmãs Song — amam Josh. Contudo, Margot decide que não irá para faculdade namorando e “termina” com ele. Outras aspas aqui, pois Lara Jean não acredita que eles de fato terminaram, apesar de que quando a irmã toma uma decisão é aquilo e pronto. Margot tenta parecer resoluta, mas está obviamente triste, e Lara Jean tenta conciliar o fato de Josh não ser mais deles.

O ponto mais importante são as cartas, cartas que Lara Jean escreve para os garotos que ela já amou, cinco no total, e que nunca foram enviadas. Não são cartas de amor, mas cartas para exorcizar o sentimento. Quando ela escreve essas cartas é para terminar, se libertar de um amor não correspondido. São relacionamentos que nunca aconteceram, sempre ficaram no mundo das ideias. Ela guarda essas cartas em uma caixa de chapéu que sua mãe lhe deu, um lugar para guardar coisas especiais.

SAMSUNG CSC

Acontece que um dia, no início do ano letivo, Peter K., um dos garotos que ela amou, a encontra no corredor do colégio muito chateado e se defendendo contra ter herpes, sempre comer a última fatia da pizza e ter roubado o primeiro beijo de Lara Jean. Tam, tam, tam! As cartas de Lara Jean foram enviadas, a caixa não está em nenhum lugar e os nervos dela estão explodindo. E sabe quem pode receber umas dessas 5 cartas? Isso mesmo, Josh, o amor da vida da irmã dela e também o seu.

Apesar de escrever uma carta para o Josh no mesmo dia que ele começou a namorar a irmã, Lara Jean começa a entender que nunca deixou o sentimento completamente de lado. Então chega o temido dia, Josh vai atrás de Lara Jean para falar sobre a tal carta e perguntar se aquilo era mesmo verdade. Ela tenta desmentir e, em um ato impulsivo, se joga em Peter e o beija com vontade, e esse é para mim o maior erro da vida dela inteira.

Ela e Peter começam a namorar de mentirinha, ela para despistar o Josh e ele para provocar ciúmes na namorada que o trocou por um cara mais velho. Josh, em um momento frágil, começa uma certa perseguição a Lara Jean. Lara Jean começa a achar que há mais no Peter do que o cara arrogante e egocêntrico que ele é. Mas não, ele é assim mesmo, querida. Peter pula e corre para a casa da ex sempre que ela estala os dedos, diz que Lara Jean nunca iria entender, e começa a abrir um precedente ruim.

Qualquer coisa que Peter não goste, o torna sensível. Lara Jean sempre pede desculpas, como se o erro fosse dela por fim. Ela não consegue dizer não a ele, é impossível não fazer o que ele quer do jeito que ele quer. Eles nem namoram de verdade, mas ela se pendura em cada palavra, em cada sorriso e tende a analisar as coisas que o deixa triste para poder evitá-las. Peter não me convence que ele é mais do que aquele cara de sempre, ela tira qualidades de mudanças de humor.

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Apesar de como alguém tenha falado do livro para vocês, esse livro não se resume às cartas, até porque começa falando sobre um assunto comum de forma delicada: família. Isso é um baita ponto positivo; outro é a qualidade da escrita da Jenny Han. Ela arrasa, suas histórias são lineares e bem construídas. Um dos pontos negativos são as pontas soltas que ela larga na história, já que era para ser um livro único. O que eu duvido muito, tanto que surgiram mais dois livros depois. Outra coisa, faltou muito do lado coreano da Lara Jean! Me venderam o livro por causa disso e cadê? Praticamente, não tem!

Outra coisa muito importante: relacionamento abusivo. Mais uma vez: RELACIONAMENTO ABUSIVO. É isso o que ela e Peter têm, um relacionamento no qual ela tem que ser sempre submissa aos desejos dele acima dos dela. No qual a opinião dela deve ser vista como um erro, e ele transforma o que ela diz de tal forma que ela pede desculpas sem ter culpa alguma. E eu pergunto a vocês, é isso que queremos ensinar para as nossas meninas? Não só as meninas, mas a todos? Se diminuir para o conforto do outro?

Não me venha com um “ah, mas é só um livro!”, porque os adolescentes leem isso e absorvem isso e vão viver essas coisas e vão achar que é normal! Tem gente, sim, que consegue separar ficção da realidade e perceber “opa, tem algo errado!”. Nem todo mundo é assim, uma pena. Só quero deixar registrado que não sou a favor do relacionamento dos dois e nunca vou ser, não acho o Peter fofinho e sensível. E eu não quero, de forma alguma, que as pessoas vejam o que eles têm e achem lindo. Porque, queridos, não é.

Bem, minha opinião sincera. Se eu indico o livro, depende. Não é um livro ruim, mas ela podia ter feito algo muito diferente com esses personagens. O plot é ótimo, foi bem trabalhado. Só que não dá para engolir o Peter, ninguém vai conseguir me fazer gostar dele. E, pelo que eu soube, isso aqui é só o começo. Lara Jean vai ter que aguentar muita merda por causa dele, e eu sinto pena dela. Ela é doce, boa e tem um coração enorme. E, assim como eu não consigo aceitar certas coisa, eu não quero que ela aceite.

Se vocês lerem Para todos os garotos que já amei com essa perspectiva, nossa, nós vamos ter muito o que conversar. Todavia, um leitor mais ingênuo pode cair em um buraco negro. Por fim, quero indicar a vocês um vídeo da JouJout muito famoso, Não tira o batom vermelho. Ela ficou conhecida exatamente por esse vídeo no qual fala sobre relacionamentos abusivos e como identificá-los:

Ufa! Exorcizei esse sentimento sufocante…

Beijos, May.

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8 thoughts on “Para todos os garotos que já amei, de Jenny Han, e Não tira o batom vermelho, de JoutJout”

  1. Menina, não sabia que o relacionamento abusivo do qual cê falou outro dia era nesse nível… Concordo com tudo, sério. Minha irmã, por exemplo, tá dentro do público alvo desse livro, e eu não quero que esse tipo de leitura construa um comportamento submisso nela, com a justificativa de que “ah, o cara é filho da puta, mas é fofinho” ou “ah, ele vai mudar” ou “o amor vence tudo”. Quem acha que um único livro não interfere na opinião de uma pessoa precisa rever suas concepções sobre literatura. E isso, na minha opinião, deve começar a mudar também com os escritores…

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    1. Ai ai, Vlaxio, isso é só o início. Ela tenta consertar a história dos dois no terceiro livro e acaba fazendo a Lara Jean ser o lado abusivo do relacionamento. Digamos que ela de fato não entende a merda que ela estava fazendo, sem um pingo de sentido…

      XOXO

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  2. Nossa, obrigada pela resenha !
    E quanto ao vídeo, foi muito esclarecedor, conheço algumas pessoas que sofrem com relacionamento abusivo, e não percebem, é aquela história “quem está de fora, tem mais visão sobre a situação”, vejo que é isso que realmente acontece, tantas vezes eu tentei abrir os olhos de pessoas próximas, e elas não aceitam, não querem acreditar, não querem largar o parceiro, é algo muito difícil de resolver, principalmente quando a vítima não se enxerga como vítima, e as pessoas que tentam intervir, acabam sendo os vilões.

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  3. Muito bem escrito seu post e eu acredito q se não for para ser sincera melhor não escrever, então continue assim q continuarei lhe acompanhando. Sou da mesma opinião sobre ter pessoas q absorvem aquilo que lê, assiste e por isso não curto livros que façam apologias e vou lhe confessar q eu no seu lugar não teria conseguido ler até o final, obrigada pela excelente resenha e estou no aguardo da sua próxima postagem.

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    1. Oi, Joyce!

      Demorei para responder esse post porque eu precisava colocar minha capa de menina de 16 anos e tentar não ferrar com a cabeça de ninguém. As vezes sou sincera demais… Estava pensando que se eu tivesse lido esse livro quando eu tinha a tal idade mencionada não teria feito diferença. Sabe por que? Todos os livros eram assim. A maior coisa que abriu meus olhos para isso, entender que não tá certo isso não, foi ler Corte de Névoa e Fúria. Hoje eu não deixo nada passar. Contudo, se eu tivesse lido Corte de Névoa e Fúria quando eu tinha 16, eu não teria deixado passar muita merda dos meus namoradinhos de escola, teria sido muito mais forte, mais determinada.

      XOXO

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  4. Oi May!
    Primeiramente agradeço pela lúcida e informativa resenha.
    Em segundo lugar agradeço por ter abordado de forma tão direta o impacto positivo ou negativo que as leituras podem exercer nos leitores.
    Acredite, estava discutindo gora a pouco em um IG esse efeito causado pelos contos de fadas nas crianças. Sim, contos de fadas servem para “formar” mulheres submissas e a mercê de uma sociedade patriarcal.
    Escrever sobre, sem mostrar o lado da reação, enfeitando e situação, para mim é sim perpetuar de certa forma.
    “50 Tons de Cinza”, “A Garota do Calendário” “Crepúsculo”, poderia falar inúmeras outras obras que exibe a figura feminina como dependente da figura masculina, muitas vezes camufladas, mas as raízes do patriarcal e do machismo estão ali, como os abusos disfarçados de “o meu jeito estranho de te amar”. Nem vou comentar os exaltados romances da literatura clássica brasileira extremamente respeitados pela Academia.
    Abuso físico e psicológico nunca foi e nunca será amor. Foda (desculpe-me o termo) é ver mulheres idolatrando essas situações, mas quem sou eu para julga-las?
    Afinal, foi assim que cresceram, foram “educadas”. Cabe a nós, e as demais que no momento não tem mais o véu da alienação nos olhos tentar alertar as demais.
    E sim, acredito que livros influenciam. Os assuntos devem ser abordados, mas as desconstruções devem estar presentes na obra também.
    Relacionamentos abusivos apresentam-se também em relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, familiares, amizades… Espero que todas as mulheres possam perceber isso um dia e libertar-se dessas amarras.
    Sobre o interesse em ler?
    Quem sabe um dia…

    Beijos May!!!

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    1. Oi, Samy! Demorei para te responder esse, mas foi por uma boa causa. Eu NUNCA, nunca mesmo, vou deixar que contos de fadas cheguem perto dos meus filhos. Ao mesmo tempo em que poluem a mente das meninas, acabam com a sensibilidade dos meninos. A questão do ser forte sempre, não poder mostrar fraqueza e “síndrome do herói” são reforçados aí.

      Você já ouviu falar de Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes? É esse tipo de livro que vou ler para as minhas filhas, histórias reais de mulheres incríveis e que servem de exemplo de força e superação.

      E, mais uma coisa, que se foda a “Academia”, por muito tempo só quem sentava a bunda naquele lugar eram homens mesquinhos com uma ideia insustentável de liberdade.

      Então, sim, é uma luta de dia-a-dia. E não podemos nos calar.

      Beijos, May.

      Curtido por 1 pessoa

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