Livros, Resenhas

Resenha: Muito amor por favor, de Arthur Aguiar [et al] + Abrace o deboísmo e seja good vibes

Olá, terceiro dia do ano.

Olá, Contagiante!

Pronto(a) para mais um dia de resenha nessa maratona perfuro-coração-cortante que o blog oferece a você? Vai, admite, eu sei que você tá gostando…

Hoje, a terça-feira está linda, maravilhosa, meio proxeneta, meio cafetina. Por isso, resolvi conversar com você sobre um livro amorzinho, que, mesmo tendo alguns pontos baixos (baixos-nível-cacimba), serviu para inspirar um sentimento todo particular neste meu objeto em desuso emocional que se chama coração.

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Sem mais delongas, apresento-lhe ‘Muito amor por favor: um sentimento em quatro elementos’, escrito por Arthur Aguiar, Frederico Elboni, Ique Carvalho e Matheus Rocha. Para ser sincero, devo confessar que li este livro com muitas torcidas de nariz e reviradas de olhos; isso se deve, porém, em parte, não ao conteúdo em si, mas aos pré-julgamentos ad hominem que fiz aos autores. Portanto, vamos conversar sobre eles primeiro.

Saiba que o livro tem, como supramencionado, QUATRO autores, mas em praticamente todos os lugares que vi a divulgação do livro (fosse em livrarias, blogs, YouTube, mídias sociais, etc.), tive a sensação — fundamentada, okay? — de que a obra estava sendo oferecida com um único autor, que é o tal do Arthur Aguiar. Isso é errado do ponto de vista econômico? Claro que não! É até preferível, se isso significar mais vendas. Contudo… põrrann… é um pouco de sacanagem com os outros autores que são apenas um pouquinho menos conhecidos que o Arthur.

Talvez você, assim como eu, não tenha a menor ideia de quem é Arthur Aguiar. Mas é provável que você, novamente assim como eu, com certeza o conheça pela mídia — apenas não ligava o nome à pessoa ainda. O Arthur já tem um histórico de famosidade, e esteve engajado em novelas conhecidas, bandas badaladas (cof cof) e composição de músicas de razoável sucesso (cof cof cof). Em sendo assim, nada mais natural que o colocar na função de garoto-propaganda do livro. Tanto é verdade, que os textos do Arthur aparecem em terceiro na ordem estrutural do livro, mas na capa ele é o primeiríssimo (e nem me venha argumentar que é porque está em ordem alfabética, que eu não nasci ontem).

Não sejamos hipócritas, você e eu. Isso acontece e muito no mercado editorial. O próprio livro que resenhei no domingo, ‘O Príncipe de Westeros’, tem ninguém menos que George R. R. Martin como garoto-propaganda. ‘Deixe a Neve Cair’, também, possui mais de um autor, porém, grande parte dos compradores adquiriu o livro por causa do nome do John Green estampado em letras garrafais e berrantes na capa. Nem sei por que estou falando sobre isso; acho que seja um tipo de incômodo da minha parte, porque simpatizo com os outros autores que, em maior ou menor escala, acabam ficando à sombra do carinha famoso que empresta o prestígio (cof cof) ao livro. Enfim, deixo aqui meu… desabafo…?

Então, vamos lá!

‘Muito amor por favor’ traz a proposta de falar sobre relacionamentos, expressando o sentimento do amor numa representação dos quatro elementos da natureza, tendo cada autor sido incumbido da responsabilidade de um deles. Apresenta-se na seguinte ordem: Fogo (Ique Carvalho), Terra (Matheus Rocha), Água (Arthur Aguiar), e Ar (Frederico Elboni). Todos os autores escreveram vinte textos cada, menos o Arthur Aguiar, que escreveu quinze. Chamo de ‘textos’, porque não são bem contos, nem mensagens, mas figuram pelo meio-termo disso [embora eu deva dizer que, em muitas vezes, o livro parece — como tenho quase certeza de que é — uma compilação de posts de blog feitos pelos caras, à exceção provável do Arthur]. Na Ficha Catalográfica, o livro está classificado em Psicologia, e — posso falar? — não concordo. Só porque fala de relacionamentos, não quer dizer que se trata de uma terapia de casal. Mas, enfim, só encasquetei com isso por causa da minha formação acadêmica, portanto, releve.

Infelizmente, não posso dar sinopses dos textos em si, porque alguns deles não são maiores que duas páginas, por exemplo, e uma sinopse se enquadraria em spoilers imediatos. Mas posso, como irei, falar da proposta de cada elemento da natureza dentro da temática de relacionamentos amorosos. Nesse quesito, o livro ganhou alguns pontos extras, porque cada autor soube incorporar muito bem seus respectivos elementos da natureza aos textos falando sobre a vida entre duas pessoas.

Primeiro, temos o Fogo. Ah, o Fogo! Tão superestimado… tsc tsc tsc. Esse elemento foi o que eu menos gostei, porque achei que os textos condiziam mais com um comportamento adolescente, mesmo com o Ique Carvalho sendo o mais velho da turma. Em sendo assim, é provável que eu não seja o público mais indicado para esse tipo de pegada, e não que os textos sejam ruins. Quem gosta de paixões avassaladoras é adolescente, rá-rá, adulto mesmo gosta é de dividir entre os consortes as contas pra pagar no fim do mês. Okay, exagerei. Minha maior reclamação seria o fato de que, nessa parte do livro, confunde-se crueza de narrativa com sinceridade. Como você deve saber, o Fogo é o elemento quente, que marca, incendeia os corações e aquece a frieza emocional. Logo, os textos do Ique Carvalho vão exatamente por esse caminho, sendo mais apropriado a pessoas com essas características. É claro que gente mais velha como eu tem todo potencial para se dar bem com esses textos, posto que o amor inflamável é uma virtude do ser humano em todas as idades. Melhor texto dele para mim foi ‘A faísca”.

Depois, temos a Terra. De longe, meu elemento da natureza favorito nesse livro. Depois do desencontro de empatia que tive com o autor do elemento anterior, fiquei surpreso ao encontrar no Matheus Rocha uma sensibilidade muito refinada e zelo pela sinceridade — a sinceridade verdadeira, não forçada. Não surpreendentemente, o elemento da Terra fala do amor de maneira um tanto melancólica, centrada, firme sobre um solo estável. Mas também pode ser terremoto, escorregão, deslize. Entende? Os textos do Matheus Rocha me surpreenderam ainda mais porque ele é bem jovem, mas pensa como alguém mais experiente, sabichão em termos de relacionamentos. Meu favorito dele foi ‘Amor pé no chão’, mas gostei muito de vários outros.

Em seguida, vem a Água, que competiu acirradamente pelo posto de elemento menos favorito com o Fogo. Pode até parecer que eu tô de perseguição ao Arthur Aguiar, mas, em toda minha imparcialidade, digo que os textos dele foram os menos arriscados. Quer dizer, nem tão bons, nem tão ruins. Pairou ali entre a zona de conforto, e meio que só dizia o que provavelmente as pessoas gostariam de ler, entende, isso não é muito bom. Em contrapartida, penso que a Água é um elemento da natureza que se adequa perfeitamente aos textos do Arthur, pois tem uma característica híbrida — pode tanto aquecer quanto congelar, muito embora seja melhor ingerida na temperatura ambiente. Como os textos dele. Meu favorito foi ‘Quando um vira par’.

Agora, temos o Ar. Ao contrário do elemento anterior, o Frederico Elboni competiu acirradamente com a Terra pelo posto de favorito. Os textos nessa parte são leves, despretensiosos, mas também apresentam calamidade, vendaval. A brisa no rosto — ou o amor cadente, como gosto de chamar — é o melhor remédio para uma pessoa romântica. Também fiquei surpreso de ver que o Frederico tem a mesma idade que o Matheus, e concluí que, nesse livro, parece que a experiência ficou com os mais novos. Irônico, não? Mas também é formidável. Foi difícil escolher um texto que mais gostei do Frederico, mas vou ficar com ‘Leveza’.

O livro em si valeu a pena, porque as leituras são muito rápidas e conseguem entreter bastante. Você começa a ler o Fogo, termina os vinte textos, acaba começando a Terra, e, quando se dá conta, já passou pela Água e está terminando o Ar. Leitura de um dia que eu recomendo para você, se estiver a fim de começar o ano com um livro menos pesado, mais despojado e que pode te trazer algumas experiências com as quais você com certeza vai acabar se identificando.

Meu adendo, porém, é o seguinte: acredito que um dos objetivos do livro foi deixar claro que homens podem, sim, falar sobre o amor de maneira clara, aberta e sem melindres. Isso foi ótimo, sério mesmo, até incentivo que aconteça mais vezes esse tipo de iniciativa. Entrementes, cadê o livro das mulheres, dona Sextante? Quero pra ontem! Se eu, que não sou dado a esse tipo de leitura, gostei de ler essa compilação masculina, também faço questão de consumir outros 75 textos escritos por mulheres — de preferência com mais diversidade, okay?

U T I L I D A D E    P Ú B L I C A

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Para quem gosta dos caras e quer ter o autógrafo deles guardadinho no exemplar, vejam só! O ‘Muito amor por favor’ vai entrar em turnê. É a sua chance de aproveitar para tirar uma lasquinha dos rapazes, e ainda, de quebra, dizer pessoalmente o que você achou do livro. Eles vão passar por São Paulo (11/01), Curitiba (12/01), Rio de Janeiro (17/01) e Belo Horizonte (18/01). Se você mora por perto dessas cidades, recomendo que dê uma passadinha para dizer oi.

abrace

Agora minha proposta para você é que abrace o deboísmo e seja good vibes. Faça amor, não faça guerra! Que tal aproveitar o começo de 2017 para traçar algumas metas no sentido do coração e da vida como um todo? A gente sabe que o que mais tem por aí são pessoas ruins, com olho grande, que aparentemente gostam de nós, mas nos passam uma rasteira na primeira oportunidade que surge. Tudo bem. Entretanto, ser igual a essa gente mal-amada, mal-relacionada, mal-lida e mal-feliz não vai acrescentar nada à nossa vida, certo?

Não pense que o Silêncio Contagiante acabou de se tornar um blog de relacionamentos — deus que afaste de mim esse cálice! —, porém, como vivo dizendo, somos phynos e por isso temos de visar ao sucesso em todos os campos da nossa existência, não é não? O filósofo francês Jean-Paul Sartre tem uma célebre frase que diz: “O inferno são os outros”. Nada mais verdade do que isso, eu sei. Todavia, é bem provável que a gente esqueça com frequência que você eu também somos os “outros” para pessoas diferentes, e isso nos potencializa como infernos.

A NÃO SER QUE — parafraseando mais uma vez o que eu disse a um querido amigo — deixemos de encarar a felicidade como se ela levasse a um desfecho grandioso. A felicidade, na minha humilde concepção de pseudopensante, é algo particionado, dividido, categorizado e seccionado. O que isso quer dizer? Que não existe uma GRANDE felicidade. Existem pequenas felicidades que não precisam ter uma razão de ser. Se você precisa agregar valor às coisas pequenas, pode acabar perdendo a essência delas, sabe, e isso tira o gosto da vida.

Desencana! Permita-se ser feliz com coisas supérfluas, sem que elas te façam pensar que você está procrastinando algum objetivo colossal importante para a sua existência. Assista a um filme com um amigo, experimente pipoca com açúcar e pimenta, não tenha medo de admitir que gosta de uva-passa, aceite o seu bad-hair-day, ande por aí com o esmalte da unha todo esfolado, tome banho na chuva, cante no chuveiro, durma mais cinco minutos, diga eu te amo para os seus pais.

Abrace logo o deboísmo da vida e seja de uma vez por todas good vibes.

Nem precisa ser de humanas pra isso, vai por mim!

E eu me despeço aqui por hoje. Espero que eu não tenha sido muito piegas — mais do que o normal, pelo menos — e que vocês tenham curtido a resenha. Amanhã estarei de volta com mais um must-read e gostaria da sua companhia nessa jornada meio maluca, meio la bamba que é uma maratona de resenhas.

Há braços.

Vlaxio

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