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Mia Couto: para ler, reler e inspirar

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Imagine que você é um pescador que vai ao mar e se perde por longos dias. Em determinado momento, seu estômago começa a protestar e a fome ameaça te levar à loucura. Você não tem isca para pescar, por isso não tem o que comer. Cansado, sedento, faminto, alucinando, você chega ao extremo da insanidade e arranca um dos próprios olhos para usar como isca.

Foi assim que conheci Mia Couto.

Na realidade, a premissa anterior refere-se a um dos muitos contos do autor, e faz parte da coletânea Cada Homem é uma Raça que eu resenhei aqui no ano passado. Esse conto em particular, O Pescador Cego, me deixou na dúvida se Mia Couto era bom ou não. Contudo, o lapso de indecisão nada tem a ver com a capacidade narrativa dele, muito pelo contrário. Foi apenas a história que me pegou do avesso.

Por isso, continuei lendo os outros contos do livro para poder me situar entre o gostar e o não-gostar. O resultado da minha experiência não podia ter sido melhor. Ao final das páginas da coletânea, eu já tinha quedado de amores não apenas pela qualidade literária do autor, mas, principalmente, pela grandiosidade que ele tem de falar sobre coisas pequenas.

Vamos por partes.

Dando continuidade aos trabalhos do Literatour, vim conversar com vocês hoje sobre um dos escritores pelos quais tive a sorte de me apaixonar, tanto no quesito literário, quanto pelo profissional e pelo pessoal.  Em sendo assim, espero encerrar o mês da África aqui no Silêncio Contagiante em grande estilo.

Bem…

Mia Couto é na verdade um pseudônimo. O verdadeiro nome do autor é Antônio Emílio Leite Couto. O cara é um biólogo do Continente Africano, mais especificamente de Moçambique, país no qual nasceu em 5 de julho de 1955. Entre seus trabalhos, é possível encontrar diversas estruturas narrativas, das quais se destacam a poesia, o conto, a crônica e o romance, geralmente escritos em prosa. Não surpreendentemente, o autor já foi publicado em mais de vinte países, percorrendo um caminho no universo da literatura desde a década de 80.

Os dois primeiros livros que li dele foram presentes de aniversário de uma professora – hoje minha amiga e colega de trabalho – que é apaixonada pelas obras dele. No começo, tive certa resiliência em iniciar as leituras, mas isto se deu porque meus preconceitos borbulharam e eu acabei torcendo o nariz muitas vezes. Quando finalmente larguei mão de ser besta e dei uma chance ao Cada Homem é uma Raça, não apenas paguei minha língua, como também fiquei encantado para uma vida inteira.

No que concerne à escrita, só posso me prostrar diante da sabedoria de um gênio. Consigo compará-lo facilmente como Ernst Hemingway, Machado de Assis e, por que não?, Agatha Christie. Devo acrescentar, também, que ele não é apenas um biólogo e escritor. À sua versatilidade intelectual somam-se os adjetivos de pensador, filósofo, sociólogo, professor, ativista, porta-voz da liberdade e igualdade em todos os campos da vida, etc. Para quem se interessar de verdade por ele, é só dar uma passada no YouTube e se deliciar com um mundaréu vídeos em que o autor nos presenteia com um show de oralidade, sempre se posicionando a favor daquilo que é certo, que é justo, que é sensato.

Não tenho qualquer dúvida de que Mia Couto será um nome lembrado para muito tempo após sua morte. Ouso dizer inclusive que ele é um dos melhores escritores do mundo que ainda estão vivos (e vai ficar nessa terra por muitos anos mais, já que ele tem uma ótima saúde e ainda nem é idoso). É uma grande honra, na minha opinião, ter a oportunidade de apreciar as obras de um ícone quando ele ainda nem é reconhecido com todos os louros que merece, quase como se estivéssemos fazendo parte da história da literatura ao nos permitirmos ler histórias claramente universais e transcendentais.

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Um dos motivos que mais pesam na minha paixão pelo trabalho do autor é o fato de que ele nunca menospreza situações corriqueiras, nem esnoba do cotidiano medíocre ou sequer apequena a vida deste ou daquele ser humano. Para ser sincero, o que ele faz é incrível exatamente porque não tem pretensão alguma de ser grande. A simplicidade das histórias que ele conta permite que seus livros sejam lidos pelo maior dos intelectuais e por um trabalhador com poucos estudos, sem qualquer falha na compreensão do que foi passado.

Em outras palavras, Mia Couto não tem medo de andar com a ralé, de sujar os pés de barro, de dividir a colher com desconhecidos, nem nega um abraço a quem lhe pede. Talvez sua personalidade cosmopolita lhe dê habilidades sociais que estão acima de uma estrutura padronizada, isto é, o despojo do comportamento que lhe é característico sempre termina por trazer boas companhias, histórias fascinantes, conversas amigáveis e experiências de valor inestimável.

No caso dele, a máxima popular “você colhe aquilo que planta” ganha um significado todo remodelado, no sentido de que estar bem e fazer as pessoas ao seu redor se sentirem bem pode ser uma das maiores recompensas do gesto humano. Como consequência, essa grandeza de homem reflete, enfim, naquilo que ele escreve, tornando seus trabalhos mais verossímeis, ou pelo menos mais próximos da realidade dos leitores que, desprovidos de preconceito, encontram em Mia Couto um autor para ler, reler e inspirar.

Isso é tudo por hoje, meus caros.

Até a próxima.

Vlaxio.

6 comentários em “Mia Couto: para ler, reler e inspirar”

  1. Gostei bastante da forma que essa publicação começou, rs.
    Conheci o Mia Couto na e´poca que ia prestar vestibular. Li “O Último Voo do Flamingo” e adorei!
    Ao entrar na Universidade qual foi um dos nomes mais citado?
    Ele mesmo, Mia Couto (metade da galera achava se tratar de uma mulher). Li alguns contos sem seguir uma ordem cronológica, pretendo em breve adquirir um dos recentes livros lançados por ele. É sem sombra de dúvidas um escritor maravilhoso.
    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

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