Resenhas

Resenha: Dois Irmãos, de Milton Hatoum, por Thamires Moura

Chamo-me Thamires Moura, 24 anos, sou formada em Letras – Língua Portuguesa. Nesta resenha, irei falar um pouco sobre a obra Dois Irmãos do autor Milton Hatoum. Essa obra é de extrema importância em minha vida, pois marcou meu primeiro período na faculdade e a partir daí os livros do Milton me acompanham em todos os momentos. Agradeço muito o espaço para falar dessa obra tão importante para mim.

Publicado em 2000, Dois Irmãos se refere ao segundo livro do autor amazonense Milton Hatoum. Onze anos depois da publicação de sua primeira obra, Hatoum retorna aos temas recorrentes em suas tramas, que consistem no drama familiar e da casa que se desfaz.

O enredo deste romance apresenta a história de dois irmãos gêmeos – Yaqub e Omar – e suas relações com sua família – a mãe, Zana, o pai, Halim e a irmã mais nova, Rânia. Além deles, moram na mesma casa Domingas, a empregada da família e seu filho Nael.

Um aspecto importante na narrativa é a maneira como é construída pelo autor. A história é narrada por Nael, um menino cuja infância é moldada pela condição de ser o filho da empregada da família. Milton Hatoum apresenta através desse narrador um enredo delicado marcado pelo lirismo e por um jogo com a linguagem que impossibilita o leitor de ter um sentido prévio da narrativa. Ao contrário, esse sentido é construído aos poucos no decorrer da leitura.

Isso ocorre pelo fato de a narrativa ocorrer através de uma forma não-linear. Nael apresenta os fatos do passado sem a presença de um início, meio e fim. Desse modo, reconstrói os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu aquelas histórias e as guardou. Ao fazer isso, busca em vão sua própria identidade corroída em meio a tantas lembranças e dúvidas que o deixa sem respostas.

A história se inicia através de uma narrativa in ultima res, na qual o discurso narrativo começa com um acontecimento que pertence ao desfecho da história. Esse desfecho se refere à venda da casa e à morte de Zana, em que a personagem, mesmo em seus últimos momentos em vida, pergunta à filha e à amiga quase centenária se seus filhos fizeram as pazes. A partir daí, Nael volta ao passado e apresenta a volta de um dos gêmeos Yakub, do Líbano. Além disso, relata a rivalidade entre os gêmeos e o acontecimento que ocasionou no embate entre os dois e, por conseguinte, a separação deles e rivalidade presente entre os dois até o fim da narrativa. Em meio a relatos de histórias que ouviu, expõe os anos referentes à Segunda Guerra e às dificuldades sofridas durante esse período.

Em um segundo momento, volta novamente a um passado ainda mais longínquo e apresenta uma Manaus de 1914, marcada pelos anos que sucederam ao “boom” da borracha. Ainda nesse segundo momento, é apresentada ao leitor a história de Halim e Zana, dois jovens libaneses que chegam à Amazônia no início do século acompanhando o fluxo migratório que ocorreu nesse período. Desse modo, o imigrante tem um papel importante na narrativa, pois a família em questão formada pelo casal e pelos filhos assimila uma parte da influência externa sofrida pelo meio e ao mesmo tempo mantém hábitos de sua cultura, e, assim, forma uma intercessão entre esses espaços e a relação entre eles.

Após voltar a passados longínquos e relatar histórias que lhe foram contadas, o narrador retoma a narrativa como testemunha daqueles fatos. Em meio a esses relatos, revela outro aspecto que consiste em uma das características marcantes das obras de Hatoum, o espaço. Dois Irmãos apresenta Manaus como personagem de seu romance e, assim, aponta duas cidades: uma, erigida em terra firme; e a outra flutuando sobre as águas.

Ainda nessa perspectiva do espaço, é importante levar em consideração o tipo de espacialidade retratada. A cidade erigida em terra firme se refere a um espaço marcado pela presença da floresta amazônica e pela abundância de igarapés que cortam a cidade e formam uma arquitetura singular. Já a cidade que flutua sobre as águas se trata de uma cidade em desenvolvimento, acompanhada do desmatamento em larga escala ocorrido entre os anos 60 e 70. Nesse período de desenvolvimento, a cidade se resumia à região portuária, com a presença de poucos bairros sendo um deles o centro da cidade, local onde é narrada a maior parte da história.

Além de apresentar duas cidades, o romance apresenta uma ambientação reflexa, onde o narrador produz através de sua percepção o ambiente que se constrói a narrativa. Nesse âmbito, Nael retrata o ambiente de uma maneira intimista, onde apresenta seus passeios pela cidade a mando de Zana, para cumprir os afazeres solicitados por ela. Dessa forma, o enredo é narrado por uma descrição da cidade, conseguindo, assim, “uma combinação de sensações que recriam a cidade cheia de odores (…), de sons (…), e sabores (…) bem como um grande conjunto de coisas vistas.” (SLATER, 2001, p. 354).

Portanto, Dois Irmãos se trata de uma obra singular, marcada por um enredo lírico e marcante, com a presença de personagens bem construídos e complexos. Assim, sua narrativa é construída de forma não-linear onde o narrador espera uma casa desmoronar para, então, contar sua história, que é também a história de uma família, e, assim, buscar sua identidade.


O LIVRO

Título: Dois irmãos

Autor: Milton Hatoum

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 200

Ano: 20-

Adicionar: Skoob

Comprar: Amazon


REFERÊNCIAS

CRISTO, Maria da Luz. Arquitetura da memória: Ensaios sobre os romances “relato de um certo oriente”, “dois irmãos” e “cinzas do norte” de Milton Hatoum. Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas.

BONNICI, Thomas. ZOLIN, Osana Lúcia. Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. In: Operadores de leitura da narrativa. ____: EDUEM, 2009.

HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

3 comentários em “Resenha: Dois Irmãos, de Milton Hatoum, por Thamires Moura”

  1. Olha que intetessante sua resenha, eu apenas tinha ouvido falar da série que a Globo exibiu e que eu não assisti.
    Eis que tempos depois descubro que a série foi uma adaptação literária e que o autor é amazonense.
    Obrigada Thamires pela sua excelente resenha e volte sempre ao nosso blog.

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  2. Oi Thamires!
    Mana, que coincidência, um dia desses eu estava me lembrando da série da globo, assisti somente alguns capítulos e uma coisa que me marcou, foi a paixão de Halim por Zana, pense no homem apaixonado!
    Sem dúvidas é uma leitura que irei fazer, uma autor amazonense, e o romance ambientado na minha terrinha, quero demais!

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